Rodrigo Nassif, fundador do Allmari Group e especialista em comércio internacional, analisa a escalada do frete e tarifas
Por trás das prateleiras impecáveis do varejo e da linha de montagem das grandes montadoras brasileiras, existe um bastidor silencioso onde decisões milionárias são tomadas sob extrema pressão. No cenário global das commodities e matérias-primas industriais, a estabilidade das empresas depende diretamente do fluxo ininterrupto de insumos que cruzam os oceanos todos os dias. À frente dessa complexa engrenagem está Rodrigo Nassif, executivo que atua no comércio internacional desde 2009 e lidera as operações globais do Allmari Group. Sua vivência diária entre os mercados do Brasil, Estados Unidos, China e Colômbia revela que a sobrevivência das indústrias nacionais não é definida apenas na negociação do produto na fábrica, mas no controle rigoroso dos custos que se acumulam ao longo da rota marítima.
Durante a recente participação do grupo na Expobor 2026, realizada no Expo Center Norte em junho, o debate sobre a oscilação do transporte marítimo internacional evidenciou a matemática implacável que devora as margens de lucro dos importadores de borracha, polímeros, químicos, alimentos e cosméticos. Como principal feira do setor de borracha e artefatos, o evento serviu de palco para expor que cotações de frete para contêineres saindo da Ásia rumo aos portos de Santos e Navegantes saltaram de US$ 1.200 para mais de US$ 10.000 em um intervalo de apenas oito semanas. Esse aumento fez a representatividade do frete saltar do patamar histórico de 10% para até 41% do valor total da operação em insumos como a sílica precipitada, matéria-prima utilizada em diversos segmentos, transformando o transporte no componente mais pesado do custo importado. Além disso, rotas planejadas para durar 41 dias passaram a exigir até 120 dias por conta de congestionamentos portuários e transbordos não previstos, elevando imensamente o risco de desabastecimento das fábricas.
O grande dilema do setor industrial nasce no choque inevitável entre a busca pelo insumo de menor preço imediato e a exigência de governança para proteger o caixa da empresa. Enquanto diretores de compras tentam encontrar fornecedores mais baratos para manter a competitividade, a realidade tributária brasileira aplica barreiras tarifárias e direitos antidumping que podem inviabilizar a operação da noite para o dia. A ilusão de uma economia inicial frequentemente se desfaz quando o produto chega ao porto sem o devido respaldo documental ou quando os atrasos operacionais paralisam a produção. O equilíbrio financeiro de uma indústria exige que o departamento comercial enxergue o processo de importação como um exercício contínuo de gestão de riscos e previsibilidade.
O erro mais comum cometido por compradores de matérias-primas é tentar adivinhar a oscilação do mercado contratando fretes internacionais com meses de antecedência. Em vez de criar estabilidade, essa prática amarra o importador a tarifas inflacionadas e transforma a operação em uma aposta financeira incerta. “Durante momentos de volatilidade extrema, fixar o valor do frete com muita antecedência expõe o cliente a variações bruscas que poderiam ser evitadas com flexibilidade contratual”, analisa Rodrigo Nassif, destacando que a compra antecipada pode transformar o frete em uma armadilha financeira. Quando o mercado recua e a empresa permanece presa a cotações elevadas, o prejuízo se acumula diretamente no Demonstrativo do Resultado do Exercício.
Para estancar o sangramento financeiro provocado pela oscilação logística, a estratégia mais eficiente é adotar a compra em condição FOB e definir a modalidade de frete apenas no momento do embarque. Essa flexibilidade permite comparar as ofertas do fabricante, da trading e do próprio cliente quando a carga está pronta, escolhendo a alternativa mais vantajosa para o caixa. “Nossa recomendação é manter a cotação logística próxima da data real em que a mercadoria será embarcada, garantindo ao menos 14 dias de permanência livre do contêiner no destino”, pontua o fundador do Allmari Group, defendendo que o frete mais barato nem sempre traz o menor custo final. Essa margem de manobra previne cobranças abusivas de demurrage nos portos brasileiros e preserva a previsibilidade orçamentária.
No mercado de matérias-primas para saúde, alimentos, cosméticos e artefatos de borracha, as exigências regulatórias atuam como o principal filtro de segurança contra paralisações de fábrica. A validação de normas internacionais, licenças sanitárias e auditorias na origem previne a entrada de insumos fora das especificações técnicas exigidas pelas autoridades. “Não basta receber um certificado e simplesmente repassá-lo ao comprador; é preciso conferir se a documentação é autêntica e se atende rigorosamente às exigências da ANVISA e órgãos internacionais”, explica Rodrigo Nassif, ressaltando que a análise documental rigorosa é a única forma de blindar a operação contra fiscalizações punitivas. O cumprimento estrito do compliance regulatório assegura a regularidade do fornecimento sem sobressaltos judiciais.
A consolidação de um grupo com presença global na América Latina, Estados Unidos e Ásia demonstra que a verdadeira competitividade no comércio exterior se constrói com estabilidade e visão de longo prazo. A criação de estoques de segurança em pontos estratégicos surge como a resposta definitiva para proteger a cadeia de suprimentos contra choques geopolíticos e gargalos marítimos. “O papel de uma trading internacional é atuar como parceira de governança do cliente, priorizando a segurança da operação e a preservação do negócio acima de uma venda imediata”, conclui o executivo, sintetizando a filosofia que guia a expansão de suas operações no mercado global. Proteger o patrimônio corporativo e garantir a continuidade da produção é o pilar que diferencia os líderes do setor industrial.