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Psicanálise da vida cotidiana

Carta ao Ministro da Saúde, Dr. Mandetta

Seu semblante, caro Mandetta, sempre mostrando atitude acalentadora, no entanto revelando suas olheiras oriundas de angústias de noites de cansaço e insônia

Carlos de Almeida Vieira

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“O canto das Sereias mata, o relato de Odisseu encanta. Odisseu atesta a vitória sobre as forças naturais, apresentem-se atraentes ou assustadoras… A natureza propõe cegamente o de sempre, o herói desarticula mesmices. A natureza repete, a poesia inventa, a natureza reduz vozes ao silêncio, a poesia ritma sons que resistem à corrosão dos séculos”.
Donaldo Schüler, in “Literatura Grega: Irradiações

Caro Ministro Mandetta, quando o herói é avisado do poder mortífero das sereias através do seus cantos na Odisseia, ele aconselha todos os de sua equipe e ele próprio fecharem os ouvidos para que não sucumbam ao convite das sereias, pois todos perderiam o rumo da Nau e seria um desastre total.

O senhor e toda sua equipe dirigem uma travessia ousada: salvar vidas diante do poder destrutivo de um minúsculo vírus que destruiu a onipotência, onisciência do narcisismo destrutivo de uma sociedade mercantilista, onde o essencial é o lucro, consequência da espoliação dos menos favorecidos.

Tenho acompanhado suas declarações e seus conselhos profissionais, científicos e em consonância com os Órgãos Internacionais da Saúde. Noto como todos os brasileiros, a afetiva e profissional atitude como sua pessoa acolhe, acalanta e evita o desespero público. Atitude forte, coerente, verdadeira e enfática, não negando em momento algum a gravidade e os perigos pelos quais passamos. Vejo sua fala, e de toda a sua equipe, um belo “conjunto de câmera”, onde um lê sua partitura criando um uníssono na comunicação.

Seu semblante, caro Mandetta, sempre mostrando atitude acalentadora, no entanto revelando suas olheiras oriundas de angústias de noites de cansaço e insônia, revelam tanto seu sofrimento quanto sua coragem e ousadia. Mas, sua pessoa não adormece nem tapa seus ouvidos às Sereias, e continua de uma maneira não politiqueira, a cumprir seu juramento a Hipócrates como médico, e a exercer sua função política em prol das necessidades do povo. Bem que poderia usar seu poder para exercer um uso perverso da Política. Não, sua atitude, seu compromisso e de todo o seu time é servir à comunidade, salvar vidas, fazer saúde preventiva e mais do que isso: deixar a população grata pela sua conduta maternal, firme e efetiva, que nos momentos dos gritos e sussurros das crianças não as abandona.

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Ministro Mandetta, gostaria de frisar uma questão importante: Todo aquele que faz o bem comum, que exerce uma ação popular não em seu benefício, e sim do povo, tal como uma vidraça, é almejado pela inveja, rivalidade e perversidade de personalidades destrutivas. Não esmoreça, senhor Ministro, não deixe que as Sereias queiram lhe retirar do comando da Nau, mesmo sabendo que limitações humanas existem. Não abandone o cargo, não se identifique com “corvos negros” que devorariam todos os semelhantes. Inveja, Ministro, que não mata aleija, mas não titubei na força que lhe é característica e saiba que os brasileiros ficariam órfãos caso lhe tirassem do cargo ou mesmo, coisa que não acredito o senhor desistisse.

Um famoso psicanalista indiano-inglês, Wilfred Bion um dia criou uma expressão sana para estados de angústia aterrorizante —“praticar a calma do desespero”. Outro sábio, nosso Guimarães Rosa, pelas palavras de Riobaldo, escreveu: “nos momentos de perigos e muito sofrimento, podemos pensar no “desespero quieto”. Tanto um quanto o outro refletiam sobre os perigos de uma ação reativa: é hora de ações precedidas de pensamentos!!!

Os brasileiros confiam senhor Ministro, na manutenção das suas funções e entregam o remo do barco para ser navegado por toda a sua equipe.

Carlos de Almeida Vieira
Médico, psicanalista


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