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O livro dos Prazeres ou da Aprendizagem

Foto: Wladimir Fontes/Divulgação

“Esse livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu.”

Clarice Lispector

Há dias, assisti, por duas vezes, ao filme “O Livro dos Prazeres”, da diretora Marcela Lordy, lançado em 2020, interpretado por Simone Spoladore e Javier Drolas, baseado no livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector. Narra a história de uma professora (Lóri) que vive conflitos para estabelecer relações afetivas profundas, que vão desde uma vida vazia ou defensiva de afeto a amores fortuitos, relações vazias, questões existenciais de dificuldade de ser e procura fortuita por um amor verdadeiro. Paralelo a isso, vemos a professora Lóri tentando ensinar aos seus alunos temas filosóficos para o bem viver, contrariando a orientação da escola. Uma educação paulofreiriana com a finalidade de fazer as crianças pensarem não de uma maneira superficial e decoreba, mas sentindo os temas, vivendo o sentido das palavras e apreendendo um humanismo faltante nas escolas dos dias atuais.

Ao lado disso, Lóri e Ulisses, seu professor de Filosofia, nas entrelinhas, vivem o prenúncio de um amor futuro, mas os dois se afastam temendo aprofundar a relação. Aqui, a autora, Clarice Lispector, mostra as nuances do medo de amar, do receio de um compromisso e da descrença de uma relação inteira, sexual e terna, tema que vai coroar o fim do livro e o fim do filme, numa expressão de prosa poética, onde Clarice escreve: ”Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si, disse Ulisses”.

O filme é um poema sobre o existir dos dias atuais. A trilha sonora é de uma leveza e de uma tristeza sem igual, mostrando as variações de humor dos personagens, tanto em seus momentos mais dolorosos quanto em seus acontecimentos mais alegres e felizes.

A aprendizagem que emana do filme e do texto clariciano é uma bela lição de vida, o que eu chamaria de uma literatura clínica. Marcela Lordy, diretora do filme, faz um pequeno ensaio crítico-literário, na recente edição da comemoração dos 100 anos de Clarice. A certa altura, ela escreve: ”Como uma onça enjaulada, Lóri dá voltas, encara o silêncio, atravessa o mundo para finalmente mergulhar em busca da verdade. Na imensidão do seu oceano, ela perde o medo de sua profundidade e passa a ser o que se é. Depois emerge plena. Flutua. Fora do mar do inconsciente, ela passa a ter a coragem de assumir e viver conexões afetivas reais, mas essa transformação só acontece quando Lóri sai do papel de vítima e se torna responsável pelos seus desejos.”

O aprendizado que o filme e o livro de Clarice nos trazem é que “reconectar à sua natureza humana é a grande força espiritual.”

Do sensível, do sensório, do corporal à pessoa humana alcança o psíquico, a realidade psíquica, e principalmente o resgate e o não ter medo das implicações nas relações afetivas. A obra clariciana aponta para a necessidade de se rever as relações dentro de um prisma humanista, existencial e principalmente no que tange a troca afetiva da parceria. Amar realmente é se entregar ao outro e vice versa. É a capacidade de não transformar a solidão em abandono.

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