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Histórias da Bola

Papo de boteco

1 – 18 de julho de 1969 – O Cruzeiro foi ao Estádio Engenheiro Araripe, em Vitória vencer a capixaba Desportiva, por 1 x 0. Até aí, nada de anormal. O destaque que chamou a atenção da torcida foi dois tios e um sobrinho em campo. Pelo lado cruzeirense, alinhavam o zagueiro José de Anchieta Fontana (futuro campeão mundial na Copa do Mundo do México-1970) e o seu irmão Tião Fontana; do outro lado, estava Betinho Fontana. Beleza! Aos 43 minutos do segundo tempo, Betinho aplicou um drible no “xerifão” zagueiro Fontana e a torcida levantou-se, esperando pelo gol do empate. Esperou! O tio mandou uma sarrafada no sobrinho, puxou uma das suas orelhas e passou-lhe um pito: “Me respeite, moleque!”

2 – 16 de março de 1969 – O Vasco da Gama enfrentava o Bangu, no Maracanã, pelo primeiro turno do Estadual. Os banguenses tinham time forte, ataque malandro – Mário “Tilico”, Dé “Aranha” e Aladim – e um pega daqueles mexia com a galera. Naquela tarde de domingo, levou 50.443 pagantes ao estádio, público difícil, hoje. Pois bem! Contando com os badaladíssimos Brito, Fidélis, Alcir Portella, Buglê, Nado e o goleador Valfrido “Espanador da Lua”, os vascaínos abriram o placar, no primeiro tempo, por intermédio de Adílson Albuquerque, irmão de Almir “Pernambuquinho”, grande ídolo cruzmaltino da década-1950. Perto do final da etapa, o Bangu atacou e o “Aranha” Dé mandou uma pedrada, para o goleiro Valdir Appel fazer uma grande defesa e ganhar aplausos. Mas, quando foi recolocar a “maricota” em mvimento, rodopiou a cintura e mandou a bola para o fundo da rede, empatando a pugna: 1 x 1. Foi o gol contra mais esquisito dos 66 anos de existência do “Maraca”. Até centenário da casa, daqui há 44 anos, vai ser difícil alguém igualar à proeza.

3 – 1959 a 2011 – Os goleadores baianos não sentem fome só de acarajé e de abará. No Brasileiro, são gulosos. Em 1959, quando a disputa chamava-se Taça Brasil, o campeão foi o Bahia e o principal “matador” Léo Briglia, com oito “pipocas”. Na época, os times cariocas e paulistas entravam nas semifinais e os demais teriam que jogar umas oito, se quisessem o título. O segundo baiano a dessa galeria foi Nunes, o “João Danado”, com 16 gols, em 1981, pelo Flamengo. Em 1990, foi a vez de Charles Fabian. Fez 11 gols, pelo Bahia. Em 1992, a glória foi de José Roberto Gama de Oliveira, o Bebeto. Temperou 18 “bolinhos no tabuleiro da baiana”. O penúltimo foi Renaldo Lopes da Cruz, defendendo o Clube Atlético Mineiro, com 16 tentos, em 1996. O derradeiro chamou-se Borges, defensor do Santos Futebol Clube, em 2011, com a melhor marca: 23 balançadas de barbantes. Se ele era descomplicado na área, o pai dele complicava no cartório. Deu-lhe o nome de Humberlito (Borges Teixeira).

4 – Década-1960 – Tião Macalé dizia-se, eternamente, grato a dois treinadores que o comandaram no Botafogo: João Saldanha e Paulo Amaral. O primeiro lhe tirara da Portuguesa-RJ, “onde eu ganhava um salário de fome”, e lhe dera prestigio, confiança e melhores condições de vida; o outro lhe amparara quando sofrera tremenda “pegada no pé” pela imprensa carioca. Pediu para ser barrado, mas o chefe só concordou quando viu que o seu estado psicológico lhe derrotava antes mesmo de entrar em campo. Amaral, que gostava da bola dele, puxou-lhe para o time de aspirantes. Sem ninguém para esculhambá-lo, deu a resposta que o treinador esperava e ajudou o Botafogo a ser bicampeão da categoria que fazia muito torcedor chegarem mais cedo ao estádio. Tião Macalé, quando começou a mexer com bola, em 1953, era o goleiro peladeiro de um time peladeiro de Niterói, o São Januário. Durante uns sete meses, matou de raiva a rapaziada, de tão frangueiro que era. Então, exilou-se no ataque, como meia-armador do Fluminense de sua cidade. E ficou campeão da liga amadora local. Tempos depois, já estava derrubando um outro Flu, o original: marcou o gol do título do bi alvinegro dos aspirantes, usando a cabeça.

5 – Temporada-1967 – Samarone era considerado craque e ídolo da torcida do Fluminense. Convidado a participar de um filme – deveria aparecer jogando sinuca, em um bar –, ele não topou, por achar que, como atleta, não passaria uma mensagem positiva. Então, pediu mudança no roteiro, a produção topou e o fez de participante de uma festa. Quando foram procura-lo para os acertos (na época, era dificílimo falar com atletas pelo telefone), os produtores encontraram-se com o ponta-direita Cafuringa chegando às Laranjeiras. Papo vai, papo vem, ao saber que o “Samara” iria para as telas, o atacante que jamais havia marcado um gol escrachou, indagando se seria filme de terror. Foi um terror! Era o dia em que os jogadores entravam em férias, Samarone já havia viajado e a produção não o localizou. Ele fora indicado para o cinema pelo Pai Santana, massagista tricolor e que havia participado de uma ponta das filmagens. Santana dissera aos cineastas que o melhor jogador para um filme seria Samarone, porque “ninguém fazia cena” melhor do que ele, tentando enganar aos árbitros.

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