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Ansiedades no sexo, quem nunca?!

Precisamos parar com esse vício comportamental de querermos ser ótimos o tempo todo

Por Lu Miranda 13/09/2023 4h46
Arte: Lu Miranda

A verdade é que (quase) todo mundo deseja um sexo gostoso, meio mágico, safado, espontâneo. Conexão no olhar, pele com pele, respiração ofegante e aquele beijo na boca de tirar o rumo. Ahhh! Suspiro em voz alta e suor escorrendo pelo corpo, seja pelo sexo intenso ou pelo calor brasiliense, quem sabe.

Lindo de se imaginar e se querer. Mas e a realidade, como fica? Apesar de muitas fantasias, a vida real tem estado numa camada mais obscura, que a gente normalmente evita olhar. Por quê? Porque dói e, infelizmente, estamos vivendo um momento social em que as pessoas, de forma geral, estão evitando sentir o sofrimento ou qualquer sinal de comunicação que o corpo dá quando se sente esquecido pela mente. É remédio para acordar, comer, estudar, transar, focar, dormir… medicamento demais, consciência de menos.

A terapia sexual é uma ferramenta que auxilia muito nessa relação pessoa-sintoma, ou seja, no caso de pessoas com disfunção erétil e ejaculação precoce, por exemplo, a terapia ajuda no processo de compreensão desse sintoma: quando se iniciou e em qual situação isso transbordou. Mas é necessário aprofundar um pouco mais.

Qual a educação sexual e o contexto de vida destas pessoas? E as ansiedades, em quais outras situações elas surgem? Pode soar estranho para muita gente, mas a verdade é que nossa vida sexual está diretamente ligada a outras áreas da vida, como o próprio conceito de sexualidade da Organização Mundial de Saúde (OMS) elucida.

No trabalho, como você lida quando se sente inseguro? E com a sua família, quais são os gatilhos de ansiedade? Pode parecer sutil, mas quando temos uma família muito ansiosa, a tendência é sermos mais ansiosos e nos habituramos a essas condições. Um exemplo clássico é quando o menino, ainda na sua fase de descoberta, começa a se masturbar no banho e a família o apressa porque outras pessoas precisam utilizar aquele banheiro. Durante o passar dos anos se cria uma associação entre fazer algo rápido para se evitar “problemas”. E é possível, sim, a partir daí, desenvolver-se uma ejaculação precoce.

Curioso, né?!

Nosso contexto familiar afeta e muito nossa ansiedade sexual na fase adulta. Inclusive, já ouvi algumas vezes de mulheres adultas que suas mães ainda vêm em suas mentes quando pensam em sexo. É como se o tesão fosse sobreposto por frases de efeito culturais absolutamente defasadas, como, por exemplo: “Se você transar antes de casar, nenhum homem vai te valorizar” ou ainda “Gostar de sexo é coisa de puta”. Difícil se tornar uma mulher segura sexualmente com o peso dessa construção, né?!

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Tudo deságua na cama, nossas impotências, receios — nossos e dos nossos pais. Pesos demais ocupando um espaço que deveria ser de diversão e leveza. Ansiedades e mais ansiedades. “E se meu p** não subir na hora que eu preciso?” Pronto: armadilha para dar ruim.

Temor por desempenho é o nome que damos a esse tipo de situação. Ficamos tão preocupados em desempenhar um papel (transar como no pornô e ter um pênis vantajoso ou ser uma princesa fora da cama e uma safada entre quatro paredes, por exemplo) que não focamos naquilo que podemos administrar, que inclui conversar sobre essas vulnerabilidades na hora em que elas acontecem, por exemplo. Damos asas demais à nossa imaginação e deixamos de nos atentar à respiração, aos afetos, cheiros, texturas (no texto da semana passada eu dei algumas dicas sobre isso, aproveite para relembrar). Queremos um resultado incrivel sem uma boa dedicação.

No caso de mulheres ou pessoas com vulva, essas ansiedades transbordam muito na ausência de desejo, dor na relação sexual, vaginismo (contração involuntária da região pélvica dificultando ou impossibilitando qualquer penetração) e baixa lubrificação. A verdade é que nós mulheres (na verdade, também cabe para o gênero oposto, com suas adaptações) não fomos incentivadas de forma saudável a lidar com o próprio corpo e com nosso prazer. Por isso, apesar de parecer óbvio, olhar para si e se nutrir de amor, conhecimento, cuidado, acolhimento é necessário para que entendamos toda essa pressão que também sentimos por sermos mulheres. Dá medo de aprofundar, eu sei.

Está sabendo de tudo isso e ainda continua desejando aquele sexo incrível do início do texto? Já mande a coluna de hoje para quem quer viver essa delícia e aproveite para se abrir sobre seus receios. Vulnerabilidade também pode dar tesão. Confia.

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Ansiedades e inseguranças sempre vão existir, com suas especificidades de cada momento, mas precisamos parar com esse vício comportamental de querermos ser ótimos o tempo todo. Eu sei que pode ter funcionado até agora, mas e quando parar de funcionar?

Afinal, o que não é explicito não é óbvio. E o que não é óbvio causa insegurança e ansiedade.

Administre aquilo que você pode. Confie em você e vai.

Beijos da Lu!

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Indicações da semana:

Série: Homens!
Filmes: Para se divertir, ligue! | Como planejar uma orgia numa cidade pequena | Kids






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