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Improviso sobre o conto ”Os Obedientes”, de Clarice Lispector

“Já seria como se eu tivesse visto, risco negro sobre o fundo branco, um homem e uma mulher. E nesse fundo branco meus olhos se fixariam já tendo bastante o que ver, pois toda palavra tem sua sombra”

O conto “Os Obedientes” encontra-se fazendo parte de uma coletânea de Lispector em seu livro “Legião Estrangeira” publicado em setembro de 1964 pela Editora do Autor. Ultimamente, para conhecimento do leitor, quando da passagem dos cem anos da autora, a Editora Rocco nos brindou com outra edição, onde se encontram bastantes informações, inclusive sempre um pósfacio. O professor Rodrigo Barreto, numa live no Instagram, chega a afirmar que José Miguel Wisnick considera uma importante trilogia de Clarice: ‘Laços de Família’, ‘Legião Estrangeira’ e ‘A Paixão Segundo GH’. É importante frisar, do ponto de vista histórico, que a “Legião” foi escrita na vigência da Ditadura Militar, no ano de 1964.

Lendo e relendo “Os Obedientes”, não posso deixar de afirmar que Clarice é uma escritora clássica. Clássica no sentido maior, ou seja, um escritor que perpassa os anos e permanece atual, quanto ao passado, o presente e o futuro. A própria noção da eternidade da obra artística.

Esse conto sempre traz angústia, tristeza e muito realismo. É pinçar na “sombra da palavra”, tanto a riqueza narrada da vida mundana, simples, óbvia (nem sempre se apreende o óbvio), assim como a capacidade da nossa “estrangeira” (ucraniana, alagoana, pernambucana, carioca, senhora do mundo) adentrar na intimidade do psíquico, consciente e inconsciente. Clarice adorava e temia o mar, mas o mar é a figuração dos movimentos calmos, tenebrosos, violentos, perigosos e suaves, assim como nossa existência, ainda que a maioria das pessoas não sinta. Pelo contrário, a narradora adverte logo no segundo parágrafo: ”Mas se alguém comete a imprudência de parar um instante a mais do que deveria, um pé afunda dentro e fica-se comprometido. Desde esse instante em que também nós nos arriscamos, já não se trata mais de um fato a contar, começam a faltar as palavras que não o trairiam. A essa altura, afundados demais, o fato deixou de ser um fato para tornar apenas a sua difusa repercussão”.

Estamos aí, mergulhados no óbvio transformado; Clarice vem de fora para dentro, olha-se, faz ou favorece que o leitor se veja, entre em susto e se alegre também, de viver uma experiência emocional que ultrapassa a vacuidade da vida-morta, da insensibilidade como defesas (diga-se natural para a maioria das pessoas). Mas Clarice sempre retira das profundezas da alma humana, recursos, sob forma de literatura, que vão em direção a uma vida criativa, transformadora, viva!

Senti e continuo sentindo nas vísceras do meu corpo e da minha mente, que Lispector pinta um retrato, nesse conto, do mal-estar-da-sociedade, onde a cada dia as pessoas se evadem dos afetos e sentimentos em troca de um existir vazio, depressivo, não percebido, pois continua camuflado na realização dos prazeres materiais, da intelectualidade rasa da burguesia e da incapacidade de formar nossos jovens em direção a um humanismo moderno.

Não darei, de propósito, um resumo do conto, esperando que o leitor vá até ele. Lá, encontrará questões sobre: O amor é algo tão temido? Ele começa quando? E se começa, sobrevive? Ou ainda estamos no tempo arcaico onde o que impera é o que Affonso Romano de Sant’Anna chamou de “Canibalismo amoroso”?

Narrando seus personagens (um casal do mundo real), Clarice escreve: “Esse homem e essa mulher começaram — sem nenhum objetivo de ir longe demais, e não se sabe levados por que necessidade que pessoas têm — a tentar viver mais intensamente. À procura do destino que nos precede? E ao qual o instinto quer nos levar: instinto? … E pessoas precisam tanto de contar a história delas mesmas. Eles (o casal) não tinham o que contar… Na verdade também estavam calmos porque “não conduzir”, “não inventar”, “não errar” lhes era, muito mais que um hábito, um ponto de honra assumido tacitamente. Eles nunca se lembrariam de desobedecer” (o grifo é meu).

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Desvitalidade, preguiça, acomodação, mesmice, pobreza psíquica, neuróticos-normóticos, tristeza, depressão, suicídio, são temas profundos e sérios que Clarice, com compaixão e respeito, descreve a “forma amorosa” da sociedade, dita já, pós-moderna. Recordo nesse momento que estou escrevendo, o que Albert Camus, escritor, teatrólogo, filósofo existencialista, em seu belo e doloroso livro-monólogo —“A Queda”, narrou sobre os parisienses e os europeus em geral: “Paris é uma verdadeira ilusão de ótica, um magnífico cenário habitado por quatro milhões de silhuetas… sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões: as idéias e a fornicação. “A sociedade atual vem comprovando que estamos numa crise, penso que final, de um capitalismo selvagem onde a primazia dos atos recai sobre o lucro, a realização de prazeres materiais, transformado os homens em personagens do que Étienne de La Boétie chamou de “Servidão Voluntária”, outra forma de pensar ‘Os Obedientes’. Tanto para ele, quanto para nossa Clarice, os homens nascem iguais e livres. Devemos compreender e lutar pela liberdade e não pela servidão ou obediência.

Ainda em seu sinistro conto, Lispector frisa: “Deles (o casal) alguns conhecidos disseram, depois que tudo sucedeu: eram boa gente. E nada mais havia a dizer, pois que o eram… eles eram obedientes… sonhadores, eles passaram a sofrer sonhadores, era heróico suportar. Calados quanto ao entrevisto por cada um, discordando quanto à hora mais conveniente de jantar, um servindo de sacrifício para o outro, o amor é sacrifício (o grifo é meu).

O conto de Clarice deixa a possibilidade de pensar, corajosa e ousada, de todos nós, mulheres e homens, lutarem pela nossa liberdade e autonomia, diante de um cenário atual comprometido com a tirania, o machismo e feminismo desvairados, os regimes políticos extremistas, tanto de direita como de esquerda, esfolando a pele humana e a pele psíquica, como se a Escravidão ainda existisse, não?

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