Siga o Jornal de Brasília

Histórias da Bola

Garra y corazón

Publicado

em

Quando o seu ex-jogador e treinador Flávio Costa o trocou , pelo Vasco da Gama, em 1953, o Flamengo passou a considera-lo um “ingrato”. Imediatamente, o presidente rubro-negro, Gilberto Cardoso, pensou em substituí-lo pelo paraguaio Fleitas Solich.

Para Gilberto, Solich era o “cara”. Menos para parte de sua diretoria, que queria o uruguaio Ondino Viera, alegando ter o paraguaio só dirigido times de baixo nível técnico. E projetavam vê-lo surpreendido pelo maior desenvolvimento do futebol brasileiro.

Estavam errados. Pouco depois, Fleitas Solich ficava treinador campeão sul-americano daquela temporada, inclusive, vencendo a Seleção Brasileira – 2 x 1 (27.03) e 3 x 2 (01.04 – sem contestações.

Pelo mesmo período em que o time canarinho disputava o Sul-Americano-1953, o Flamengo participava, na Argentina, do Torneio Quadrangular de Buenos Aires – 24.03 – 2 x 2 San Lorenzo; 26.03 – 1 x 1 Boca Juniors; 28.03 – 3 x 0 Botafogo. Na euforia pela conquista do troféu Presidente Juan Domingos Perón – segundo título internacional flamenguista -, Gilberto Cardoso mandou, silenciosamente, buscar Fleitas Solich, em Lima, para ir a Buenos Aires assinar contrato com os rubro-negros, durante a noite do domingo 29 de março.

Ao ser apresentado aos jogadores rubro-negros, Solich mandou-lhes um tapa na cara:

– Jogador brasileiro não tem garra e nem coração – referia-se ao que vira nos dois recentes jogos contra o considerado super-esquadrão da Confederação Brasileira de Desportos, contando com craques indiscutíveis, como o goleiro Castilho; os defensores Nílton Santos e Djalma Santos; o apoiador Danilo Avim; o meia Didi e os atacantes Julinho Botelho, Zizinho, Baltazar e Pinga, comandados por Aymoré Moreira.

À revista “O Cruzeiro”, Solich garantiu não ter plenejado nada para vencer o time canarinho, a não ser exigir dos seus ateltas jogarem com o coração, “um grande coração”, o que explicou assim:

– A qualidade técnica do jogador brasileiro é muito superior a de qualquer outro craque sul-americano… é quase inútil se planejar táticas para usa-las contra o Brasil. É preciso … apelar para para a vontade e a fibra. Foi o que fiz.

Palavras de quem, como atleta, fora um grande apoiador do paraguaio Olímpia, do argentino Boc Juniors e da seleção paraguaia, chegando a ser considerado um dos maiores jogadores sul-americanos do seu tempo.

A sinceridade de Fleitas Solich, ao falar de um futebol brasileiro que o decepcionara – “muito diferente de de outros times brasileiros que tive a oportunidade de ver jogar” – levou o atacante Esquerdinha a reagir:

– Seu Fleitas,…o jogador brasileiro tem garra, sim, E coração, também. Nós do Flamengo, principalmente.

Ao que Solich retrucou:

– Que assim seja, Esquerdinha, isto é, Wiliam Kepler Santa Rosa.

Mesmo esculhambando o jogador brasileiro que enfrentara na disputa continental, no Peru, assim que foi “flamengando”, Solich informou ter gostado da sua nova equipe, destacando os zagueiros Dequinha, Jadir e Pavão, e os atacantes Joel, Rubens e Índio. Não escondeu ter encontrado problemas no grupo, mas garantiu não sê-los de muita importância.

– Baseado nas observações que fiz, espero realizar um bom trabalho. Tenho a impressão de que o Flamengo dará mutias alegrias aos seus adeptos no decorer deste ano – previu e acertou.

Por aquela época, estava na moda nos gramados brasileiros os sistemas táticos da marcação por zona e a diagonal. Solich disse preferir a segunda opção, por acreditar mais “na eficácia da mrcação cerrada” do que à distância.

Solich estreou como treinador rubro-negro encarando os mais fortes times brasileiros, pelo Torneio Rio-São Paulo. No 11 de abril, diante do Santos, no Maracanã, tendo ao lado Jaime de Almeida, que comandara o time durante o Quadrangular de Buenos Aires, ele recebeu uma prova do que lhe contestara o ponteiro Esquerdinha.

Até os 40 minutos do segundo tempo, o Flamengo perdia, por 1 x 2. Então, Esquerdinha liderou uma impressionante reação, marcando dois gols, aos 85 e aos 86 minutos, provocando virada de placar: Flamengo 3 x 2 – Joel marcara o primeiro tento, aos 39. Garcia, Leone e Pavão; Jadir, Dequinha e Jordan; Joel, Rubens, Adãozinho (Evaristo) Índio e Esquerdinha foi a escalação.

Após a sensacional virada, enquanto Gilberto Cardoso comemorava muito, Soliche foi até Esquerdinha e disse-lhe:

– Você tinha razão. De hoje em diante, passo a acreditar na fibra dos jogadores brasileiros, muito particularmente na dos qe vestem a gloriosa camisa do Flamengo.


Você pode gostar
Publicidade
Publicidade 
Publicidade
  • CHARGE DO DIA

Publicidade