A resistência do PT à criação de um Ministério da Segurança Pública acabou produzindo um efeito inesperado. No lugar uma máquina burocrática, o governo Lula prepara o lançamento de um plano nacional de combate ao crime organizado. E não é um plano qualquer. O pacote, apresentado inclusive ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nasce apoiado numa lógica que finalmente manda “seguir o dinheiro”.
O argumento petista contra o ministério até funcionava. A nova pasta seria vista como herança simbólica do governo Temer e concessão ao discurso da direita. Mas a resistência acabou empurrando o governo para algo potencialmente mais eficiente. Ministérios novos frequentemente viram monstrengos burocráticos, loteados por interesses políticos e transformados em cabides de emprego.
O governo por pouco não perde o “time” para disputar com a direita a pauta do combate ao crime. Mas, por um capricho do destino, o despacho de gaveta do Senado Federal à PEC da Segurança Pública acabou oferecendo a Lula um discurso perfeito para justificar o atraso na apresentação oficial desse plano. Num futuro debate pela TV, inclusive, Lula pode alegar que tinha de tentar esperar pelo Senado e ouvir Trump, quando for acusado de ter tomado medidas eleitoreiras no campo da segurança pública.
Com discurso articulado, Lula foi pra cima para resolver uma demanda detectada nas pesquisas, na esteira do DATAFOLHA encomendado pelo Fórum da segurança pública, enquanto surfava no envolvimento de Ciro Nogueira no esquema do Master. Aliás, está claro que o eventual envolvimento de petistas com o esquema do banqueiro Daniel Vorcaro não levará o presidente Lula a emitir sinais de alívio sobre as investigações da PF, AGU, CGU e Banco Central no caso.
Numa mesma tacada, ele neutralizou o centrão pró Bolsonaro, deixou o Senado a ver navios e dissolveu parte da pressão internacional por uma cooperação invasiva – evitando que as facções brasileiras fossem tratadas pelos EUA como organizações terroristas -, além de encaixar o tema num pacote de cooperação internacional de interesse de Washington por conta das terras raras.
O ministério virou plano. E esse plano pode funcionar justamente porque abandona a ideia de que o crime organizado se derrota prendendo soldados do tráfico enquanto bilhões continuam circulando livremente pelo sistema financeiro.
Finalmente o governo parece ter entendido aquilo que FBI e DEA descobriram há décadas: facção criminosa não é apenas quadrilha armada. É estrutura financeira, lavagem de dinheiro e patrimônio oculto.
Não adianta capturar aviãozinho do tráfico enquanto bilhões seguem na lavanderia de fintechs obscuras, empresas fantasmas, fundos de investimento fraudulentos e operadores espalhados pelo continente. A lógica da segurança pública deixou de ser apenas guerra policial na ponta do fuzil. Passou a depender de inteligência financeira, rastreamento patrimonial e cooperação internacional.
Embora o Fundo Nacional de Segurança Pública tenha pouco menos de R$ 1 bilhão, o governo prepara remanejamentos superiores a essa cifra e articula cerca de R$ 10 bilhões em linhas de crédito para os Estados, num primeiro momento. Na prática, uma espécie de PAC da Segurança Pública.
No fim das contas, a resistência petista à criação de um ministério da era Temer acabou empurrando o governo para algo que realmente pode dar resultado. Mas a letargia do Senado em torno da PEC da Segurança Pública também expôs uma verdade desconfortável: o crime organizado age em velocidade industrial enquanto Brasília continua tratando segurança pública no ritmo lento das conveniências políticas.
A novidade é dinheiro para uma “rubrica” de fim de fila nos governo de esquerda e uma prioridade voltada para o sistema carcerário. Nos bastidores do Ministério da Justiça, inclusive, foi grande o zum-zum-zum sobre um suposto estudo para uma eventual atuação das Forças Armadas dentro de presídios por meio de GLOs (Garantia da lei e da Ordem) nas penitenciárias. Mas a tese perdeu tração. O medo de um novo Carandiru ainda é um fantasma para o PT.
PS: viva o 13 de maio!