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Tire dúvidas importantes sobre a Síndrome de Guillain-Barré

Peru, que faz fronteira com o Brasil, enfrenta um aumento de casos da doença há cerca de um mês

Por Edson Shu 27/07/2023 3h00
Campylobacter (imagem ilustrativa)

O que é a Síndrome de Guillain-Barré (SGB)? Quais são as causas, sintomas, tratamento e evolução da doença? É contagiosa? Pode levar à morte? Alguém desenvolveu SGB após covid-19? A vacina contra o coronavírus pode causar SGB? Essas e outras dúvidas serão respondidas no vídeo a seguir e no texto logo abaixo:

A Síndrome de Guillain-Barré voltou à tona porque, em 8 de julho de 2023, o governo do Peru decretou emergência sanitária em razão do aumento do número de casos da doença. No primeiro semestre deste ano, o país, que faz fronteira com o Brasil, reportou 182 doentes com SGB; 31 deles estavam internados, 147 receberam alta hospitalar e 4 faleceram. Em 2022, foram registrados 225 casos e, em 2021, 210 casos. Já em 2019, um surto inédito desta condição acometeu cerca de 900 pessoas nesse país.

Afinal, o que é a Síndrome de Guillain-Barré (SGB)?

A Síndrome de Guillain-Barré (SGB), ou polirradiculoneurite desmielinizante, é uma doença inflamatória aguda, autoimune, que acomete o sistema nervoso periférico. Uma vez que o cidadão é acometido, seu sistema imune produz anticorpos contra as raízes nervosas e nervos periféricos, o que provoca inflamação e perda da bainha de mielina, um tipo de gordura que envolve as fibras nervosas; como resultado, há dificuldade da transmissão de informação pelos nervos.

A SGB é caracterizada por formigamento/dormência, acompanhada de fraqueza muscular que começa nos membros inferiores e passa aos poucos para o tronco, membros superiores e cabeça, após horas ou dias, chegando ao pico de gravidade entre 2 e 4 semanas. Os músculos da respiração, mímica, mastigação e faringe (garganta) podem ser acometidos. Cerca de 10% dos casos desenvolvem insuficiência respiratória e podem necessitar ventilação mecânica.

A SGB não é transmissível entre pessoas.

Possíveis causas

Cerca de 75% dos casos são desencadeados por infecção. A bactéria Campylobacter jejuni, a qual provoca diarréia, é a causa mais comum; demais bactérias como Mycoplasma pneumoniae e Haemophilus influenzae também podem causar a doença. Outros agentes incluem os vírus da dengue, Zika, chikungunya, citomegalovírus, Epstein-Barr, sarampo, influenza A, enterovirus D68, hepatite A, B e C, HIV, COVID-19, etc.

Assim sendo, em casos de suspeita de SGB, é importante verificar se o paciente teve infecção respiratória, lesões de pele ou mucosas, aumento de linfonodo (caroço ou íngua no pescoço, axila e região inguinal), entre outros.

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Exames complementares auxiliam o diagnóstico?

O exame do líquido cefalorraquidiano (LCR), “água” do cérebro que circula dentro do crânio e coluna vertebral, pode mostrar, em até 2/3 dos pacientes, aumento da quantidade de proteínas sem correspondente elevação do número de células, fenômeno conhecido como dissociação proteico-citológica.

O exame de eletroneuromiografia (ENMG) pode reforçar o diagnóstico da SGB, além de caracterizar o tipo de lesão nervosa: se é predominantemente da bainha de mielina (forma desmielinizante) ou se é do axônio (forma axonal) – lesão axonal é geralmente mais grave e de recuperação neurológica mais limitada.

O diagnóstico da SGB é baseado em critérios clínicos, e os resultados dos exames do LCR e ENMG podem ser normais no início do quadro.

Como é o tratamento da SGB?

  • Cuidados médicos gerais, incluindo suporte respiratório (até 30% dos pacientes têm acometimento dos músculos da respiração) e cardiocirculatório (20% das pessoas sofrem perda de autonomia da regulação cardiocirculatória, com crises hipotensivas e hipertensivas).
  • Infusão de imunoglobulina intravenosa – tratamento em que anticorpos são injetados na veia do doente para neutralizar os efeitos dos auto-anticorpos causadores da doença.
  • Plasmaférese – tratamento em que o plasma do paciente, que contém os anticorpos causadores da doença, é retirado da corrente sanguínea.

Prognóstico

O início da melhora clínica ocorre no primeiro mês em 2/3 dos doentes. A maioria dos casos tem recuperação satisfatória a longo prazo. A mortalidade da doença chega a 5%.

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Vacinas podem causar SGB?

A possibilidade de as vacinas desencadearem SGB é muito remota. Os benefícios da vacinação superam os riscos. Por exemplo, a população tem chance maior de desenvolver SGB após um episódio gripal do que depois da vacinação contra a gripe.

Relatório americano recente sobre SGB pós-vacinação contra covid-19, publicado no renomado periódico JAMA, sugeriu associação entre Ad26.COV2.S (vacina da Janssen) e aumento de risco de SGB. Não foram observadas associações entre vacinas baseadas em mRNA covid-19 e aumento do risco de SGB.

Como prevenir SGB?

A prevenção da SGB compreende a adoção das medidas já conhecidas contra o Aedes aegypti, que é o mosquito que transmite a dengue, Zika e chikungunya: eliminação de criadouros de mosquitos e colocação de telas em janelas; capas e tampas nos reservatórios de água; e proteção individual para evitar picadas de mosquitos, como o uso de calças, camisas de mangas compridas e repelentes.

Medidas de prevenção contra infecção pela bactéria Campylobacter jejuni incluem lavagem das mãos (antes, durante e depois de preparar os alimentos, antes das refeições, depois de usar o banheiro, depois de trocar fraldas, depois de tocar em animais de estimação e suas fezes e após tocar no lixo); evitar ingerir alimentos crus ou mal cozidos; beber leite apenas pasteurizado e água somente tratada.

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Uso de preservativos serve como medida de proteção contra doença sexualmente transmissível.

Em suma, SGB é condição neurológica rara, e sua prevenção requer o controle das doenças infecciosas mencionadas.

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