Por: Dr. Ricardo Ferro, urologista (CRM-DF 16924), e Demerval Guilarducci Bruzzi (CRP 01/21380)
O Dr. Ricardo Ferro, urologista (CRM-DF 16924) e renomado profissional de nossa capital, é o convidado desta coluna e nos explica os impactos psicológicos da disfunção sexual masculina.
A disfunção sexual masculina costuma ser tratada como um problema restrito à vida íntima. Na prática do consultório, porém, percebemos que seus efeitos vão muito além do desempenho sexual. Para muitos homens, alterações na ereção, no desejo ou na ejaculação atingem diretamente a autoestima, a segurança e até a forma como se relacionam com a parceira, com a família e consigo mesmos.
Ainda existe uma forte associação cultural entre masculinidade e desempenho sexual. Por isso, quando surge uma dificuldade nessa área, é comum que o homem interprete o problema como sinal de fraqueza, envelhecimento ou perda da própria masculinidade. Vergonha, medo de falhar novamente, ansiedade e afastamento da parceira podem surgir rapidamente. Em alguns casos, o homem passa a evitar qualquer situação de intimidade justamente para não precisar enfrentar a possibilidade de uma nova frustração.
Do ponto de vista psicológico, o sofrimento pode envolver o significado atribuído à dificuldade: “minha ereção mudou” transforma-se em “perdi meu valor”. Uma revisão sobre homens tratados de câncer de próstata identificou relações entre função sexual, percepção de masculinidade e ajustamento psicológico, o que mostra a importância de compreender como cada pessoa interpreta essas mudanças, sem presumir que todos os homens as vivenciem da mesma maneira (Chambers et al., 2017).
É importante entender, entretanto, que a disfunção erétil não é simplesmente uma questão de “falta de vontade” nem um problema que está apenas na cabeça. Muitas vezes, ela é consequência de alterações orgânicas e pode, inclusive, funcionar como um sinal de alerta para a saúde geral.
Obesidade, diabetes, hipertensão arterial e sedentarismo estão entre as condições frequentemente associadas à piora da função sexual. Isso acontece porque uma boa ereção depende, entre outros fatores, de vasos sanguíneos saudáveis, fluxo de sangue adequado, integridade dos nervos e equilíbrio hormonal. As mesmas doenças que prejudicam o coração e a circulação também podem comprometer os pequenos vasos responsáveis pela ereção.
O diabetes merece atenção especial. Quando permanece mal controlado por muitos anos, pode provocar alterações nos vasos e nos nervos envolvidos na resposta sexual. A obesidade e o sedentarismo, por sua vez, estão relacionados a alterações metabólicas, cardiovasculares e hormonais que também podem interferir no desejo e na qualidade das ereções.
Existe ainda um cenário particularmente delicado: o câncer de próstata.
Graças ao avanço da medicina, cada vez mais homens são diagnosticados e tratados com possibilidade de controle ou cura da doença. Mas vencer o câncer não significa necessariamente encerrar todos os seus impactos. Dependendo das características do tumor e do tratamento escolhido, podem ocorrer alterações na função sexual.
Após a cirurgia para retirada da próstata, por exemplo, alguns pacientes apresentam dificuldade de ereção, especialmente nos primeiros meses. Radioterapia e tratamentos hormonais também podem afetar diferentes aspectos da sexualidade, incluindo ereção e desejo. A intensidade dessas alterações varia bastante de um paciente para outro e depende de fatores como idade, condição sexual antes do tratamento, doenças associadas, características do câncer e modalidade terapêutica utilizada.
É justamente nesse momento que o cuidado psicológico ganha enorme importância.
O homem que recebeu um diagnóstico de câncer já precisou lidar com medo, incerteza e preocupação com a própria vida. Depois do tratamento, pode se deparar com mudanças urinárias e sexuais que não esperava ou para as quais não estava emocionalmente preparado. Alguns passam a se sentir menos atraentes ou menos capazes de satisfazer a parceira. Outros se calam e sofrem sozinhos.
Esse silêncio pode criar um ciclo difícil: acontece uma falha de ereção, surge o medo de que ela se repita e, na relação seguinte, o homem passa a observar e cobrar o próprio desempenho. Quanto maior a ansiedade, mais difícil pode ser a resposta sexual. Uma alteração inicialmente orgânica passa, então, a ganhar também um componente emocional.
O modelo de Barlow (1986) ajuda a compreender esse processo: a antecipação do fracasso e o deslocamento da atenção para a avaliação do próprio desempenho podem interferir na resposta sexual. A intimidade passa a ser vivida como uma prova, enquanto as sensações prazerosas perdem espaço para a vigilância. Reconhecer esse mecanismo não elimina a causa orgânica, mas permite compreender como processos cognitivos e emocionais podem participar da manutenção da dificuldade.
A parceira ou o parceiro também participa dessa realidade. Quando não existe diálogo, o afastamento sexual pode ser interpretado como falta de desejo, perda de interesse ou rejeição. Conversar sobre o problema ajuda a retirar da sexualidade a obrigação de “dar certo” todas as vezes e permite que o casal redescubra outras formas de intimidade enquanto o tratamento acontece.
Ampliar a compreensão da sexualidade para além da ereção e da penetração pode ajudar a preservar o afeto, o prazer e o vínculo. Essa possibilidade aparece na revisão de Chambers et al. (2017) como uma das formas pelas quais alguns homens reorganizam sua experiência após o tratamento. Isso não significa desistir da recuperação sexual, mas evitar que toda a intimidade fique condicionada a uma única resposta corporal.
Outro ponto fundamental é saber que hoje existem diferentes possibilidades para tratar e reabilitar a função sexual. Medicamentos, mudanças no estilo de vida, acompanhamento psicológico ou terapia sexual e, quando necessário, outras modalidades de tratamento podem ser considerados individualmente. Nos pacientes submetidos ao tratamento do câncer de próstata, a reabilitação sexual também deve fazer parte da discussão sobre qualidade de vida.
Nesse cuidado integrado, a psicologia pode trabalhar a ansiedade antecipatória, a autocrítica e as crenças que vinculam o valor pessoal ao desempenho, além de favorecer a comunicação sobre necessidades e expectativas. O objetivo não é exigir confiança nem transformar a recuperação em mais uma obrigação, mas ajudar o homem a enfrentar as mudanças sem reduzir sua identidade à dificuldade sexual (Barlow, 1986; Chambers et al., 2017).
Cuidar da saúde sexual, portanto, não significa apenas tratar uma ereção. Significa olhar para o homem por inteiro.
Controlar a pressão arterial e o diabetes, combater a obesidade, praticar atividade física regularmente, abandonar o cigarro, dormir adequadamente e cuidar da saúde mental são atitudes que beneficiam não apenas a vida sexual, mas também o coração, o cérebro e a longevidade.
E talvez seja necessário mudar uma ideia ainda muito presente entre os homens: procurar ajuda não diminui a masculinidade. Pelo contrário. Reconhecer que alguma coisa mudou e conversar sobre isso com um profissional pode ser o primeiro passo para recuperar não apenas a função sexual, mas também a confiança, a intimidade e a qualidade de vida.
A sexualidade continua sendo parte importante da vida mesmo depois de um diagnóstico de câncer, de uma cirurgia ou do aparecimento de uma doença crônica. O objetivo da medicina moderna não deve ser somente acrescentar anos à vida, mas contribuir para que esses anos sejam vividos com saúde, autonomia, afeto e qualidade.
Até a próxima…