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Afinal “Brasília aumenta a distância entre os corpos”?: O perfil psicológico do candango… ou será… do brasiliense

Afinal “Brasília aumenta a distância entre os corpos”?: O perfil psicológico do candango... ou será... do brasiliense Foto: Daniel Zukko/Minha Brasília

Em comemoração ao aniversário de Brasília, inicio esse texto citando diretamente um cartaz pregado no viaduto antes do “Buraco do Tatu”, apelido dado ao túnel de passagem entre a Asa Norte e a Asa Sul por baixo da Rodoviária do Plano Piloto. Na época em que nossos carros eram carroças (cit. Fernando Collor), atravessávamos o corpo do avião pelo Buraco do Tatu com as janelas abertas sentindo cheiro de pastel com caldo de cana.

O verso “Brasília aumenta a distância entre os corpos” traz duas interpretações. Uma sugerindo que a disposição espaçada dos prédios no Plano Piloto em um “Cidade Parque” conforme idealizada por Lúcio Costa, literalmente, deixa as pessoas mais distantes. Na maioria das cidades brasileiras, como Rio de Janeiro ou São Paulo, os prédios são praticamente grudados uns nos outros. Para quem nunca saiu daqui, Águas Claras é um exemplo dessas “cidades de verdade”, cujas ruas, recebem nomes próprios (p. ex. Araucária) em vez de letras e números como L2 e W3. Nada impede que apelidemos as nossas vias de Pistão Sul, Eixão, Eixinho e Avenida das Nações, em subversão aos nomes que mais parecem versões de programas de computador (p. ex. L1, L2, W2 e W3).

Talvez a distância literal, principalmente no Plano Piloto, nos ajude a explicar a segunda interpretação do verso: a de que nós brasilienses “somos distantes”. Ou seja, que não damos espaço para que novas pessoas sejam inseridas em nossas “panelinhas”. Incontáveis são os casos de pessoas que vieram para cá por diversas razões, como a busca de oportunidade de uma vida melhor, por serem filhos de militares ou por terem passado em um concurso público, e que se queixam das dificuldades que encontraram em se enturmar. Muitas, inclusive, não conseguiram permanecer em nossa capital, retornando as suas cidades de origem. Quem nunca deu um “bom dia” no elevador e não obteve resposta, não pode dizer que visitou Brasília.

Realmente, o brasiliense não costuma “dar papo” para quem não conhece, ao contrário do que ocorre no Rio de Janeiro, onde, em dois minutos, já sabemos de toda a vida da pessoa que está na nossa frente na fila da padaria.

Dizia-se em outros tempos, que paquerar em Brasília era mais difícil e, ao mesmo tempo, mais fácil que em outras cidades. Difícil porque as moças não davam abertura para o início da conversa. Porém, era mais fácil porque só aceitavam conversar caso já tivessem algum interesse. Essa máxima, com uma pitada de machismo, serve de metáfora para ilustrar como é se enturmar em Brasília.

Realmente somos difíceis de nos abrirmos porém, quando o fazemos, as pessoas inseridas em nossas panelas viram praticamente membros da família, tanto é que meus amigos de adolescência chamam a minha mãe de “tia” até hoje.

Além da distância física, o fato de sermos predominantemente compostos por pessoas de origens distintas, que vêm e vão, pode ajudar a compreender a nossa pouca abertura às outras pessoas. Para quê vou me abrir a alguém tão diferente de mim que eu não sei se estará aqui no ano que vem?

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A escolha do Planalto Central como sede da nova capital fez com que fôssemos isolados do resto do país. Isso teve uma forte influência em nossa cultura, uma vez que raramente temos shows de músicos de renome nacional e internacional, assim, como temos pouco acesso a espetáculos de teatro, óperas, balés e musicais, em comparação às demais capitais do país.

“Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha”. Geramos nossos próprios músicos como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, Raimundos, Natiruts, Maskavo Roots, Cássia Eller e Zélia Duncan, assim como, nossos grupos de teatro como os Melhores do Mundo e o G7. Dizem que a cabeça vazia é a oficina do diabo. Parece que o tédio, por não ter nada para fazer, tão característico de nossa cidadezinha no meio do nada, nos anos 80 e 90, propiciou meios criativos de nos expressarmos. Além disso, a relação tão próxima ao poder, nos deu muita coisa acerca do que falar.

Inclusive, por sermos a capital do poder, temos a pecha de cidade dos corruptos. O que nos deixa particularmente aborrecidos, uma vez que os corruptos, em nível federal, são importados de outros estados. Não quer dizer que não tenhamos nossos próprios corruptos. Afinal, políticos oriundos da capital já estamparam as manchetes por aí em casos de corrupção.

Os nossos maravilhosos monumentos desenhados por Oscar Niemeyer servem de fundo para incontáveis reportagens exibidas nos telejornais do Brasil e do mundo. Tais monumentos, em uma cidade plana sob um céu maravilhoso, são um convite às atividades ao ar livre. Quatro meses sem chuva também facilitam o “rolê de camelinho (bicicleta)” no parque da cidade, pelo Eixão do Lazer ou pelas ciclovias do Plano Piloto. Fora o entretenimento no Lago Paranoá, com passeios de lancha, jet ski, stand-up paddle, piqueniques na orla, assim como os banhos e a pesca nas suas prainhas. Os usos diversos do Lago Paranoá ilustram outra marca da cidade: a segregação. De forma mais evidente que em outras cidades, no Distrito Federal, as classes sociais são divididas espacialmente. Na terminológica preconceituosa, há a “playboyzada do Plano e do Lago” e a “piãozada das Satélites”.

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Nas antigas Cidades Satélites, hoje Regiões Administrativas, o perfil é outro. Nessas cidades, o sangue ferve e restabelece o calor humano de pessoas que vivem no mundo real fora da nossa bolha de classe média alta. O carismático “Senti firmeza, Demacol”, caricatura dos jovens duros das satélites tentando se divertir no Plano, não poderia ser esquecido do nosso perfil.

Afinal, o perfil do candango é caraterizado pela diversidade de uma cidade composta por pitadas de pessoas de todo o Brasil. Cidade cujo contraste social é mais evidente que no restante do país. De qualquer forma, estamos construindo a nossa identidade, como pessoas reservadas, criativas, artísticas, conectadas à política, e que gostam de se divertir ao ar livre. Mas, antes de tudo, somos pessoas muito diversas.

Em tempos tão sombrios, termino esse texto desejando feliz aniversário para a nossa cidade e esperando, sinceramente, que venham dias melhores.

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