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Os 200 anos de Fiódor Dostoiévski

Toda a obra de Fiódor tem profundas reflexões políticas, filosóficas, psicológicas e uma forte capacidade poético-literária

Retrato – Busto Dostoiévski

“É essa tendência inata de Dostoiévski de “sentir o pensamento” que dá às melhores obras uma marca especial, motivo pelo qual é tão importante situar seus escritos quanto à evolução das ideias da sua época”

Joseph Frank 

Dostoiévski nasce em 11 de novembro de 1821 em Moscou e falece em 9 de fevereiro de 1881, na cidade de São Petersburgo. Sem sombra de dúvida, um dos maiores romancistas da Literatura Universal, da Literatura Russa, além de um pensador profundo da alma humana, tanto suas alegrias e dores. Desde os romances Gente Pobre; O homem do subsolo; Humilhados e Ofendidos; O jogador; O Idiota; Crime e Castigo e os Irmãos Karamazov. Toda a obra de Fiódor tem profundas reflexões políticas, filosóficas, psicológicas e uma capacidade poético-literária em descrever a fenomenologia do existir humano. Escritor e pensador atualíssimo, o que lhe confere a condição de um Clássico, ou seja, um gênio que perpassa o tempo. Nosso filósofo, Luiz Felipe Pondé, em seu livro, “Crítica e Profecia – a filosofia da religião em Dostoiévski, escolhe no início de seu escrito, duas citações atualíssima: em “Diário de um escritor”, cita: “Os pregadores do materialismo e do ateísmo, que proclamam a autossuficiência do homem, estão preparando indescritíveis trevas e horrores para a humanidade sob pretexto de renovação e ressurreição. Adiante, lembrando um fragmento dos “Irmãos Karamazov”, assinala: “Ame toda a criação de Deus, ela inteira e cada grão de areia nela. Ame cada folha, cada raio da luz de Deus. Se amar tudo, perceberá o mistério divino nas coisas”.

Dostoiévski é um escritor intrigante, ambivalente, amoroso, profundamente deprimido, mas que sabe, como todo gênio, tirar proveito do sofrimento através de sua capacidade sublimatória de priorizar a vida, a esperança e a crença nos recursos psíquicos da alma humana. Não se pode ler o russo maior, como quem quer consumir a leitura. Dostoiévski tem a mesma intenção de Proust, quando escreveu que seus leitores lessem seus livros para “se ler”. É vazia uma leitura racional de suas obras, na medida que a escrita de Dostoiévski é um convite à autoanálise e a análise do sofrimento do povo russo e da sofrência da humanidade.

Há uma passagem em um dos seus maiores contos, “O sonho de um homem ridículo” no qual o narrador-personagem, atormentado com a ideia de suicídio, após ter um profundo sentimento de compaixão para com uma menina, perdida na rua, que clamava: “Mámartchkat! Mámartchkat!” (Diminutivo afetivo: “mamãe! mamãe!”), ele, o homem ridículo, apreende o desespero, e chega a dizer: “conheço esse som”. Mesmo no desenrolar da narrativa, o personagem obcecado pelo desejo de autoextermínio, reflete no final do conto: “Sentei-me à mesa em silêncio, tirei o revólver e o coloquei à minha frente. Quando o coloquei, lembro, perguntei a mim mesmo: “É isso?”, e com absoluta determinação respondi a mim mesmo: “É isso”. Ou seja, vou me matar. Sabia que enfim nessa noite me mataria, mas até lá quanto tempo ainda iria ficar sentado à mesa – isso não sabia. E é claro que teria me matado, se não fosse aquela menina”. 

A compaixão, o amor em se colocar no lugar do outro, sentir o desespero e o abandono, “o homem ridículo” recua e realiza a alternativa do não suicídio, como dizia Albert Camus em seu “Homem Revoltado”, e vence a possibilidade real de enfrentar o “Absurdo Camusiano”, optando pela coragem, ousadia e capacidade de lidar com as angústias existenciais sem predominar o ódio a si mesmo (suicídio), o ódio coletivo (homicídio), e a busca da salvação religiosa, idéias que interligam Dostoiévski e Camus.

Convido o leitor, nesse aniversário de 200 anos do nascimento de Fiódor Dostoiévski, para sentir a obra desse homem que, juntamente com Graciliano Ramos, os dois apreenderam o sofrimento individual do ser humano e as agruras sociais de uma civilização que ainda persiste manter uma cultura escravagista através de um poder onde a realização material e tecnológica esquece de retomar um “Humanismo” para que o sentido da vida não se torne, a cada dia, uma ideologia niilista e cética.

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Carlos de Almeida Vieira Médico, Psicanalista. Membro Titular da Sociedade de Psicanálise  de Brasília, Analista Didata; Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; Membro da Federação Brasileira de Psicanálise e Associação Internacional de Psicanálise (Londres).








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