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Valor da medalha

Por sermos o “pais do futebol”, em muitas das vezes não nos contentamos com uma medalha de prata ou de bronze. Esse pensamento é ultrapassado. Temos que enaltecer cada medalha conquistada ou cada resultado histórico obtido

Beatriz Ferreira já soma dois ouros no boxe. Foto: Javier Torres / AFP

Durante as transmissões realizadas dos Jogos Pan-Americanos de Santiago, no Chile, os atletas convidados a participarem como comentaristas fazem questão de enaltecer cada medalha conquistada pelo país. E eles têm razão. Por sermos o “pais do futebol”, em muitas das vezes não nos contentamos com uma medalha de prata ou de bronze. Um pensamento já ultrapassado.

Em suas falas, os atletas/comentaristas das lives da CazéTV e do Time Brasil no YouTube – únicas plataformas que estão transmitindo a competição – sempre recordam o como é difícil chegar em uma competição como essa. E vale destacar que eles sequer falam da falta de investimento, seja público ou privado, nos esportes olímpicos, que caiu drasticamente desde o Rio-2016 – o que é sentido implicitamente, nas entrelinhas. Outro ponto que eles sempre levantam em suas falas é o fato de um atleta ser o segundo ou o terceiro melhor de sua modalidade em todo o continente. Se ser o melhor do que você faz no Brasil já é difícil, imagine a nível continental ou mundial.

Isso porque durante esse período de jogos Pan-Americanos ou Olímpicos, algumas pessoas sempre acham que o Brasil deve sempre brigar pelas primeiras colocações, de ficarem entre os melhores em tudo, chamando os medalhistas de prata e bronze de “pipoqueiros”. No Brasil, ser o segundo é “ser o primeiro dos perdedores”. Argumento raso e muitas vezes feito por alguém que sequer é o melhor no que faz no seu dia a dia.E a mídia tem a sua parcela de culpa. Ao invés de enaltecer os feitos em um país que diminuiu drasticamente o investimento em esporte de alto nível, passamos a criticar o desempenho e diminuir o valor das medalhas. Por tudo que vemos nos esportes olímpicos, que pouco ganham o seu espaço devido, deveríamos enaltecer tais feitos. Inclusive, aquelas finais nas quais o Brasil sequer fica no pódio. Chegar a uma decisão não é fácil, é uma luta, um sacrifício, que gostamos de pormenorizar.

Há ainda quem diga que o Brasil deveria ter melhores resultados do que os Estados Unidos, já que raramente eles levam os seus melhores atletas aos Jogos Pan-Americanos. Para se ter uma ideia, quase metade dos atletas estadunidenses que estão no Chile neste ano são universitários. Mas por lá, o desenvolvimento de um atleta é feito desde os primórdios. Sem contar que a maioria dos esportes olímpicos possui uma seletiva própria, já que vários conquistam o índice – e há uma cota pré-definida pelo Comitê Olímpico para cada país – não fosse por isso, os pódios seriam repletos de atletas daquele país.

Temos que enaltecer cada medalha conquistada ou cada resultado histórico obtido. Como não vibrar com o desempenho da equipe brasileira de beisebol, que disputará a medalha de ouro neste fim de semana? Como não celebrar cada vitória no boxe, na ginástica, na natação ou em qualquer modalidade? Vários desses atletas são praticamente anônimos e, por muitas das vezes, possuem uma dupla jornada – atleta e trabalho. Eles merecem ser valorizados pelos seus feitos. Que seja uma final, um bronze, uma prata. Chamar os atletas do beisebol de “pipoqueiros”, caso eles venham perder a final, é ultrajante. Ou qualquer outro atleta pan-americano.

Claro que é sempre bom vermos atletas do país no mais alto lugar do pódio, ouvir o hino nacional entoar. Mas não nos esqueçamos que somos apenas um país em desenvolvimento. Longe de possuir um olhar necessário ao esporte a partir das categorias de base. Temos que celebrar cada conquista. O valor de uma medalha é gigantesco – ainda que não financeiramente, já que o Comitê Olímpico Brasileiro não irá pagar premiações para aqueles que forem ao pódio. Celebremos cada conquista. Ver uma pessoa do nosso país entre os melhores é sempre bom, independentemente da cor do objeto que lhe vá ao pescoço. Deixemos de ser ingratos com as pequenas conquistas de nossos atletas.

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