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Drogas: Qual delas é a mais pesada?

Todas as substâncias citadas aqui são consideradas drogas. Lícitas, como o álcool, ou ilícitas, como a cocaína, são drogas

Drogas: Qual delas é a mais pesada? Drogas: Qual delas é a mais pesada?

Por Dr. Carlos Augusto de Medeiros

Recentemente o ator Fábio Assunção veio novamente às manchetes com uma declaração dramática: “o álcool (…) é a droga mais pesada que já conheci”. Essa afirmação é chocante pelo fato de o ator ser mais conhecido, na atualidade, por seus problemas com drogas do que pelas suas atuações. Ou seja, mesmo sofrendo as consequências de um histórico de abuso de drogas ilícitas tradicionalmente consideradas “pesadas”, para ele, o álcool é a pior delas. Curiosamente, no mesmo dia em que li essa matéria, recebi em um grupo de WhatsApp, um vídeo de um jovem branco e bonito chamando de hipócrita o jornalista e crítico musical Nelson Motta por recentemente ter admitido usar maconha, uma droga ilícita, por 55 anos.

O crack, a cocaína e a heroína são, pelo menos para os leigos, as drogas mais pesadas. Juntamente com a maconha, todas três tem em comum entre si e com as drogas sintéticas, como o LSD e o Ecstasy, o fato de serem ilegais. Já o álcool, como o tabaco, a anfetamina (base de remédios para emagrecer e para tratamento de transtornos de atenção) e os psicofármacos (ansiolíticos, antipsicóticos e antidepressivos), é legalizado.

Entre as drogas legalizadas citadas por mim, o tabaco e álcool se diferenciam dos demais por requerem apenas que os sejam maiores para comprá-los. Os remédios à base de anfetamina e os psicofármacos têm um controle maior, uma vez que requerem receita médica para serem adquiridos, o que não tem sido um embaraço realmente impeditivo para muitas pessoas. Todavia, em questão de facilidade de acesso, nada se compara ao álcool.

O primeiro ponto que precisa ser esclarecido é que, para fins psicofarmacológicos, todas as substâncias citadas aqui são consideradas drogas. Há, no senso comum, a confusão de que apenas as ilícitas são drogas, entretanto, o álcool, o tabaco, a maconha, a cocaína, o ecstasy, o LSB, o crack e, até o cafezinho, são consideradas drogas.

Mas por que algumas são legais e outras não? O critério mais intuitivo é o prejuízo que o consumo de tais substâncias traz para quem as consome e para a sociedade, além do nível de dificuldade de espontaneamente parar de consumi-las.

Tomemos o crack e o café como exemplos extremos. Há estudos que demonstram que é praticamente impossível deixar de usar crack sem tratamento médico, sendo o prognóstico, muito ruim. Além disso, vemos pessoas definhando pessoalmente e depauperando o próprio patrimônio e o de suas famílias quando começam a usar crack. São comuns relatos de pessoas que entraram em condição de rua ao passar a usá-lo. O uso de crack também é um problema de segurança pública, uma vez que muitos usuários cometem delitos, assim como fazem os traficantes. Ou seja, o crack é um grave problema de saúde e segurança públicas. Parece, portanto, difícil de achar alguém de defenda a legalização do comércio de crack.

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Já o cafezinho, em comparação ao crack, é praticamente inofensivo. Em certas doses, pode até fazer bem no tratamento da cefaleia e na sonolência diurna. Também pode trazer consequências indesejadas, principalmente para o indivíduo, como insônia, diarreia, ansiedade e irritabilidade. Por outro lado, a desintoxicação do café não é comparável a das demais drogas aqui citadas. Dificilmente, portanto, encontraríamos alguém de defendesse a criminalização do comércio e do consumo de café.

Agora vamos aos casos do álcool e da maconha. Como o crack, o tratamento do alcoolismo tem prognóstico ruim, como inúmeras recaídas. Pessoas, sob o efeito de álcool, cometem crimes contra as pessoas e contra o patrimônio. Podemos citar a violência doméstica como um exemplo. O abuso de álcool também tem efeitos dramáticos sobre a capacidade laborativas dos dependentes. Também vemos pessoas definhando pessoalmente, depauperando o próprio patrimônio e, literalmente, entrando em situação de rua. Por fim, podemos citar as diversas doenças associadas ao abuso de álcool, como gota, cirrose e diabetes. Analisando dessa forma, a única diferença do álcool em relação ao crack é o tráfico.

A despeito da eficácia da lei seca como forma de redução da violência no trânsito ser comprovada por números, sempre considerei que, se chegamos ao ponto de proibir o consumo de qualquer dose de álcool antes de dirigir, deveríamos fazer o mesmo em outros contextos em que o álcool é consumido. A comparação com os efeitos do crack fala por si nesse ponto.

Sem dúvida, a maconha também pode trazer problemas para o indivíduo e para a sociedade. Há relatos na literatura de que o uso de maconha, a depender da dose, pode resultar em déficits cognitivos, em crises de ansiedade e no desenvolvimento de quadros psicóticos. Pessoas podem depauperar o patrimônio para adquirir a maconha, mas nunca nos mesmos níveis do álcool e do crack. Além disso, há uma baixa correlação entre comportamentos violentos e o consumo de maconha. Fora o fato de que inúmeras pessoas usam maconha e conseguem manter suas práticas laborativas sem prejuízo, como parece ser o caso do Nelson Motta. Boa parte dos problemas de saúde decorrentes do uso de maconha advém de componentes externos aos princípios ativos ou pela dificuldade de se ter doses precisas, o que seria amenizado caso sua venda fosse legalizada. Sem dúvida, a maconha, como o crack, traz os problemas do tráfico. Todavia, uma vez legalizada, como no caso do álcool, esse problema seria resolvido. O uso da maconha legalizada já tem se mostrado eficaz no tratamento de casos graves de epilepsia, por exemplo.

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Sem defender o consumo de maconha, mas ao compará-la com o crack e com o álcool, o critério dos prejuízos pessoais e sociais não parece se encaixar. Obviamente há explicações econômicas, políticas e históricas para que o álcool e o tabaco sejam legalizados, enquanto a maconha, não. Mas na hora de orientar nosso(a)s filho(a)s, é muito importante levá-lo(a)s a analisar essa situação de um modo mais profundo e crítico. Pais consomem álcool e incentivam o(a)s filho(a)s a consumi-lo e isso é muito perigoso. Afinal, há muito mais por traz de uma simples cervejinha do que se possa imaginar. Como alerta Fábio Assunção, o álcool é, sem dúvida, uma droga pesada e o acesso ela é praticamente irrestrito.








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