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O enigma das pesquisas

Diferenças entre levantamentos reacendem dúvidas sobre metodologia, transparência e regulação dos institutos

Vladimir Porfírio

30/09/2026 5h00

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil chegou a uma situação curiosa. Já não basta pesquisar o eleitor. Agora é preciso pesquisar as pesquisas. Institutos contratados para medir a mesma coisa conseguem entregar fotografias tão diferentes que, em alguns casos, parece que fotografaram países diferentes.

Naturalmente, pesquisa eleitoral não é profecia. É amostragem. Tem metodologia, ponderação, margem de erro, distribuição geográfica, entrevista presencial, telefônica ou digital. Tudo isso produz diferenças.

Mas metodologia também não pode virar biombo científico para explicar caô.

Em 2022, tivemos uma demonstração do problema. Na véspera do primeiro turno, o Datafolha apontava Lula com 50% dos votos válidos e Bolsonaro com 36%. O Ipec registrava 51% a 37%. Nas urnas, Lula terminou com 48,43% e Bolsonaro com 43,20%.

Foi daí que nasceu uma guerra. A campanha de Bolsonaro pediu investigação dos institutos e falou até em “pesquisa fraudulenta”. Eram acusações, não comprovação de fabricação de números.

Questionar pesquisa é legítimo. Acusar fraude exige prova. Mas cobrar explicações para discrepâncias gigantescas também é legítimo.

Por essas e por outras, Mato Grosso, em 2026, transformou-se num exemplar laboratório dessa discussão. No Real Time Big Data, Wellington Fagundes apareceu com 34% e Otaviano Pivetta com 27%. Sete pontos de vantagem.

Poucos dias depois, a AtlasIntel encontrou Wellington com 34,4% e Pivetta com 30,8%. Ainda Wellington numericamente à frente, embora em empate técnico.

Então apareceu o Paraná Pesquisas.

Pivetta surgiu com extraordinários 42,4%, contra 29,6% de Wellington. Não estamos falando de uma vírgula rebelde. São 12,8 pontos de vantagem.

Uma semana depois, a Quaest foi às ruas. E encontrou outro Mato Grosso. Pivetta apareceu com 29% e Wellington com 27%. Empate técnico. Na rodada anterior da própria Quaest, Wellington tinha 27% e Pivetta, 23%.

Como assim?

Qual diferença metodológica consegue explicar tamanha distância? A amostra? A distribuição regional? A ponderação por renda, escolaridade ou religião? A forma de selecionar entrevistados? Ou Mato Grosso possui o eleitorado mais volúvel do planeta?

Pode existir explicação técnica. Aliás, elas nunca faltam.

Wellington entrou nessa guerra dizendo que prefere esperar a “pesquisa verdadeira”, referindo-se às urnas de 4 de outubro. Também criticou o Paraná Pesquisas, mencionando multa aplicada pela Justiça Eleitoral.

Brasília conhece bem essa história. Na eleição de 2022, a última pesquisa realizada por um instituto local, pouco mais de uma semana antes da votação, colocava Ibaneis Rocha com 49,6% dos votos válidos. Indicava possibilidade concreta de segundo turno.

Paulo Octávio aparecia com 13,2%, tecnicamente empatado com Leandro Grass e Leila Barros, ambos com 10,1%.

Vieram as urnas.

Ibaneis venceu no primeiro turno com 50,30%. Até aí, a diferença para os 49,6% poderia perfeitamente entrar na margem de erro. Mas a grita estava em outro lugar.

Grass terminou isoladamente em segundo, com 26,25%. Paulo Octávio, apresentado pela pesquisa com vantagem numérica sobre Grass, não passou nem perto de disputar o segundo turno.

O problema, portanto, não estava apenas em prever ou não segundo turno. Estava na fotografia da própria distribuição dos votos.

Instituto de pesquisa não pode pretender usufruir simultaneamente da autoridade da ciência estatística e da imunidade do palpite. Quanto maior a influência das pesquisas sobre eleitores, partidos, financiadores, mercados e campanhas, maior deve ser a obrigação de transparência.

A margem de erro explica dois pontos. Explica três.

Não explica tudo.

No dia 4 de outubro haverá uma pesquisa com amostra gigantesca, participação de milhões de eleitores e margem de erro zero na contagem dos votos depositados.

Chama-se eleição.

Depois dela, além de contar os votos dos candidatos, talvez seja conveniente conferir também os votos das pesquisas. Até porque, depois do que aconteceu no DF em 2022, um vexame das pesquisas em Mato Grosso passa a exigir do Congresso algum espasmo de regulação.

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