Ouvir a coluna Futebol Etc no podcast “Medo e Delírio em Brasília” foi uma surpresa – sobretudo pelo contexto. O podcast recuperou os números que publicamos em 26 de setembro sobre o peso da publicidade das bets nas receitas da Globo, numa discussão sobre o almoço de Flávio Bolsonaro com a cúpula da empresa, horas antes de sua sabatina no Jornal Nacional.
Naquela coluna, mostramos que as casas de apostas destinaram cerca de R$ 190 milhões à Globo somente nos três primeiros meses de 2026. Para comparar: a publicidade da administração federal direta rendeu à emissora aproximadamente R$ 150 milhões durante todo o ano de 2025. São levantamentos com metodologias e períodos diferentes, e a conta federal não inclui anúncios das estatais — ressalvas que fiz no texto original. Mesmo assim, os valores ajudam a entender o tamanho do interesse comercial nesse mercado.
O programa leu o trecho e sublinhou a comparação com a irreverência habitual: “Em três meses entrou mais dinheiro com bet do que com o governo no ano inteiro”. Na sequência, veio um palavrão que dispensa transcrição. Era a maneira do podcast de colocar uma exclamação naquilo que os números já diziam.
Apresentado por Cristiano Botafogo, com texto de Pedro Daltro, o Medo e Delírio mistura noticiário, colagens de áudio e uma dose generosa de deboche. Ouvir nosso trabalho incorporado àquela montagem foi particularmente interessante porque a discussão avançava sobre os interesses econômicos por trás de um encontro politicamente controverso.
Segundo rumores da mídia nacional, a possível volta das bets esteve no almoço de Flávio com João Roberto Marinho e Paulo Tonet. A Globo confirmou o encontro, que classificou como institucional e sem participação de lideranças do jornalismo. É necessário distinguir as coisas: a existência de um compromisso do candidato com a empresa não está comprovada.
Meu ponto é que essa história também precisa ser lida com a calculadora na mão. Os números não provam uma negociação, mas mostram por que o futuro das apostas interessa tanto às grandes emissoras. Quando publiquei a coluna, destaquei que a perda dessa publicidade atingiria muito mais gente do que os clubes de futebol. O Medo e Delírio recuperou justamente essa dimensão: nos bastidores da discussão política, há uma receita milionária em jogo.