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Na Garagem

Meu carro assombrado

No final de 2018 eu comprei de um grande amigo uma velha Mercedes, que desde então venho restaurando. Tenho o hábito de batizar os meus carros. Essa se chama Miss Daisy. O motivo do nome eu conto num outro momento.

Logo nos primeiros dias Miss Daisy começou a apresentar alguns problemas de elétrica. Era comum, por exemplo, os faróis não acenderem, ou pior, não apagarem, o que acabava me deixando sem bateria.

Diante de tais problemas, levei o carro para uma “consulta” com um amigo mecânico.

Jaime (nome fictício), o dono da mecânica, é um desses bons amigos que os carros velhos botaram no meu caminho. Gordo, bonachão, sempre com um sorriso no rosto, é o tipo de pessoa que invariavelmente acaba rendendo bom papo e uma boa amizade.

Cheguei na oficina e ele olhou para o carro com uma cara de quem via duas coisas: grandes possibilidades de lucro e, na mesma medida, dor de cabeça.

– E essa novidade ai? Desistiu do JAC?

– Não, ele vai ficar com a minha mulher e esse aqui eu tô comprando de um “bruxo” amigo meu.

– …. (longo silêncio)

– Tu acha que vale a pena comprar? Tô fazendo um bom negócio?

– A gente tem que ver, né…

– Beleza, dá uma geral na elétrica porque os faróis não estão acendendo.

– Tá, deixa ela aí que a gente resolve.

No dia seguinte liguei para saber se o carro estava pronto ou se havia previsão. A resposta do gerente da oficina foi negativa, mas que eles estavam dando um jeito e me pediu para ligar no dia seguinte.

Liguei novamente na data marcada e a resposta foi a mesma, com o incremento na resposta de que por se tratar de um carro importado, algumas peças eram um pouco difíceis de achar.

Uma semana depois, já arrependido de ter pego o carro, ligo na oficina mecânica e sou atendido novamente pelo gerente, que disse que eles haviam levado o carro em uma oficina especializada em elétrica e que o problema estava solucionado e que eu poderia pega-lo no fim da tarde.

Problema resolvido, a Mercedes rodou comigo mais uns dois meses até que eu precisei fazer mais alguns ajustes de mecânica e levei novamente para meu amigo Jaime. Rindo como sempre, confidenciou que os atrasos não aconteceriam mais, pois o mal-entendido estava solucionado.

– Qual mal-entendido?

– Você falou pra mim que o carro era de um bruxo amigo seu.

– Sim, meu amigão.

– Então, pra gente, bruxo é quem mexe com bruxaria, feitiço, etc.

– O.o (cara de incredulidade)

–  Daí quando as coisas não davam certo no conserto, a gente achava que era por causa disso. Por causa de algum feitiço.

– Não, bruxo na minha terra é amigo, camarada, parceiro, gente boa.

– Sim, a gente descobriu isso porque nosso gerente é gaúcho e ele explicou isso para os mecânicos que não queriam mais mexer no seu carro. Agora vai dar tudo certo.

E de fato, nunca mais tive problemas com o prazo de entrega dos consertos da Miss Daisy.

Aula de gramática:

Bruxo

substantivo masculino

1.

OCULTISMO

Homem que, como as bruxas, se utiliza de supostas forças sobrenaturais para causar malefícios, prever o futuro e fazer sortilégios.

2.

POR EXTENSÃO

Mago, mágico.

3.

GAUCHÊS

Termo normalmente utilizado pelos homens gaúchos para se referir a um amigo, camarada e gente boa.

 

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