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Pisa na fulô

Sabará era um dos atacantes mais famosos do país, quando a Seleção Brasileira fez a sua primeira excursão à Europa

Por Gustavo Mariani 17/11/2023 3h35

A década-1950 chegou ao Brasil para ser “dourada”, principalmente, devido aos embalos que a nossa gente pegaria e os programas de sucesso do governo do presidente JK. Poderia ser, mas, de início, não incluía o Neguinho do Pirulito, que se virava pelas ruas maranhenses de Pedreiras, catando uma graninha. Aquilo, no entanto, não seria vida para fazê-lo importante, como o Vasco da Gama, campeão carioca-1950/1952/1956/1958 e dono de uma das maiores torcidas do futebol brasileiro. Para atingir tal sucesso, o garoto achava ser precisava pintar pelo Rio de Janeiro.

O moleque deixou Pedreiras, foi vender frutas, em São Luís do Maranhão, até os 14 de idade e, depois, atravessou Piaui, Ceará, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais, até desembarcar na capital do país, onde esperava repetir os nordestinos Luíz Gonzaga, Jackson do Padeiro e Marinês – levava dotes musicais. Viu, porém, o sonho muito distante, quando só arrumou emprego como ajudante de pedreiro, muito distante de transformá-lo em um artista do rádio. Mas não desanimou. Trabalhava cantando os versos que fazia, até que, um dia, os ventos do destino os empurraram até os ouvidos de Luís Gonzaga, Luís Vieira, Marlene, Dolores Duran e Ivon Curi. Pronto! O peão-de-obra que o carioca apelidou por Sabará, por achá-lo parecido com o ponta-direita homônimo do Vasco da Gama, virou João do Vale e fez todo o Brasil cantar “Pisa na fulô”, entre muitos outros sucessos que emplacaria.

Corria 1956, ainda não havia Pelé, e Garrincha começava a acontecer. Sabará era um dos atacantes mais famosos do país, quando a Seleção Brasileira fez a sua primeira excursão à Europa, e o treinador Flávio Costa, evidentemente, o convocou para ser o seu ponta-direita. Tempinho depois, Marinês e Ivon Curi gravaram “Pisa na Fulô”. Em 1957, era Sabará partir com bola dominada para cima o adversário, e a torcida vascaína começava a cantar ‘Pisa na Fulô/Pisa na Fulô”… Como sofriam os marcadores Jordan (Flamengo), Altair (Fluminense), Hélio (América) e Nílton Santos (Botafogo)! Isso mesmo! Até o grande Nílton Santos, considerado o melhor lateral-esquerdo da história do futebol.

– Disseram que eu levei um baile do Stanley Matteus – 09.05.1956 – em Brasil 2 x 4 Inglaterra, amistosamente, no estádio de Wembley, em Londres. Ponta-direita que me incomodava era só um: o Sabará, afirmou o “Enciclopédia”, a este colunista, durante entrevista para o Jornal de Brasília.

Embora tivesse ficado na história do futebol como lateral-esquerdo, Nílton Santos foi, muitas vezes, escalado como zagueiro de área, pelos treinadores Gentil Cardoso e João Saldanha (também, cronista). Assim aconteceu quando ele e Sabará travaram duelos em temporadas em que vascaínos e botafoguenses foram campeões cariocas – respectivamente: 30.11.1952, Vasco 1 x 0 Botafogo; 29.06.1956 – Vasco 0 x 0 Botafogo; 22.09.1957 – Vasco 2 x 2 Botafogo e 10.11.1957 – Vasco 3 x 0 Botafogo.

Sobre este último jogo, Nílton Santos contou-me: “O Vasco mandava um baile pra cima da gente. Lá pelas tantas, perto do final da partida, eu e o Sabará nos demos de testa. Ele parou a bola, a torcida vascaína começou a cantar o “Pisa na Fulô” e eu fui pa cima dele com um dedo apontado para a sua cara, avisando: Pra cima de mim, não, seu filho da…..”. Sorrimos um para o outro, ele chutou a bola para a lateral e nos abraçamos. O Maracanã todo aplaudiu. Lance igual, só vivi muito tempo depois, quando levávamos uma goleada – 02.04.1963 – Santos 5 x 0 Botafogo , pela antiga Taça Brasil – e o Pelé tentou me aplicar uma chapéu”.

A temporada-1964 foi a última de Sabará e de Nílton Santos, respectivamente, como cruzmaltino e botafoguense. Onophre Anacleto de Souza, o Sabará, foi o terceiro futebolista a mais vezes vestir a camisa do Vasco da Gama, 576, marcando 165 gols, entre 1952 e 1964. Nílton dos Reis Santos defendeu a “Estrela Solitária”, de 1947 a 12 de dezembro de 1964, quando 88 mil torcedores pagaram pra conferir Botafogo 1 x 0 Flamengo, pelo Campeonato Carioca, no Maracanã. Atuou 723 pelo clube e marcou 11 gols. Naquele 1964, eles não se enfrentaram quando Vasco x Botafogo se cruzaram. Por ali, João do Vale fazia sucesso com “Carcrá”, na voz da baiana Maria Bethânia. O fotógrafo Gervásio Batista, de Manchete, contava que Sabará e Nílton Santos participaram de uma pelada de fim de ano, na Ilha do Governador e, ao ser escalado no mesmo time do antigo adversário botafoguense, o ex- cruzmaltino sugerira:

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– Mude de time, véi, pois quero lhe aplicar o ‘Drible Carcará”.

– Chega de invenção, niguin (ainda não havia o politicamete incorreto). Você já me encheu o saco demais com aquelas sacanagens antigas, – teria dito, Nílton Santos, que não teria topado “dançar” mais o “Pisa na Fulô”.






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