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Mandando a Letra

Línguas mudam – temos um paradoxo

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Tenho um quadro no rádio chamado “Desenrolando a Língua”. No fim, falo: “A língua é viva. Vamos desenrolar”. Penso nisso porque, como a vida, muitas coisas se modificam e poderemos estar no meio de uma torrente de mudanças.

Como um corpo vivo

A língua se modifica. Ela nasce, cresce, se desenvolve, adquire doenças, se reproduz, vai minguando e morre. Algumas adquirem mais força e vivem por mais tempo (dando a impressão de que serão eternas), e assim vai. Enfim, como um corpo vivo.

As mudanças, bem gradativas, muitas vezes não são percebidas como algo que está levando a língua para um outro patamar. É bom salientar, também, que os estudos da linguagem nos fazem compreender que um fenômeno do nosso idioma não é novidade e que nos levará a uma situação já conhecida e, até por isso, relativamente prevista.

O caso da nossa conjugação verbal

Os verbos têm uma conjugação ensinada como certa, a tão adorada “norma culta” (que eu chamo de norma padronizada). Por ela, temos a já sabida, por quem estuda, conjugação do verbo beber (que será usado em nosso exemplo): eu bebo / tu bebes / ele bebe / nós bebemos / vós bebeis / eles bebem. Isso não é contestado por ninguém.

Ocorre que já há uma flexibilização dessa conjugação, ainda usada por pessoas mais estudadas, mas que relaxam em um ambiente que chamamos “menos monitorado” (conversa de bar, por exemplo): eu bebo / você bebe / ele bebe (tu bebe)/ a gente bebe (nós bebemos)/ vocês bebem / eles bebem (o pessoal bebe). O vós é raramente usado e o tu, pouco flexionado.

Em uma terceira opção, com baixo nível de ensino e monitoramento (os famosos amigos plantonistas de correção) ou automonitoramento, encontramos: eu bebo / você bebe / ele bebe / a gente bebe (nós bebe) / vocês bebe / eles bebe (o pessoal bebe). Sim, só a primeira pessoa é flexionada. Você já viu caso como esse? Isso também é português. Afinal, todos compreendemos. Só não se trata da norma padronizada.

Sim. Soa-nos estranho

É claro que, para quem está acostumado, já pela escolarização, com, pelo menos, a segunda forma, dá um calafrio nas orelhas. O processo de correção de quem fala assim também é uma maneira de condensar a língua aprendida.

Ocorre que, por mais que digamos que é “feio” falar assim (flexionar somente uma pessoa), isso não é fenômeno novo no mundo das línguas. O inglês já teve flexão em todas as pessoas e, hoje, só o faz na terceira pessoa do singular. Por exemplo, “I/you/we/they do”. Enquanto que “he/she/it does”. Só. Será que estamos trilhando para essa realidade? Como a língua é viva, nem adianta querer barrar seu movimento. Aguardemos. Mas desconfio de que não estaremos aqui para conferir.


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