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Ciência da Psicologia
Ciência da Psicologia

Psicologia é ciência, não ideologia

Descubra por que essa área tão fascinante não se resume a mera opiniões, desafia conceitos pré-concebidos e vai além de visões limitadas

Demerval Bruzzi (CRP 01/21380)

13/03/2024 15h18

Human silhouette and science symbols illustration

Após a leitura da coluna da semana passada, uma aluna me abordou com uma pergunta intrigante:

– Professor, por que o senhor critica tanto a ideologia? Não é importante termos um posicionamento ideológico?

Adorei a pergunta, pois me oferece a oportunidade de reforçar que a psicologia é, de fato, uma ciência e não uma ideologia.

Um exemplo ilustrativo é apresentado por Robert M. Sapolsky em seu livro “Comporte-se”:

Todos nós nos comportamos, seja de forma admirável, repreensiva ou ambígua, dependendo da interpretação. O que desencadeou esse comportamento? Esse é o domínio do sistema nervoso. No entanto, se considerarmos o que ocorreu antes da atuação do sistema nervoso, entraremos no território dos estímulos sensoriais (muitas vezes captados de forma inconsciente). E podemos ainda nos questionar sobre o que ocorreu horas ou dias antes, algo que possa ter influenciado nossa sensibilidade, como ação hormonal descontrolada, por exemplo.

Entretanto, ao adotarmos uma abordagem ideológica, limitamos-nos a uma só ideia, o que a psicologia social pode classificar como ancoragem, ou seja, fixamos nosso pensamento em um único ponto, e isso não é compatível com a ciência.

Uma abordagem ideológica cria um campo de batalha em torno da interpretação das palavras ou das ações, frequentemente distorcendo seus significados. Sabemos que as palavras têm poder e suas definições estão carregadas de valores, muitas vezes idiossincráticos, que não são considerados por um pensamento ideológico, ou são manipulados para atender a essa ideologia.

Vejamos um exemplo mais complexo: a questão da agressão. Imagine uma reportagem cujo título seja:
Fulano agride ciclana com arma de choque”.

Imediatamente, podemos pensar em violência contra a mulher, correto? E é nesse momento que as pessoas que não encaram a psicologia como ciência, mas sim como ideologia, podem se lançar em uma defesa ideológica, utilizando diversos artifícios idiossincráticos, generalizando o ato e a narrativa.

Por outro lado, um psicólogo cuja formação é científica, primeiro analisaria toda narrativa da reportagem para distinguir entre fato e narrativa midiática. No caso da agressão, seria ela ofensiva ou defensiva?

Assim, analisamos se a agressão foi realizada de forma ofensiva, tornando o agressor covarde em sua ação, ou se foi de forma defensiva, porque o “agressor”precisava, de alguma forma, conter sua agressora.

Sei que o exemplo é polêmico, e foi proposital, pois tendemos a misturar fatos com as narrativas.
Com esse mesmo exemplo, mas voltando ao início de nossa coluna, podemos entender melhor o papel da ciência nesse processo.

Ao analisarmos as variáveis que contribuíram para o ato, podemos compreender melhor os processos envolvidos e, assim, ter uma visão mais clara da situação, sem correr o risco de “condenar”, mesmo que virtualmente, a pessoa chamada de “agressor” no exemplo.

Vamos sair um pouco do mundo humano para explicar um melhor. Se dois animais se agredirem, um macho e uma fêmea, o que analisamos:

  • A fêmea foi agredida por um macho que tentava invadir em seu território?
  • A fêmea foi agredida por tentar entrar no território de um macho?
  • A fêmea foi agredida pelo macho alfa de sua espécie, porque ele queria copular com ela?
  • A fêmea foi agredida pelo macho alfa de sua espécie, porque ele estava expulsando a fêmea do grupo, já que ela não estava se comportando de acordo com as normas do grupo e isso colocava o grupo em risco?

Como podemos ver, nas situações acima, é um pouco mais difícil, mas não impossível, observar o fenômeno do ponto de vista ideológico.

Somos seres biopsicossociais e, como tal, nossa análise deve ser abranger essas áreas em conjunto e não separadamente.

Falando ainda sobre a agressão, gosto muito de lembrar aos meus alunos que o oposto do amor não é o ódio, mas sim a indiferença. A biologia por trás do amor intenso ou do ódio intenso é similar em muitos aspectos, ou seja, a grosso modo explicando, tem a mesma “rota neural”.

Assim, recordo aos alunos que nós, seres humanos, tendemos a não odiar a agressividade, mas sim o tipo errado dela. Amamos quando está no contexto certo, independentemente do gênero. Da mesma forma, dependendo do contexto, nossos comportamentos mais louváveis podem ser vistos como absurdos ou até mesmo monstruosos.

É por isso que temas como aborto, pena de morte, etc., são tão polêmicos e significativos para nossa sociedade, porque ao ancorarmos nosso pensamento deixamos de pensar de forma científica e passamos a pensar de forma dogmática ou ideológica.

A grande questão é: como analisar essas questões sem ideologia? Não basta perguntar:

  • Por que o comportamento ocorreu?
  • O que levou a pessoa a cometer um determinado ato?

É preciso uma visão multidisciplinar, analisando desde fatores hormonais até processos patológicos envolvidos no ato.

Acredito que este seja nosso grande dilema, especialmente por termos uma formação fragmentada da mesma forma que nossos pensamentos e julgamentos, e, ao mesmo tempo, acesso a muitas informações, mas não necessariamente ao entendimento destas.

Como disse Shakespeare (1564-1616): “Nada é bom ou mau em si; é o pensamento que o torna assim”.

Até a próxima!

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