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Histórias da Bola

Vasco “00DAGAMA7”

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Certa tarde, eu entrava no Comitê de Imprensa da Câmara dos Deputados e ouvi o fotógrafo Luís Antônio Sousa, do Jornal de Brasília, gritar:

– Chegou o 00M! – M, de Mariani, do meu sobrenome, como me chamam, sem o pré-nome Gustavo.

Por aquele instante, o ator Roger Moore, que interpretava James Bond, o agente secreto 007 do cinema, batia papo com os repórteres, juntamente com o comediante Renato Aragão – eram embaixadores de um programa das Nações Unidas para a criança. Ao sacar a brincadeira do colega, fui no lance:

– Renato, porque o 007 não está usando a camisa do Vasco da Gama? – o time do Aragão

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Renato traduziu e o Moore apontou um dedo pra mim, dizendo o que o comediante traduziu, também:

– Então, você vai me presentear com uma camisa do Vasco da Gama – e tirou um cartão do bolso, que fui apanha-lo. Ao lado dos dois, os colegas fotógrafos fizeram clicks, evidentemente, para futuras sacanagens.

Enfim, enviei-lhe uma jaqueta vascaína, com o número 7, e ele agradeceu-me, por um cartão postal de Londres.

K pra nóiz: quem assiste jogos do atual time do Vasco da Gama fica com a impressão de que lhe falta um James Bond criativo, energético, intempestivo. Era assim o ator escocês Sean Connery, que deu vida e glória ao 007. Grande desportista – praticava corrida com trenó e com cavalo e carroça, além de boxe, natação, musculação, golfe  e futebol.    

Louco por uma bola rolando, desde garoto, Connery exibia talento para ser um ótimo futebolista. O Fet-Lor, na escocesa Edimburgo, a sua terra, foi o seu primeiro time. Jogador ágil e muito útil ao time, recebeu proposta para ser um semi-profissional, mas não quis abandonar o halterofilismo, que valeu-lhe medalha de bronze de um Mister Universo disputado em Londres. Medalha de prata em uma disputa pelo Fet, em 1950, ganhou muita fãs e transferiu-se para o Bonnyrigg Rose. Jogando com muita força e velocidade, tornou-se a estrela do time e chegou a pensar em profissionalizar-se.

Foi pela metade da adolescência, quando defendia o Grove Vale, ainda de sua cidade, que Connery desenvolveu a sua técnica. Um outro time, o Oxgans Rovers, via nele o jogador ideal para o seu meio-de-campo. E o levou. Mas estava escrito que o futebol o perderia para as artes. Filho de casal muito pobre, ele pegava qualquer tipo de emprego – entregador de leite, jornais, carvão, lustrador de móveis e salva vidas de piscina, entre outros -, Sean aceitou a sugestão de um cara que havia disputado com ele o Mister Universo e inscreveu-se para testes na peça Sout Pacific, como figurante.     

Aprovado nos testes, Connery, no entanto,  hesitou em dizer sim à companhia teatral. Doía em sua alma ter que deixar o futebol. Deixou, mas durante as duas temporadas excursionando com a peça, sempre pintava em uma partida por onde passava. Durante uma delas, foi visto pelo lendário Matt Busby, que o convidou a dar um chego em Old Trafford –  o mito Alexander Matthew Busby dirigiu o time do Manchester United, por quase 25 temporadas, foi tronado Sir (cavaleiro do Império Britânico), pela rainha Elizabeth II, entrou em música dos Beatles, ganhou estátua, nome de rua, sete títulos nacionais – também, a Copa dos Campeões Europeus-1968 – e revelou os maiores ídolos do futebol inglês do seu tempo.

Convite daqueles, nenhum jogador de futebol dispensaria. Mas um diretor e ator de cinema amigo de Connery, o norte-americano Robert Henderson fez-lhe a cabeça para não aceitar e seguir no mundo das artes. Ao saber daquilo, um outro amigo deles, Jerry White, sentiu vontade de enforcar Henderson, pois um rapaz pobre como Sean não poderia dispensar o sucesso e a montanha de dinheiro que o Manchester United poderia lhe oferecer, quando ele não tinha a mínima perspectiva de sucesso no teatro ou no cinema. Era só um figurante.

Fora do futebol, definitivamente, Connery ralou muito até conseguir ter o seu nome nas letrinhas que passam nas telas dos cinemas. Mas estava escrito, também, que ele se tornasse o James Bond, o herói pensado pelo escritor Ian Fleming, e um dos grandes atores de sua geração. Só não estava escrito que o Vasco da Gama chegasse a 120 de vida montando um time sem criatividade, agilidade, intempestividade, que chegou a ser o último colocado deste Campeonato Brasileiro. Atualmente, está a dois degraus da zona de rebaixamento. Um autêntico 000Vasco.       


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