Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Blogs e Colunas

Recortes no Conto “Tempestades de Almas”

Então, resolvi pinçar alguns recortes “aforísticos” do texto de Clarice, e pensar a angústia do ser humano

Foto: Reprodução

Clarice Lispector

Os temas dos contos de Clarice Lispector suscitam associações psicanalíticas e filosóficas. A autora em toda sua obra  intriga o leitor com questões por demais angustiantes, principalmente quando adentra a intimidade do ser humano, a angústia do existir e sua permanente busca pela misteriosa indagação: quem somos nós? Quando começamos a pensar? O que se anuncia após o grito do nascer? Seremos um Ser? Ou estamos sendo durante o presente? Afinal só existe um tempo –  o tempo presente, pois o passado só existe no passado presentificado,  e o futuro no presente do desejo.

Lendo e sentido a escrita angustiante de Tempestades de Almas”, senti a turbulência do indizível e daquilo que a própria autora duvida se chega ao âmago da realidade consciente e inconsciente da alma humana. Então, resolvi pinçar alguns recortes “aforísticos” do texto, e pensar a angústia do ser humano. Escolho hoje as três primeiras frases onde a autora  provoca o leitor e escreve: “Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente”.

Nascer não é decidido por quem nasce, é uma queda, é uma condição de transformar o inumano em humano, e determinar um destino inexorável – a destinação da mortalidade. Imagine querido leitor, se fosse dado o direito de nascer! Imagino uma angústia terrível e uma ambivalência avassaladora. Clarice intui e logo associa com a loucura, pois nascer é realmente uma experiência enlouquecedora: dúvidas, incertezas, desamparo, movimento físico e psíquico de acolhimento duvidoso. Nascer pressupõe encontrar  após a queda, um ambiente onde alguém receberá com ternura o bebê, ou não! O homem é um ser adotado, pois a maternidade e paternidade não têm protocolos antecipados. A angústia enlouquecida do recém chegado a Terra é a mesma aflição maluca da mãe. Ambos se defrontam com uma experiência inédita, alegre, cheia de pânico e ao mesmo tempo, cheia de expectativas prazerosas. Daí, Clarice pensar e sentir: “ah, se eu sei,  não nascia”.

Imediato a isso, a nossa autora pré-concebe e escreve uma questão fundamental, já que se pode dizer que todos os humanos nascem “loucos”, no meu entender, loucos sanos! “engulo a loucura porque ela me alucina calmamente”. Bingo! Essa sacada leva a pensar que a forma mais sadia, ainda que angustiante é apreender a “loucura” como um recurso psíquico para suportar o enlouquecimento psicótico. Digerir instantes de “partes psicóticas da personalidade” como escreve o psicanalista indiano-inglês, Wilfred R. Bion, é tirar proveito da criatividade da própria loucura. É poético e real Clarice dizer “alucina calmamente”, pois  alucinar é um meio de elaborar angústias profundas, ainda pouco nomeadas no sentido  do pensamento formal. Do “antes do pensamento”, estado procurado com muita inquietação da própria Clarice em seu maravilhoso e intrigante  texto —- “Água Viva”.

Em toda a obra de Clarice Lispector somos levados, com muito trabalho de sentir e pensar e de se ler no texto, a entrar em contato com a música leve e tenebrosa dessa outra frase do “Tempestade de Almas”: “A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse germe, mas tenho  incipiente a loucura que em si mesma é criação válida”.

Carlos de Almeida Vieira Médico, Psicanalista. Membro Titular da Sociedade de Psicanálise  de Brasília, Analista Didata; Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; Membro da Federação Brasileira de Psicanálise e Associação Internacional de Psicanálise (Londres).

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE








Você pode gostar