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Analice Nicolau
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R$ 1 trilhão até 2030:IA promete salto econômico, mas pode aprofundar desigualdade entre empresas

Colunista Analice Nicolau

13/10/2026 14h14

Celso Camilo, doutor em Inteligência Artificial e professor da Universidade Federal de Goiás Créditos: Divulgação

Tecnologia pode acrescentar quase R$ 1 trilhão à economia até 2030, mas ganhos dependem menos do acesso à IA e mais da capacidade das empresas de incorporá-la à produção

A inteligência artificial pode adicionar cerca R$ 1 trilhão à economia brasileira entre 2027 e 2030, mas a maior oportunidade econômica da tecnologia também expõe uma fragilidade do país: transformar acesso à IA em produtividade efetiva. Estudo do Reglab, comissionado pela OpenAI, estima que o impacto acumulado pode chegar a 7,6% do PIB brasileiro projetado para 2026, com 65% do ganho vindo do aumento da produtividade do trabalho e 35% da eficiência do capital. 

A Moody’s calcula, por sua vez, que a inteligência artificial generativa pode elevar a produtividade global em aproximadamente 1,5% ao ano, mas aponta uma diferença importante entre países: economias avançadas podem alcançar ganhos anuais próximos de 2,9%, enquanto mercados emergentes, como o Brasil, aparecem em uma faixa de aproximadamente 0,4% a 1,4%. O resultado cria uma nova variável para empresas e investidores. Não basta saber quem está adotando IA, mas quais companhias conseguem convertê-la em redução de custos, ganho de escala, aumento de receita e retorno sobre o capital.

Para Celso Camilo, doutor em Inteligência Artificial e professor da Universidade Federal de Goiás, a diferença tende a aparecer justamente na forma como a tecnologia entra na operação das empresas. “A IA não gera produtividade simplesmente porque uma empresa contratou uma ferramenta. O ganho aparece quando processos são redesenhados, tarefas repetitivas deixam de consumir tempo humano e as pessoas passam a trabalhar em atividades nas quais julgamento, criatividade e tomada de decisão realmente fazem diferença”, afirma. 

Dados corporativos começam a mostrar esse movimento. Pesquisa da IDC com 73 grandes empresas brasileiras, encomendada pela Microsoft, apontou que companhias consultadas atribuem às iniciativas de IA ganhos médios de 24,5%, enquanto 70% afirmam revisar responsabilidades internas após avanços de produtividade e 63% já criaram funções específicas ligadas à tecnologia. O mesmo levantamento, porém, encontrou um gargalo relevante: 30% dos executivos apontam falta de profissionais qualificados como uma das principais barreiras para ampliar a adoção.

Esse descompasso ajuda a explicar por que a adoção da IA pode produzir vencedores e perdedores mesmo dentro de um mesmo setor. A Moody’s observa que os benefícios econômicos ainda são desiguais porque implementar inteligência artificial exige mais do que modelos sofisticados: empresas precisam reorganizar fluxos de trabalho, integrar sistemas, preparar dados e capacitar equipes. A agência também afirma que, embora a adoção esteja avançando, os ganhos mensuráveis de produtividade ainda aparecem de maneira mais lenta, uma diferença que começa a chamar a atenção dos investidores diante do volume crescente de capital destinado à tecnologias. 

Países com maior participação de trabalhadores em funções profissionais e gerenciais tendem a capturar ganhos maiores, enquanto os benefícios da complementaridade entre pessoas e IA podem levar tempo para aparecer à medida que os trabalhadores aprendem a utilizar a tecnologia. O estudo estima que a inovação relacionada à IA pode elevar a produtividade agregada do trabalho em até 3,8% no longo prazo. Para o mercado financeiro, a consequência é que a análise de empresas tende a migrar da pergunta “usa IA?” para outra bem mais difícil: “quanto valor econômico essa adoção consegue produzir?”.

A discussão ganha peso em um momento em que o Brasil ainda enfrenta um problema estrutural de produtividade. Apesar do crescimento econômico observado após a pandemia, o investimento permanece fraco e o avanço da produtividade brasileira continua limitado por entraves estruturais, infraestrutura e ambiente de negócios. A inteligência artificial pode funcionar como uma oportunidade para reduzir parte dessa distância, mas também pode ampliá-la caso empresas brasileiras adotem a tecnologia mais lentamente ou permaneçam concentradas em aplicações superficiais.

“Existe uma diferença enorme entre utilizar IA para fazer mais rápido o que já era feito e reorganizar uma empresa a partir das capacidades que a tecnologia passou a oferecer. É nesse segundo estágio que aparecem os ganhos econômicos mais relevantes. Países e empresas que demorarem para atravessar essa fronteira não ficarão apenas tecnologicamente atrasados, mas perderão produtividade, competitividade e capacidade de gerar renda”, afirma Camilo. Nesse cenário, o quase R$ 1 trilhão projetado para o Brasil deixa de representar apenas o tamanho da oportunidade: passa a medir também o valor econômico que pode ficar na mesa se a adoção não vier acompanhada de infraestrutura, qualificação e transformação dos processos.

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