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Histórias da Bola

O jogo de Biriba

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Biriba era um cachorro vira-latas que saiu do antigo Estado do Rio de Janeiro para a Cidade Maravilhosa. Levou uma trombada enquanto as suas patas percorriam o asfalto e sofreu horrores pelo acidente.

Coisa do destino. Biriba, ainda sem nome, estava mais pra lá do que pra cá, quando o ex-jogador botafoguense Macaé pintou em sua vida, ouvindo dizer não haver mais remédio para salvar o bichinho. O levou pra casa, muito mais pensando em abreviar-lhe os dias inglórios.

Biriba escapou do pior e ele e Macaé tornaram-se amigos inseparáveis.

Por ter criado amor ao seu primeiro clube no futebol carioca, Macaé não cortava seus vínculos com os alvinegros. Assim, no domingo 18 de julho de 1948, ele foi ao estádio da Rua General Severiano assistir Botafogo 4 x 2 Canto do Rio, sem levar em conta que, na primeira rodada do Campeonato Carioca, o seu time havia levado 0 x 4 do São Cristóvão, deixando em sua torcida a impressão de que chegaria a 13 temporadas sem o título estadual. Ainda mais sem o seu principal atacante, Heleno de Freitas, que fora para o argentino Boca Juniors.

Macaé, sem ligar para as perspectivas, levou Biriba junto com ele para o jogo. Caminharam por Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Rua Prado Júnior, passaram pelo então chamado túnel novo e foram bater na Avenida Wenceslau Braz, o destino final. Quando ele estava diante do portão de entrada para a geral (espaço onde ficava o povão, em pé), não viu Biriba. O procurou, indagou se alguém o tinha visto, e nada.

O jogo começa e, no primeiro tempo, Carango bateu na rede, para o visitante. Tava feia a coisa, pressentia a torcida botafoguense, ainda mais quando o time virou de etapa sem mexer no placar.

No vestiário, Zezé Moreira – antigo centro-médio (atual meio-campista recuado) e preparador físico da moçada, desde 1944, efetivado como treinador – chamou a turma no canto e mandou aquela bronca – valeu!

No segundo tempo, Otávio empatou a peleja. De repente, o que Macaé, lá da geral, vê? Briba entrando na “cidadela” (os antigos ‘speakers’ assim chamavam o arco, as traves) do “Cantusca”, comemorando o tento, junto com a rapaziada. Como havia entrado no estádio, ele não sabia.

O Botafogo virou a sorte, foi a 3 x 1, sofreu um outro gol de Carango, mas fechou a conta deixando o adversário de quatro. Pronto! O supersticioso presidente do Botafogo, Carlito Rocha, não perdeu tempo: “nomeou” o cãozinho o mascote do time, com o aval de toda a rapaziada do prélio – Osvaldo, Gérson e Nilton Santos; Rubinho Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Pirilo (1 gol), Otávio (3 gols) e Braguinha.

Depois daquela goleada, Biriba não passou mais um dia sem ir aos treinos alvinegros. Com o Botafogo, a partir de então, ganhando de todo mundo, ele ficou famoso, virou figurinha carimbada dos jornais – notícia na revista argentina “El Gráfico” –, ganhando até o “bicho” do time pelas vitórias. As vezes, mais do que faturava jogador de “time pequeno”, quando vencia. Além disso, os jogadores ainda colaboravam com uma graninha para o tratamento da porrada que levada no asfalto, lembra-se?

A repentina e inesperada fama valeu a Biriba correia floreada, prata de lei nos interstícios, biscoitos finos, doces caros e carne de primeira. Além de uma cama invejada por muita gente. Se ele fora mesmo o responsável pelo sucesso do time, merecera. Afinal, daquele 18 de julho até o 12 de dezembro, os alvinegros excederam. Golearam o Olaria (6 x 1) passaram por cima de Flamengo (2 x 1 e 5 x 3; Fluminense (5 x 2) e Vasco (2 x 1 e 3 x 1) e chegaram ao fim de jejum de títulos somando 17 vitórias, em 20 jogos, marcando 59 e levando 24 gols, o que deixava o time com o belo saldo de 35 bolas na caçapa.

Além da citada derrota da primeira rodada, houve “meia-escorregadas diante do Bangu (0 x 0) e Fluminense (2 x 2). Sem problemas. Seu Carlito (como o chamavam) perdoou Biriba pelos dias que o cãozinho não levava sorte ao time. E o levava pra tudo quanto era canto. Até ofereceu-lhe champanhe durante a comemoração do título carioca-1948.

A temporada terminou e, em 1949, o Vasco da Gama estava esperando lá na equina com um time fabuloso, o “Expresso da Vitória”, pronto para acabar com a farra do Botafogo e de Biriba. Acabou e o rival só voltou a ser campeão estadual, em 1957, já nos tempos do insegurável Mané Garrincha, do extraordinário Didi (futuro melhor da Copa do Mundo-1958) e dos terríveis artilheiro Paulo Valentim e Quarentinha. Era natural que Biriba fosse perdendo espaço. Perdeu tanto que voltou a ser um vira-latas comum, abandonado pelo Botafogo. Passou fome, a dormir onde pudesse e a ter a saúde em frangalhos. Macaé, mais uma vez, foi busca-lo. Levou-o para casa, mas Biriba não podia dormir dentro de casa. O senhorio proibia. Só quando o homem cochilava, Biriba saía, de mansinho, e ia dormir aos pés do eterno amigo, que não tinha mais nem a boa vontade do açougueiro (botafoguense) da vizinhança, para vender fiado uma carninha para seu cão.

Sem fama, glória, fotos nos jornais, o abandonado Biriba sofria “pra cachorro”. Em 1956, Macaé contou ter encontrado, pela rua, com Carlito Rocha, e falado-lhe da situação de Biriba. O homem, segundo ele, “saiu pela tangente”. Culpou a vida, o tempo.

Quando nada, Biriba, um cãozinho alvinegro que seguiu vivendo usando um colar contendo o escudo do Botafogo, ainda deixou em sua história três rebentos nascidos de um namoro com a cadela Schiafino – é assim mesmo, a vida.


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