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Ciência da Psicologia
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Dinheiro, modernidade e subjetividade: um diálogo entre Georg Simmel e a psicologia

Como a lógica do dinheiro molda a mente, os vínculos e a vida de quase metade dos brasileiros

Demerval Bruzzi (CRP 01/21380)

01/07/2026 13h58

dinheiro

Foto: Gerada por IA

Em A Filosofia do Dinheiro (1900), Georg Simmel analisa o dinheiro não apenas como instrumento econômico, mas como uma forma cultural que reestrutura profundamente a vida psíquica, as relações sociais e a experiência subjetiva moderna. Ao converter valores qualitativos em equivalências quantitativas, o dinheiro opera como um mediador universal, capaz de reduzir singularidades à lógica abstrata da mensuração. Essa transformação do mundo em algo comparável, calculável e instrumentalmente avaliável repercute diretamente no campo da Psicologia, uma vez que remodela percepções, afetos, vínculos e modos de constituição do self.

Quando Simmel afirma que o dinheiro cria um horizonte permanente de cálculo, ele sugere que a experiência de valor deixa de ser vivida como categoria simbólica, ética ou relacional, tornando-se mensurável e, portanto, negociável. Esse deslocamento dialoga com a concepção de William James sobre a consciência como fluxo contínuo de significados pessoais. Entretanto, em uma cultura monetarizada, esses significados passam a ser modulados por referências externas e padronizadas. A interioridade subjetiva perde densidade quando o sujeito orienta sua experiência segundo parâmetros quantitativos, fenômeno que se articula, no campo contemporâneo, com a noção de heterorregulação motivacional proposta por Deci e Ryan. Nesse contexto, a vida psíquica se organiza menos por valores intrínsecos e mais por expectativas, recompensas e validações externas.

Na perspectiva psicanalítica, Freud poderia ver o dinheiro como objeto investido de pulsão, condensando significados ligados a poder, controle, segurança e autoestima narcísica. No inconsciente, o dinheiro assume funções substitutivas, sustentando defesas e conflitos que ganham relevo em sociedades nas quais o status econômico passa a constituir elemento central da identidade do eu. Já para Jung, o dinheiro pode ser compreendido como símbolo cultural associado ao arquétipo do valor. Quando absolutizado, converte-se em um princípio unilateral que hipertrofia o ego e empobrece a dimensão simbólica da psique. Nesse sentido, a racionalidade econômica, ao dominar a experiência, rompe a integração das polaridades psíquicas e contribui para o desequilíbrio interior.

Outro eixo fundamental do pensamento de Simmel diz respeito à impessoalidade relacional típica das sociedades monetárias modernas. A economia baseada no dinheiro favorece trocas contratuais, abstratas e calculadas, o que se torna condição estrutural para a vida urbana. Nesse cenário emerge a conhecida “atitude blasé”: um estado de indiferença afetiva e dessensibilização diante do excesso de estímulos e da padronização cotidiana. A relação com o mundo se torna menos qualitativa e mais distante, quase anestesiada. A psicologia dessa atitude pode ser pensada, de um lado, a partir de Wundt, para quem a experiência consciente envolve dimensões afetivas que, sob a vida urbana acelerada e monetarizada, tendem a ser enfraquecidas, dando lugar a uma atitude predominantemente cognitiva e calculista. De outro lado, o Behaviorismo ajuda a compreender o modo como o dinheiro opera como reforçador generalizado. Para Skinner, ele organiza contingências que orientam comportamentos em função de recompensas, generalizando a lógica instrumental para esferas afetivas, morais e existenciais.

No campo da economia comportamental, Kahneman e Tversky mostram que o dinheiro ativa heurísticas e vieses cognitivos, intensificando a comparação social, a aversão à perda e decisões baseadas em status. Assim, a racionalidade monetária é, paradoxalmente, irracional, pois é constantemente atravessada por emoções e distorções perceptivas. Já Bauman, ao analisar a modernidade líquida, retoma a intuição de Simmel para descrever um mundo no qual o consumo fabrica identidades frágeis, descartáveis e permanentemente reconfiguráveis. As relações passam a operar sob a lógica do uso e do desempenho emocional, gerando ansiedade, sensação de insuficiência e precarização afetiva.

Um dos pontos centrais do pensamento de Simmel é a ambivalência psíquica produzida pelo dinheiro. De um lado, ele possibilita liberdade, pois rompe com vínculos tradicionais rígidos e confere autonomia ao indivíduo. De outro, produz alienação, indiferença e perda de sentido. A Psicologia encontra essa ambiguidade em diferentes abordagens. A psicologia humanista e a teoria da autodeterminação sugerem que a ênfase excessiva em motivações extrínsecas, como sucesso financeiro, status e reconhecimento, enfraquece necessidades básicas de autonomia, pertencimento e sentido, pilares do bem-estar psicológico. Paralelamente, o diagnóstico de Simmel sobre a expansão da cultura objetiva, técnica, econômica e institucional, em detrimento da cultura subjetiva, antecipa reflexões contemporâneas de Byung-Chul Han sobre a sociedade do desempenho. O sujeito internaliza a exigência de produtividade e competitividade, transformando-se em empresa de si mesmo, o que frequentemente resulta em exaustão, culpa e esvaziamento existencial.

No âmbito clínico, observa-se o crescimento de sofrimentos associados à comparação social constante, à inadequação, ao fracasso e ao hiperinvestimento na imagem. Trata-se da configuração do “eu mercantil”, cuja autoestima depende da validação externa e do valor atribuído socialmente ao seu desempenho. O dinheiro também reorganiza os processos cognitivos ao favorecer um modo de pensamento racional-instrumental, baseado em previsão, utilidade e custo-benefício. No cognitivismo, isso se expressa na formação de esquemas mentais que avaliam pessoas, situações e a si mesmo em termos de utilidade e produtividade. Na psicologia social, intensifica-se a comparação social como fundamento da autoavaliação. A neuroeconomia acrescenta que o dinheiro ativa circuitos cerebrais de recompensa semelhantes aos das drogas, contribuindo para padrões de repetição compulsiva. Assim, o sujeito aprende a perceber a si mesmo como capital humano, medido menos por quem é e mais por quanto “vale”.

No campo dos vínculos humanos, Simmel observa que o dinheiro torna possível a cooperação entre desconhecidos, criando redes complexas de interdependência social. No entanto, essa mesma estrutura fragiliza relações profundas e personalizadas. A Psicologia de grupos, como em Bion e Lewin, sugere que as organizações passam a priorizar a funcionalidade em detrimento do pertencimento simbólico, o que repercute na experiência subjetiva de coesão e identidade. Na terapia cognitivo-comportamental, observa-se o fortalecimento de crenças centrais baseadas em mérito, desempenho e valor pessoal vinculado à produtividade. Já a Psicologia Existencial aponta para o crescimento da angústia diante do vazio de sentido, uma vez que a lógica monetária não responde às perguntas fundamentais sobre significado, finalidade e identidade.

Nesse cenário, a monetarização da vida tende a produzir identidades performativas, estruturadas para o reconhecimento e a validação social. A subjetividade passa a se organizar em torno de metas, resultados e comparações, o que impacta diretamente a autoestima, a autenticidade e a saúde mental. O sujeito moderno encontra-se, assim, dividido entre a promessa de liberdade e a experiência de alienação, tensão que, ainda hoje, mantém a obra de Simmel viva, atual e profundamente relevante para a Psicologia.

Pensando em nossa realidade atual, a análise de A Filosofia do Dinheiro de Simmel, quando confrontada com a realidade socioeconômica brasileira, oferece uma lente poderosa para compreender como as estruturas monetárias e as políticas públicas moldam não apenas comportamentos econômicos, mas também experiências subjetivas e coletivas. No Brasil atual, cerca de 94 milhões de pessoas, o equivalente a aproximadamente 44% da população, dependem de algum tipo de programa social do governo federal, especialmente por meio de transferências de renda como o Bolsa Família e outras assistências sociais. Isso indica que quase metade da população vive, em alguma medida, sob o guarda-chuva econômico do Estado e de sistemas monetários públicos de redistribuição de renda.

Sob a perspectiva de Simmel, tal dependência amplia a função do dinheiro como mediador social, em vez de mero instrumento de troca, fazendo com que o valor monetário seja um elemento central na construção da identidade, da autonomia e da interação social. Em termos psicológicos, como abordado, essa realidade pode gerar ambivalências subjetivas: por um lado, os programas sociais têm impacto direto na redução da pobreza e na garantia de necessidades básicas, diminuindo inseguranças fundamentais; por outro, a integração profunda do dinheiro no núcleo das relações sociais, inclusive na relação entre o indivíduo e o Estado, pode reforçar o que Simmel descreve como racionalização e objetivação da vida. Isso se traduz em modos de pensamento e de ação mais calculistas e menos simbólicos ou afetivos, afetando sentimentos de autonomia, de propósito pessoal e de pertencimento.

O olhar psicológico social e cognitivo contemporâneo também sugere que, quando a sobrevivência e a dignidade se apoiam fortemente na mecânica monetária e em instituições externas de apoio, surgem representações cognitivas e emocionais complexas, como dependência, insegurança existencial e maior suscetibilidade a influências externas, incluindo manipulação política ou social, fenômeno que ressoa com a crítica de Simmel sobre a perda de sentido e a submissão a forças objetivas que escapam ao controle individual.

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