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A importância das funções executivas (parte 2)

Na segunda parte do artigo sobre funções executivas, vamos falar sobre shifting, updating e inhibition

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Vimos, na semana passada, de forma bem simplificada, que as funções executivas são as habilidades cognitivas que nos permitem controlar e regular nossos pensamentos, emoções e ações diante dos conflitos e/ou distrações. Nesta semana, vamos nos aprofundar um pouco mais nesta área — queridinha dos neuropsicólogos — e falar um pouco dos transtornos associados às funções executivas.

Vimos que foi a partir de 1982 que o termo passou a ser tratado da forma que conhecemos hoje. Foi o neuropsicólogo estadunidense Muriel D. Lezak o responsável por este processo. De acordo com Lezak, o comprometimento ou mesmo perda destas funções comprometeria a capacidade de uma pessoa de ter uma vida independente, construtiva e produtiva, mesmo se ela mantivesse intactas capacidades como visão, audição, fala e motricidade.

Mais recentemente, passamos a utilizar da compilação do psicólogo também norte-americano Akira Miyake, que levantou os três componentes essenciais para o processamento cognitivo controlado: shifting (flexibilidade ou alternância), updating (atualização) e inhibition (inibição).

Em 2018, o brasileiro Eduardo de Rezende foi muito feliz em descrever estas etapas com base nos estudos dos psicólogos norte-americanos Akira Miyake e Adele Diamond:

  • Shifting: entendido como “flexibilidade cognitiva”, em especial pelos trabalhos de Adele Diamond. Trata-se da capacidade de alternância entre diferentes operações ou estados mentais. Alguns artigos e/ou livros falam desse poder usado para alternar informações úteis e diferentes estratégias para resolução de problemas, por exemplo.
  • Updating: trata-se da manutenção e monitoramento de representações mentais durante uma atividade. Neste sentido, o updating é mais do que simplesmente manter informações relevantes na memória. É, na verdade, a capacidade de manipular ativamente as informações relevantes, ao invés de armazená-las passivamente.
  • Inhibition: a habilidade de inibir, intencionalmente, respostas automáticas e dominantes quando necessário. De forma resumida, podemos chamar de autocontrole.

Além disso, Diamond classificou as funções executivas como a área responsável pelo raciocínio, planejamento e resolução de problemas.

Diante do exposto, podemos facilmente dizer que falhas nas funções executivas estão diretamente ligadas a prejuízos no comportamento moral das pessoas. Como exemplo, lembro o caso de Phineas Gage, jovem americano de 25 anos que, após uma explosão acidental, em 1848, durante uma construção de trilhos, teve uma barra de ferro de um metro atravessando seu crânio.

De acordo com os relatos da época, com o passar do tempo, o comportamento de Gage já não era mais o mesmo de antes do acidente. Gage parecia ter perdido parte do tato social, tornando-se agressivo, explosivo e até mesmo profano. Entretanto, segundo os relatos do médico, a memória, capacidade de aprendizado e força motora de Gage ficaram inalteradas.

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Pessoas com comprometimento nas funções executivas apresentam dificuldades de acatar regras e convenções sociais e têm dificuldade em medir as consequências de suas ações. Assim, passam a apresentar diminuídas habilidades sociais, com dificuldades em manter relacionamentos saudáveis.

Nós, psicólogos e neuropsicólogos, passamos a compreender melhor este processo através de casos de transtornos de dificuldade de aprendizagem, bem como em alguns comportamentos chamados de desviantes por fugirem às regras sociais. São os casos do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno do espectro autista (TEA) e transtorno opositor desafiador (TOD).

Muito ainda temos a aprender a respeito das funções executivas, mas uma coisa é fato: seus estudos estão abrindo portas para diversos empreendimentos, que vão de escolas e centros educacionais a programas de treinamento cognitivo e reabilitação, como, por exemplo, o aplicativo para smartphone Lumosity.

Até a próxima!

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