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Quem ele achava que era?!

Quantos de nós somos cegos diante da dor de enfrentar as origens dos humanos, preferindo substituir a verdade pela arrogância, onipotência, onisciência e onipresença?!

Foto: Alex Green/Pexels

“Escolher a própria máscara era o primeiro gesto voluntário humano. E solitário.”

Clarice Lispector, em “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”

Até os dez anos de idade, era baixinho, loiro. Sua mãe fazia questão de vesti-lo sempre de branco, e branca e pura ele achava que era a sua pessoa, ou melhor, sua alma. Quando nasceu, o pároco de sua igreja teve um instante místico ao terminar a missa das sete da manhã, e falou para a tia dele que ele teria nascido de uma cestinha que veio do céu. Aí começa a máscara que durara até seus 12 (?) anos. Na escola, esse foi o seu apelido. Diga-se de passagem, que seus irmãos, não se sabe como, compraram uma cestinha e a colocaram em cima do guarda-roupa dele. Sempre lembravam: “Olha, foi naquela cestinha que você veio à Terra!”.

Crença é crença, principalmente quando se insufla o que os psicanalistas denominam de narcisismo primário. Vital (seu nome) acreditava e se sentia privilegiado por essa exceção. Num futuro próximo, se tornou coroinha e cruzado eucarístico, chegando a galgar o cargo de presidente da cruzada eucarística. Sua mãe sempre desejou que ele fosse padre!

Aos amigos nunca teve o menor pudor de dizer que ,quando comungava, era acometido de um sentimento de êxtase e meio que levitava, o que reforçava sua crença de ser alguém divino, extraterrestre, afinal, não é qualquer pessoa que possui uma origem divina, que é enviada por Deus.

Aos 16 anos, devido às várias fobias, medo de morrer e um sentimento quase permanente de estranheza, os pais de Vital o levaram a um psicanalista silvestre, ou seja, sem uma formação formal, canônica, mas uma excelente pessoa, acolhedor, meio esquisito — como a maioria dos psicanalistas. Para não tomar muito seu tempo, caro leitor, algum tempo após, durante o “tratamento analítico”, um dia, Vital contou a estória da cestinha que veio do céu. O doutor olhou, fez um silêncio meio meditativo de quem estava tendo uma inspiração e prontamente interpretou:

“Meu caro Vital, você acabe de me dizer que você não é consequência de um ato sexual, entre seu pai e sua mãe!”

Vital arregalou seus olhos, espantados, estonteados e logo retrucou: “Olha o respeito com meus pais, doutor! E digo mais: nunca os vi ter relações sexuais, mas um dia, no meio da noite insone, entrei no quarto deles e meu pai estava dando uma injeção na minha mãe”. O doutor escutou, respeitou e disse: “Quem sabe um dia você há de descobrir a verdade coberta pela sombra da sua máscara.”

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Existem mil razões para as pessoas não ousarem da coragem de perguntar: “Quem sou eu envolto na máscara?” Clarice Lispector escreveu, no Livro da Aprendizagem: “Na minha aprendizagem falta alguém que me diga o óbvio com um ar tão extraordinário”. Na estória de Vital, o Dr. pode falar, com respeito e consideração, mas quantos Vitais da Vida são míopes, estrábicos, cegos diante da dor de enfrentar as origens dos humanos, preferindo substituir a verdade pela arrogância, onipotência, onisciência e onipresença?!






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