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Histórias da Bola

Paulo Victor

O Fluminense foi campeão brasileiro-1984, sem nenhuma ajuda extraterrestre. É o que garante o goleiro do título, Paulo Victor. “No máximo, fazíamos uma reza coletiva, pedindo proteção a Deus, pra ninguém se contundir. Aquilo era acompanhado por um Pai Nosso e uma Ave Maria”.

Para o atacante paraguaio Romerito, o sucesso na campanha fora, muito mais, causa de “muito espírito de luta, união e disposição para morder a grama, se necessário”, declarações mostradas, por Paulo Victor, num do seus recortes de jornais sobre a final. Na mesma matéria, o volante Jandir dizia que o “momento determinante” da final fora o início do segundo tempo,quando Roberto perdera um gol. “Depois, espanei duas bolas que poderiam terminar em gol”, lembrou. De sua parte, o lateral Aldo, sobre quem o Vasco forçara o jogo, no primeiro tempo, o jogo não lhe pareceu decisão de campeonato, pois vira o adversário jogando no desespero. “No intervalo, o Parreira corrigiu o defeito de marcação, pela direita, colocando o Delei para me ajudar”, contou.

Paulo Victor não esqueceu de elogiar o médico Arnaldo Santiago, por ter vetado o machucado lateral-esquerdo Branco, para o primeiro jogo, e o recuperado para a finalíssima. E, é claro, elogiou, também, o capitão Duílio, que fizera uma grande partida. Mostrou uma declaração do colega: “Todo mundo dividiu todas e não há ninguém que possa contestar o nosso título”.

O título tricolor saiu nu jogo em que o clube arrecadou Cr$ 252 milhões, 430 mil cruzeiros, da renda de Cr$ 638 milhões, 160 mil cruzeiros. E quem estava entre os “não-pagantes” era o deputado federal Dante de Oliveira (PMDB-MT), autor da emenda sobre o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República, naquele ano. Torcedor do Flu, Dante ouviu a galera gritar: “Diretas, diretas, diretas. Um, dois, três, quatro cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil!” Mas não deu, daquela vez. Só deu Flu.

 

ACRÉSCIMOS: O Fluminense decidiu, em 1984, com a defesa menos vazada do Brasileiro – 13 gols –, contra o ataque mais positivo, o vascaíno, com 51 bolas nas redes, 16 mandadas por Roberto Dinamite e 14 por Arthurzinho.

Os campeões anteriores haviam sido: Atlético-MG (1971); Palmeiras (72/73); Vasco (74); Internacional (75/76); São Paulo (77); Guarani de Campinas (78); Internacional (79); Flamengo (80); Grêmio (81) e Flamengo (82/83).

BOLA ROUBADA – Como o policiamento fora muito forte No dia daquela final de 1984, Paulo Victor pôde sair de campo com o uniforme de jogo, que guarda, ainda, em uma espécie de galeria, em seu apartamento, repleta de troféus e fotografias. Só não tem mais a bola roubada de Romualdo Arppi Filho, que ficou com a sua ex-mulher.

“Teve ‘mané’ que trocou camisa com os vascaínos. O Tato, por exemplo, o vi trocando a dele, como Edevaldo, que tinha jogado com a gente. ‘Manezão!’ Ele havia contado pra gente que seus pais e dois tios, junto com as “tias’, estavam no Rio, pra assistirem as finais. Poderia ter presenteado os pais com a relíquia. Aquilo era pra guardar pros netos”, filosofa o ex-goleiro, que já é avô de três “netinhas”, como se refere às “gatinhas”.

Enquanto sacaneia Tato, Paulo Victor dá nota dez para o lateral-esquerdo Branco. “Enquanto a gente comemorava, o gaúcho dizia que tiraria dois milhões (de cruzeiros, dos dez milhões prometidos, como prêmio, pelo título), para um avião levá-lo até Bagé (fronteira do Rio Grande do Sul, com o Uruguai), para comemorar com a família. Bonito isso!”, aplaude.

Título papado – o arbitro levou a partida até os 46 minuto do segundo tempo –, Paulo Victor não viu quase mais vascaínos no estádio, quando a turma tricolor dava a volta olímpica, evidentemente, em clima de muita comemoração da torcida que lotava o lado esquerdo das arquibancadas do “Maraca” e a “geral” – setor que deixou de existir, há pouco tempo, por imposição da Fifa. Recebia o torcedor de menor poder aquisitivo, que assistia ao jogo em pé. Durante as comemorações no vestiário, o ultimo a chegar, acha ele, foi o camisa 10 Assis. “Chegou com o troféu de melhor do jogo, cansadão. Não sei como não engoliu tantos microfones que puseram diante dos seus dentes. Ainda escutei ele declarando: ‘Foi a vitória da garra. Aprendeu o discurso do deputado Delei”, sacaneia.

Os recortes de jornais guardados por Paulo Victor mostram Assis declarando, também, que o título chegara, “por merecimento”. Citava que o Vasco havia pressionado no primeiro tempo e que o Flu atacara mais velozmente, na fase final, “quando criamos as melhores chances de vitória. Eu perdi três, se bem que o (goleiro) Roberto Costa tivesse me atrapalhado, com excelentes saídas de gol”, dissera.

Por aquele tempo, Assis formava com o baiano Washington, uma terrível dupla goleadora, que a imprensa carioca apelidou por “Casal 20”, em alusão a um seriado da TV norte-americana que tinha marido e mulher se metendo em encrencas e, sempre, derrotando o mau, para o bem do “bem”. Paulo Victor conta que Washington, depois do jogo, raspou a barba, “para acertar contas com o Homem Lá de Cima”, fato confirmado, também, pelos seus recortes de jornais. “Coisa de baiano”, volta a brincar o ex-goleiro, que era conhecido, em seus tempos de Ceub e Brasília, como o mais gozador dos jogadores. “Leia só isto aqui”, aponta para as explicações do atacante: “Quando saí de casa (para as Laranjeiras), antes do primeiro jogo com o Vasco, olhei para o Cristo Redentor e decidi tirar dois dedos de prosa com ele, que me deu forças nesta decisão. Agora, vou lhe pedir licença pra tirar a barba”, está escrito num jornal carioca.

INIMIGO NO PEDAÇO – Uma atitude muito elogiada por Paulo Victor daquela final foi o comparecimento do meia vascaíno Mário, que havia sido cria do Flu, ao vestiário tricolor, para parabenizar o zagueiro Ricardo Gomes, seu grande amigo. “Eles eram chapinhas, desde os tempos de seleção (brasileira) pré-olímpica. Muito bonito aquilo, ainda mais porque nós não perdemos a oportunidade para gozá-lo. O cara tinha, nos cabelos, o desenho de uma estrela cruzmaltina, que não ajudou a dar Vasco na cabeça”, sacaneia.

Assim colo elogiou a atitude de Mário, o camisa um tricolor elogiou, também, atitude idêntica, do preparador físico tricolor, Admildo Chirol, que não escondia a sua admiração pelo vigor físico do adversário – principalmente, no primeiro tempo e inícios da etapa final – e foi ao vestiário do Vasco cumprimentar o colega Antônio Mello.

FICHA TÉCNICA

Fluminense 0 x 0 Vasco – Data: 27.05.1984.

Local: Maracanã.

Árbitro: Romualdo Arppi Filho, auxiliado por Emídio Marques Mesquita e José de Assis Aragão.

Público: 128.781 pagantes.

Renda: Cr$ 638 milhões e 160 mil cruzeiros (recorde brasileiro da época).

Fluminense: Paulo Victor; Aldo, Duílio, Ricardo Gomes e Branco; Jandir, Delei e Assis; Romerito, Washington e Tato.

Técnico: Carlos Alberto Parreira.

Vasco: Roberto Costa; Edevaldo, Ivan, Daniel Gonzalez e Aírton; Pires, Mário e Arthurzinho; Jussiê (Marcelo), Roberto Dinamite e Marquinho.

Técnico: Edu Coimbra.

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