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Educar é ação
Educar é ação

Não basta combater o tempo de tela dos adolescentes, é preciso investir em alternativas reais

Quando restringir não é suficiente: por que o verdadeiro enfrentamento ao excesso de telas passa pela criação de oportunidades reais para os jovens

Philip Ferreira

12/05/2026 11h20

capa jbr (4)

Foto: Magnific

As formas mais eficazes de reduzir o tempo excessivo diante das telas não passam apenas por proibições, mas pela oferta de experiências significativas no mundo real. Esportes, artes, música, clubes de ciência, atividades culturais, projetos sociais e até experiências profissionais iniciais são caminhos que competem diretamente com o uso de celulares e computadores. O desafio não é simplesmente diminuir o tempo de uso, mas engajar adolescentes que estão desmotivados, afastados da vida social e pouco envolvidos com atividades fora do ambiente digital.

Para enfrentar esse cenário, dois elementos são centrais: investimento e inteligência na formulação de políticas públicas. O primeiro diz respeito ao financiamento.

No Brasil, já existem instrumentos que podem ser ampliados com esse propósito, como leis de incentivo e fundos educacionais. A Lei de Incentivo ao Esporte e a Lei Rouanet, por exemplo, permitem que recursos sejam direcionados a projetos esportivos e culturais. No entanto, ainda há pouca integração dessas políticas com estratégias voltadas especificamente ao desenvolvimento de adolescentes em situação de vulnerabilidade ou desengajamento.

Uma abordagem mais ampla de educação precisa considerar que o aprendizado não ocorre apenas dentro da sala de aula. Atividades extracurriculares de qualidade podem transformar trajetórias. Quando um jovem passa a frequentar um projeto esportivo estruturado, participar de uma companhia de teatro ou integrar um clube de robótica, não apenas ocupa seu tempo: desenvolve habilidades socioemocionais, senso de pertencimento e propósito.

Por outro lado, uma visão restrita de investimento educacional, focada apenas em conteúdos formais e no ambiente escolar tradicional, tende a ignorar justamente os adolescentes que já não se identificam com a escola. Muitas vezes, esses jovens enfrentam barreiras como ansiedade social, baixa autoestima, falta de oportunidades locais ou ausência de estímulos variados.

Além disso, o Brasil enfrenta uma redução de espaços comunitários de convivência juvenil. Clubes, associações de bairro e atividades recreativas gratuitas ou acessíveis têm diminuído em diversas regiões, o que faz com que o ambiente digital ocupe um espaço cada vez maior na rotina dos adolescentes.

Famílias com maior poder aquisitivo conseguem contornar esse cenário ao investir em cursos, academias, atividades artísticas e esportivas. Essas oportunidades, no entanto, ainda são limitadas para grande parte da população, o que aprofunda desigualdades e restringe o acesso de muitos jovens a experiências formativas essenciais.

Outro ponto importante é que estratégias baseadas apenas na restrição do uso de telas têm eficácia limitada. Estudos mostram que, quando o acesso a determinados conteúdos digitais é reduzido, os jovens tendem a migrar para outras formas de consumo digital. Ou seja, o problema não está apenas no tempo de tela em si, mas na ausência de alternativas mais atrativas fora dele.

Por isso, investir em atividades reais é uma estratégia mais eficiente. Programas que ampliem o acesso a esportes, cultura, ciência e tecnologia podem funcionar como verdadeiros motores de transformação social. E mais: esses investimentos não precisam competir com a educação formal, pois a complementam.

Ampliar esse tipo de política traz ainda outro benefício: o fortalecimento do engajamento social. Quando a sociedade percebe que pode contribuir diretamente para o desenvolvimento de jovens, seja por meio de doações, participação em projetos ou apoio a iniciativas locais, cria-se uma rede mais sólida de corresponsabilidade.

Além do financiamento, é fundamental pensar em estratégias inteligentes de implementação. Muitos adolescentes desejam sair da rotina centrada nas telas, mas enfrentam dificuldades iniciais para ingressar em novas atividades. Políticas públicas e projetos educacionais podem atuar justamente nesse primeiro passo, facilitando o acesso, incentivando a participação e criando ambientes acolhedores.

Se queremos realmente promover o bem-estar dos jovens, precisamos ampliar nossa compreensão sobre educação. O período fora da escola, especialmente no contraturno, é decisivo na formação dos adolescentes. É nesse intervalo que muitos acabam se desconectando da realidade e se refugiando no ambiente digital.

Portanto, enfrentar o excesso de tempo de tela não depende apenas de controle, mas de oferta. Não basta limitar, é preciso substituir com experiências mais significativas. Investir em atividades reais, acessíveis e de qualidade é um caminho concreto para reconectar os jovens com o mundo, com os outros e consigo mesmos.

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