Menu
Ciência da Psicologia
Ciência da Psicologia

DPOC, oxigênio domiciliar e saúde mental: quando respirar também transforma a vida social

A falta de ar e o uso contínuo de oxigênio podem levar ao isolamento social e a sintomas depressivos, mas o cuidado integral ajuda o paciente com DPOC a preservar sua autonomia e seu espaço no mundo

Demerval Bruzzi (CRP 01/21380)

23/10/2026 14h45

beautiful young woman smiles tender standing on the rooftop in t

Foto: Magnific

Por: Dr. Alfredo Santana, CRM DF 17691, RQE 9097
Demerval Guilarducci Bruzzi, CRP 01/21380

Esta semana recorro ao renomado Dr. Alfredo Santana, CRM DF 17691, RQE 9097, para nos ajudar a entender como a falta de ar e o uso contínuo de oxigênio podem favorecer o isolamento social e sintomas depressivos. Afinal, compreender essa relação é fundamental para um tratamento verdadeiramente integral.

A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, conhecida como DPOC, costuma ser lembrada principalmente por seus sintomas respiratórios: falta de ar, tosse, produção de secreção e limitação para realizar esforços.

Entretanto, para muitos pacientes, especialmente nas fases mais avançadas da doença, a DPOC ultrapassa os limites dos pulmões. Ela pode modificar profundamente a rotina, a autonomia, os relacionamentos sociais e a forma como a pessoa percebe o próprio futuro. É justamente nesse ponto que a pneumologia e a psicologia se encontram.

À medida que a doença progride, atividades aparentemente simples, como caminhar até a padaria, subir alguns degraus ou até tomar banho, podem gerar dificuldade e desconforto. Para algumas pessoas com DPOC avançada e hipoxemia, pode ser necessária a prescrição de oxigênio domiciliar prolongado.

É importante destacar que o oxigênio não representa simplesmente uma medida de conforto. Quando corretamente indicado, pode trazer benefícios prognósticos, aumentando o tempo de vida. Porém, existe outro aspecto do oxigênio domiciliar que merece atenção: a experiência psicológica de passar a depender de um equipamento para respirar adequadamente.

Quando o oxigênio muda a percepção sobre a própria doença

O início do oxigênio domiciliar pode produzir sentimentos contraditórios. Por um lado, o paciente pode perceber melhora dos sintomas ou sentir maior segurança por estar recebendo o tratamento de que necessita. Por outro, o cateter nasal de oxigênio, o concentrador ou o cilindro podem funcionar como lembretes visíveis de que existe uma doença pulmonar avançada.

Para algumas pessoas, surge então uma ruptura simbólica. Antes, a doença podia ser percebida apenas nos momentos de falta de ar. Agora, o equipamento passa a fazer parte da casa e dos deslocamentos.

O paciente pode começar a pensar:

“Será que ainda consigo sair sozinho?”
“E se o oxigênio acabar?”
“As pessoas vão olhar para mim?”
“Vou conseguir viajar?”
“Será que vou ficar dependente para sempre?”

Essas preocupações não devem ser automaticamente classificadas como exageradas. Elas decorrem de limitações concretas impostas pela doença e pelo tratamento. Do ponto de vista psicológico, importa compreender também o significado atribuído ao equipamento: ele pode representar segurança e possibilidade de participação, mas também despertar receios de dependência e constrangimento social. Essas experiências foram identificadas em uma pesquisa qualitativa com pacientes, cuidadores e profissionais de saúde (Goldbart et al., 2013).

O desconforto da falta de ar é uma das experiências capazes de gerar maior sensação de ameaça. Depois de vivenciar episódios intensos de falta de ar, algumas pessoas passam a antecipá-los. O paciente deixa de caminhar porque teme ficar ofegante. Evita sair porque tem medo de passar mal. Diminui as viagens porque se preocupa com o transporte do oxigênio. Começa a permanecer cada vez mais tempo dentro de casa.

Evitar determinada atividade reduz imediatamente o medo de sentir falta de ar. O problema é que, ao longo do tempo, essa estratégia cobra um preço elevado. Quanto menos a pessoa se movimenta, pior pode ficar seu condicionamento físico, o que pode agravar a falta de ar, em um ciclo vicioso.

Na formulação cognitivo-comportamental, esse alívio imediato pode favorecer a repetição da evitação. O cuidado psicológico procura distinguir a limitação respiratória efetiva da restrição adicional produzida pelo medo, construindo formas de enfrentamento compatíveis com a condição clínica. Um ensaio clínico encontrou redução da ansiedade com uma intervenção cognitivo-comportamental em pessoas com DPOC, o que apoia sua contribuição para o cuidado integrado (Heslop-Marshall et al., 2018).

A depressão não deve ser entendida simplesmente como uma reação emocional inevitável à DPOC. Sua prevalência pode chegar a 30% entre os pacientes com DPOC. Trata-se de uma condição clínica que precisa ser reconhecida e, quando presente, tratada.

A relação entre DPOC e depressão também parece funcionar nos dois sentidos. A doença respiratória aumenta a vulnerabilidade aos sintomas depressivos, enquanto a depressão e a ansiedade podem estar associadas a piores desfechos clínicos da DPOC.

Isso acontece por diferentes mecanismos. A pessoa deprimida pode reduzir a atividade física, abandonar atividades prazerosas, ter menor motivação para utilizar corretamente as medicações, comparecer menos às consultas e apresentar maior dificuldade para realizar as mudanças comportamentais necessárias ao tratamento.

Nem sempre o paciente diz: “Estou isolado”. Muitas vezes, o processo surge de forma discreta. Primeiro, deixa de frequentar um restaurante porque há uma escada na entrada. Depois, evita uma reunião familiar porque teria de carregar o oxigênio. Começa a pedir que os familiares resolvam as atividades externas. Quando percebe, seu mundo físico e social se tornou muito menor.

A solidão tem prevalência significativa entre pacientes com DPOC, o que mostra que esse não é um aspecto secundário da doença, mas um problema clínico relevante. Também é importante diferenciar estar sozinho de sentir-se sozinho. Uma pessoa pode morar com familiares e, ainda assim, experimentar profunda solidão.

Quando o oxigênio domiciliar está corretamente indicado, o objetivo do tratamento não deveria ser simplesmente manter uma saturação adequada dentro de casa. O objetivo continua sendo preservar, na medida do possível, a vida, a funcionalidade e a autonomia.

Por isso, a orientação sobre o oxigênio precisa incluir questões práticas. O paciente e seus familiares devem compreender como utilizar o equipamento, como realizar os deslocamentos, quais cuidados de segurança são necessários e quais alternativas portáteis podem ser consideradas em cada caso.

Quanto maior a sensação de domínio sobre o tratamento, menor tende a ser a percepção de que o equipamento controla a vida do paciente. O oxigênio deve funcionar como uma ferramenta terapêutica, e não como uma fronteira entre o paciente e o mundo.

Um dos recursos mais importantes para romper esse ciclo é a reabilitação pulmonar, que combina, de maneira estruturada, treinamento físico, educação sobre a doença e estratégias de autocuidado.

Os benefícios vão além do condicionamento físico. Uma revisão sistemática com metanálise identificou melhora dos sintomas de ansiedade e depressão em pessoas com DPOC que participaram de programas de reabilitação pulmonar (Gordon et al., 2019).

Isso faz sentido do ponto de vista psicológico. Quando um paciente que acreditava não conseguir mais caminhar percebe, aos poucos, que consegue realizar determinada atividade, ocorre uma mudança na percepção de autoeficácia. Na teoria de Bandura (1977), essa percepção corresponde à crença na própria capacidade de realizar as ações necessárias diante de uma situação. Experiências concretas de realização ajudam a fortalecer essa confiança. Por isso, pequenas conquistas podem ser mais significativas do que recomendações genéricas para “pensar positivo”.

Ele deixa de pensar apenas:

“Meu pulmão não funciona.”

E passa a perceber:

“Tenho uma doença pulmonar, mas ainda existem coisas que consigo fazer.”

Essa diferença, aparentemente pequena, pode ter enorme impacto na relação do indivíduo com sua doença.

Outro fenômeno merece atenção. Diante de alguém com DPOC avançada, os familiares naturalmente desejam protegê-lo. Entretanto, quando a proteção se transforma em substituição permanente em todas as atividades, pode ocorrer perda adicional de autonomia.

“Deixa que eu faço.”
“Melhor não sair.”

Embora essas frases possam surgir do carinho e de uma preocupação legítima, a superproteção pode, involuntariamente, reforçar o comportamento de evitação. O ideal é encontrar um equilíbrio entre segurança e estímulo à independência possível. O paciente não deve ser exposto a riscos desnecessários, mas também não deveria ser privado de atividades que ainda pode realizar com adaptação, planejamento e orientação profissional.

À luz da autoeficácia, ajudar pode significar oferecer condições para que a pessoa participe, em vez de assumir automaticamente tudo por ela. Essa aplicação da teoria valoriza experiências possíveis de competência, respeitando os limites clínicos e a necessidade real de assistência (Bandura, 1977).

Sentir preocupação, tristeza ou insegurança diante de uma doença crônica não significa necessariamente apresentar depressão. Entretanto, alguns sinais merecem atenção quando persistem:

  • perda do interesse por atividades anteriormente prazerosas;
  • isolamento crescente;
  • tristeza persistente;
  • alterações importantes do sono;
  • desesperança;
  • sensação de inutilidade;
  • ansiedade intensa relacionada à falta de ar;
  • abandono de atividades que ainda seriam fisicamente possíveis;
  • dificuldade crescente para aderir ao tratamento.

Nessas situações, a avaliação psicológica e, quando indicada, a avaliação psiquiátrica podem ser incorporadas ao cuidado respiratório. Não se trata de dizer ao paciente que a falta de ar “é psicológica”. Esse seria um erro. A falta de ar na DPOC tem base fisiológica real. A questão é compreender que a experiência humana da falta de ar possui, simultaneamente, dimensões biológicas, emocionais, cognitivas e sociais.

Uma dimensão influencia a outra.

O acompanhamento psicológico pode ajudar a trabalhar interpretações ameaçadoras, ansiedade e dificuldades de enfrentamento, sem desconsiderar a doença respiratória. O objetivo é ampliar os recursos para conviver com uma condição real, de acordo com as necessidades de cada paciente (Heslop-Marshall et al., 2018).

O tratamento moderno da DPOC não deveria buscar apenas números de espirometria ou saturação. Também é necessário perguntar:

O paciente ainda consegue sair de casa?
Consegue encontrar os amigos?
Continua realizando atividades de que gosta?
Sente-se seguro para utilizar o oxigênio?
Apresenta sinais de depressão?

Como reforça o pneumologista Dr. Alfredo Santana, nos pacientes com doenças respiratórias crônicas, particularmente naqueles que apresentam falta de ar importante ou necessitam de oxigênio domiciliar, o objetivo terapêutico deve ser mais amplo do que simplesmente controlar a saturação de oxigênio.

É necessário considerar e valorizar a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida. Isso significa otimizar o tratamento da DPOC, considerando as possibilidades de medicamentos, como imunobiológicos (por exemplo, o dupilumabe), broncodilatadores inalatórios, corticoide inalatório e antibiótico, avaliar corretamente a necessidade de oxigênio, incentivar a reabilitação pulmonar, identificar sintomas de ansiedade e depressão e combater o isolamento social.

A DPOC pode modificar a maneira como uma pessoa respira. Mas o cuidado integral deve impedir, tanto quanto possível, que a DPOC também reduza o espaço que essa pessoa ocupa no mundo.

Até a próxima…

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado