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Albert Camus: O pensador do Absurdo

Participante das correntes liberais durante as batalhas morais do período pós-guerra, atuava na Resistência Francesa

Foto: Reprodução

“Presunção da palavra experiência. A experiência não é experimental. Não se pode provocá-la. Apenas se submeter a ela. Antes paciência que experiência. Nós esperamos —- ou melhor, nós padecemos. Na prática: ao fim da experiência, não se é sábio, se é especialista. Mas em que?” Albert Camus in Cadernos (1935-37) Esperança do Mundo

Albert Camus (Argelino-francês) nasce em Mondovi, 7 de novembro de 1913 e falece em Villeblevin, 4 de janeiro de 1960. Escritor, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta franco-argelino.

Participante das correntes liberais durante as batalhas morais do período pós-guerra, atuava na Resistência Francesa. Prêmio Nobel de Literatura em 1957, morrendo três anos depois, no “absurdo” de um acidente automobilístico com um companheiro da famosa Editora Gallimard-Paris.

Aos 23 anos, costumava a anotar temas e reflexões sobre o sentido da vida, o que resulta em vários Cadernos, matéria prima dos seus Escritos posteriores em romances, peças teatrais e ensaios filosóficos. No primeiro Carnet já escreve uma questão atualíssima: “O que devo dizer? Que se pode ter — sem romantismo — a nostalgia de uma pobreza perdida. Uma certa soma de anos miseravelmente vividos basta para construir uma sensibilidade. Nesse caso particular, o estranho sentimento que o filho tem por sua mãe constitui toda a sua sensibilidade. As manifestações dessa sensibilidade nos mais diversos campos se explicam suficientemente pela lembrança latente, material, de sua infância (“uma cola que gruda na alma”). Em 1942, Camus começa seu romance-filosófico, O Estrangeiro escrevendo no primeiro parágrafo: “Hoje sua mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi telegrama do asilo: ‘sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem”. Um outro absurdo!

A vida humana é contingência, é sempre no tempo presente, ainda que tenhamos a memória do passado e do futuro, mas ambas somente vivenciada no tempo presente. Camus é o pensador da Imanência, assim como J. L. Borges sempre repetiu que nós temos o tempo presente, e Vinicius de Moraes, cantava em música e verso: “eterno enquanto dure”.

Desprovido das fantásticas delirantes promessas da Religião, das filosofias transcendentais, o Absurdo camusiano está na experiência do presente e na absurdidade do nascer e do vir a morrer, na angústia da finitude. Na narrativa de Riobaldo, personagem e autor, Guimarães Rosa escreve que não tinha mais medo de nascer nem de morrer, medo maior é viver, pois as veredas nos acolhem e nos mostram os absurdos do existir.

Camus não se importava em gastar tempo em explicações racionais, alimento dos Iluministas-racionalistas, angustiados com tudo aquilo que escapava ao controle e que negava a irracionalidade, a inconsciência, que tanto incomodou após a chegada de S. Freud no campo da Psicanálise e os poetas na contribuição da Literatura, aliás, os poetas chegaram antes.

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Ler Camus é uma experiência emocional nada tranquila, assim como ler mais angustiantemente, autores que nos colocam diante da incerteza, do mistério e da dúvida, como escreveu o poeta J. Keats sobre a genialidade de Shakespeare. Só nos resta nesse mundo acolher o Absurdo, sem apelar para o suicídio, o homicídio, principalmente coletivo e as fantasias de transformar o absurdo da realidade factual e da realidade psíquica sem enlouquecer, sem partir para o Ato destrutivo (característica da pósmodernidade) centrada nas ideologias fascistas, capitalistas perversas,
narcisismo mortífero prometendo fantasias de se livrar do Absurdo

Revoltado”, quando escreve, ou melhor, pergunta no início do texto: “Que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento. Um escravo que recebeu ordens durante toda a sua vida, julga subitamente inaceitável um novo comando. Qual o significado deste não?”. Questões que antes, em seu precioso e doloroso livro O Mito de Sísifo, mostra como os humanos deixam sempre a pedra rolar novamente, pedra ordenada pelo castigo dos Deuses Gregos e dos nossos “Deuses atuais” imprimem aos menos favorecidos, a maioria da humanidade.

O homem revoltado tem uma saída, segundo Camus: A revolta, palavras do argelino-francês: “nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível. Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar. Sua preocupação é transformar… é preciso que ela consinta em examinar-se para aprender a conduzir-se… o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. A
questão é saber se esta recusa não pode levá-lo senão à destruição dos outros e de si próprio, se toda revolta deve acabar em justificação do assassinato universal ou se, pelo contrário, sem pretensão a uma impossível inocência, ela pode descobrir o principio de uma culpabilidade racional”.

Fica aqui, queridos leitores, uma obra atual que deve ser relida ou lida pela primeira vez, face aos perigos que vivemos hoje, no mundo em geral, e em particular em nosso “ em nosso Brasil, ainda Colônia”.

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Carlos de Almeida Vieira Médico, Psicanalista. Membro Titular da Sociedade de Psicanálise  de Brasília, Analista Didata; Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo; Membro da Federação Brasileira de Psicanálise e Associação Internacional de Psicanálise (Londres).








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