O Flamengo merece cobrança pelo futebol que apresentou e pela eliminação diante do Estudiantes, no Maracanã. Depois de dois empates sem gols, caiu nos pênaltis e ofereceu aos rivais material de sobra para a gozação. Mas transformar qualquer reclamação ao regulamento em “tapetão” é uma maneira confortável de fugir da discussão. Um clube não perde seus direitos porque seu time jogou mal.
O caso de Marcos Rojo tem uma controvérsia concreta. A Conmebol recusou sua inscrição pelo Estudiantes, que pretendia aproveitar a vaga do lesionado Gabriel Neves. Segundo as informações publicadas sobre o episódio, o prazo de recuperação de Neves não atendia aos critérios exigidos para a substituição. O clube argentino recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte, conhecido pelas siglas CAS e TAS, e conseguiu uma medida cautelar autorizando a inclusão do defensor. Foi com essa proteção que ele entrou em campo no Maracanã.
Há um detalhe relevante para quem resume tudo a inconformismo depois da derrota: segundo relatos publicados sobre o processo, o Flamengo já havia se manifestado contra a liberação no CAS antes da autorização provisória. Depois da partida, formalizou a reclamação à Conmebol dentro do prazo de 24 horas. A contestação, portanto, tem antecedentes que precisam ser considerados antes de ser reduzida a uma reação ao resultado.
Isso não autoriza, porém, decretar desde já que Rojo estava irregular. Uma liminar é provisória, mas produz efeitos enquanto estiver em vigor. A tese rubro-negra, conforme relatado pelo ge, é que a autorização preservava a responsabilidade do Estudiantes pela utilização do atleta em um julgamento posterior. Sem examinar integralmente essa decisão, seria precipitado transformar o argumento de uma das partes em sentença.
Também é preciso esclarecer quem pode decidir. A Conmebol organiza a Libertadores, mas reconhece em seus próprios estatutos a jurisdição do CAS e o caráter vinculante de suas decisões. Portanto, não basta dizer que a entidade é a dona da competição e dará a última palavra. O alcance da autorização concedida ao Estudiantes é justamente uma das questões centrais dessa disputa.
O Flamengo pode pedir a vitória administrativa. A punição de derrota por 3 a 0 está prevista para situações de escalação irregular, mas sua aplicação depende de reconhecer a infração e a responsabilidade do clube — considerando, neste caso, a autorização do CAS. Existe um pedido juridicamente examinável; não existe, até aqui, uma vitória assegurada.
Dê-se a César o que é de César. O Estudiantes teve o direito de recorrer para escalar seu reforço; o Flamengo tem o direito de contestar os efeitos dessa escalação. Se as camisas estivessem invertidas, o mesmo critério deveria valer. Os memes fazem parte do futebol, mas não substituem o regulamento. O vexame se cobra no campo. O recurso se julga pelas regras.