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O efeito Natália Pasternak e Carlos Orsi na psicologia – parte 1

Minha visão sobre o livro “Que bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério”

Foto: Divulgação

A microbiologista Natália Pasternak e o jornalista Carlos Orsi lançaram, recentemente, o livro “Que bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério”. Não sei se a intenção dos autores era causar, mas se foi, conseguiram. Pelo menos ao que diz respeito à psicologia, em especial, os psicanalistas.

Seria impossível tratar de um tema tão complexo em apenas uma coluna. Mesmo assim, tentarei esgotar em três colunas o capítulo referente à psicanálise e psicomodismo, localizado entre as páginas 179 e 203 no livro de Pasternak e Orsi. Mas antes de iniciar, quero deixar claro que nem de longe possuo o currículo de uma bióloga como a Pasternak — apesar de o meu não ser de se jogar fora. Entretanto, acredito que, como doutor e demais títulos acadêmicos que possuo, posso me aproximar para um debate saudável ou mesmo apresentar algumas críticas construtivas.

Assim que soube, comprei o citado livro e, confesso, devorei as 311 páginas em um fim de semana. Não posso mentir dizendo que não me agradou a leitura, incluindo algumas críticas feitas à psicologia. Contudo, enquanto psicólogo que sou, seria irresponsável não apresentar a vocês alguns pontos, mesmo sem a escrita de um jornalista do porte de Carlos Orsi.

Já na primeira página do capítulo supracitado, os autores deixam claro que o sofrimento mental pode ter origem orgânica ou mesmo fisiológica, e que não existe motivo para que as terapias e procedimentos que se propõem a tratar de tais males não passem pela testagem científica. Não discordo em nem uma linha. Porém, é importante pontuar que a ideia de uma psicologia baseada em evidência começou a ser debatida pela Associação Americana de Psicologia (APA) em meados de 2006, e em momento algum o Conselho Federal de Psicologia (CFP) ou qualquer psicólogo comprometido com a ciência da psicologia, disse o contrário. Da mesma forma que, ao contrário dos coachs e pseudoterapeutas, a grande maioria dos psicólogos não utiliza de evidência anedótica para validar seu trabalho.

E antes que digam que falei “grande maioria” e não “totalidade”, devo lembrar que áreas como medicina e biologia também têm seus “picaretas”. Infelizmente, não estamos isentos à presença dos aproveitadores.

Ainda neste sentido, os autores afirmam que a experiência clínica não serve como evidência por ser inconclusiva, insuficiente e inválida, porque dificilmente será representativa, uma vez que os pacientes insatisfeitos não voltam, os mortos não falam, e que a memória é seletiva, além do viés do ego do próprio profissional que pode mascarar a real situação.

Posso estar enganado, mas como economista (minha primeira graduação), além da clássica lei da oferta e demanda, aprendi que, ao contrário de bens, serviços são intangíveis em um primeiro momento; e que o consumidor é o maior mediador no caso.

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Aproveito ainda para lembrar que a pandemia não deixou dúvidas da importância da psicologia para a sociedade, ao contrário da cloroquina e da ivermectina, citadas pelos autores.

Um pouco mais à frente, mas ainda no início do capítulo, ficou claro para minha pessoa que o verdadeiro alvo da crítica dos autores são as terapias psicodinâmicas, ou como eles comentam, as terapias que habitam o universo da “cura pela fala”, em que a principal ferramenta terapêutica é um diálogo, livre ou estruturado, seguido de etapas e protocolos preestabelecidos, entre paciente e terapeuta.

Posso estar novamente enganado, mas não é assim nas demais ciências? Não se devem seguir protocolos muito bem estabelecidos? Confesso que não consigo entender a raiva dos autores para com a psicanálise. Aliás, antes que eu deixe passar, me parece que ouve um equívoco ao se colocar o diálogo como principal ferramenta terapêutica, já que além do diálogo ser uma das principais ferramentas de qualquer área da saúde, inclusive a biologia, para a psicologia, a escuta é nossa maior ferramenta. E digo mais: nós, psicólogos não somos treinados para ouvir o que os nossos pacientes falam, e sim para ouvir o que eles não conseguem dizer.

Não vou discordar dos autores com relação aos inúmeros métodos terapêuticos parcial ou totalmente acolhidos pela psicologia que têm surgido nos últimos anos, como reiki, florais, etc. Mas lembro que, na medicina, também temos a homeopatia, citada no livro.

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Os autores trazem ainda, no que considero a primeira parte do capítulo, o manual acadêmico Science and Pseudoscience in Clinical Psychology (Ciência e Pseudociência em Psicologia Clínica – 2015) advertindo que: “as bases cientificas do campo da psicologia clínica estão ameaçadas pela contínua proliferação de técnicas psicoterapêuticas, diagnósticas e de avaliação, sem base e que nunca foram testadas.”

Como ser contrário a esta fala, se psicólogos utilizam-se do DISC como ferramenta de avaliação, ou pior, dos temperamentos de Galeno como forma de avaliar personalidade?! Usam ainda a técnica de análise do discurso para compor laudos judiciais, enquanto a própria Justiça se vale das constelações familiares.

Não posso negar que, a cada dia, a psicologia perde espaço para “terapias alternativas”. Mas isso não se dá pela enorme base psicanalítica em nossa formação, e sim pela péssima formação que temos oferecido, com universidades ofertando 40% de sua grade na modalidade EAD amparadas pela portaria nº 2.117, em um país com mais de 68% de semi-analfabetos.

Por outro lado, grande parte dos psicanalistas de sucesso que conheci e ainda convivo nunca impuseram a psicanálise como uma ciência, muito pelo contrário, a colocaram como uma filosofia a ser praticada por psicólogos de formação, mesmo que não exista esta exigência para se atuar como psicanalista, e também como uma das doutrinas a serem estudadas na formação de psicólogo.

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Aliás, cabe destacar que o curso de psicologia tem a segunda maior carga horária entre os cursos de graduação, só perdendo para medicina. Por falar em carga horária, é fato que a psicologia é oriunda da fisiologia e da filosofia, mas será que os autores, ao tecerem seus comentários a respeito da ciência da psicologia, em especial as disciplinas psicanalíticas, imaginaram que passamos mais de 4 mil horas dialogando?

Até a próxima.

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