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Analice Nicolau
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Novembro Azul: quando o álcool vira uma saída para o sofrimento emocional dos homens

Colunista Analice Nicolau

04/11/2026 12h53

Sandro Barros, do Spa da Sobriedade, analisa o sofrimento emocional masculino, o abuso de álcool no Novembro Azul e os cuidados nas confraternizações.

O terapeuta Sandro Barros, do Spa da Sobriedade Créditos: Divulgação

Terapeuta Sandro Barros aborda a dificuldade de pedir ajuda e orienta sobre os desafios das confraternizações para quem busca a sobriedade

A campanha do Novembro Azul, tradicionalmente associada ao diagnóstico precoce do câncer de próstata, ganha uma dimensão indispensável ao lançar luz sobre a saúde mental e emocional da população masculina. A exigência sociocultural para que os homens demonstrem força constante, solucionem demandas cotidianas e reprimem qualquer sinal de vulnerabilidade cria barreiras severas para o reconhecimento da própria dor. Nesse cenário de pressões silenciosas, o terapeuta Sandro Barros, do Spa da Sobriedade, alerta para o espaço crescente que as bebidas alcoólicas assumem como um refúgio imediato, funcionando como uma tentativa de amortecer sentimentos e conflitos que não encontram vazão nas relações interpessoais e familiares.

A raiz desse comportamento remonta à formação social de gerações educadas sob a premissa da autossuficiência emocional e da recusa à fragilidade. Ao contextualizar a origem desse silenciamento, o especialista pontua: “Muitos homens cresceram ouvindo que não podiam chorar, demonstrar medo ou admitir que estavam sofrendo. Aprenderam que precisavam resolver tudo sozinhos, sustentar a família e estar sempre disponíveis para os outros, mesmo quando não estavam bem”. No entanto, a tentativa sistemática de esconder a dor não elimina a sua presença. Na rotina de convivência, o sofrimento psíquico não verbalizado costuma se manifestar por meio de episódios frequentes de irritabilidade, afastamento afetivo, atritos interpessoais contínuos ou no consumo progressivamente descontrolado de substâncias.

A superação dessa barreira cultural requer a desconstrução do conceito convencional de resistência masculina, ressignificando o ato de procurar apoio técnico. Apoiando a urgência de romper com o isolamento psíquico, Sandro Barros enfatiza: “Ser forte não é suportar tudo em silêncio. É reconhecer quando precisamos de ajuda e ter coragem de aceitá-la”. A admissão do esgotamento emocional e a busca por um diagnóstico especializado deixam de ser vistas como fraqueza para se consolidarem como uma decisão consciente de preservação da saúde integral e dos laços afetivos.

Créditos: Divulgação

A transição entre o consumo recreativo e o padrão de dependência química costuma ser sutil, exigindo atenção à função que a substância passa a desempenhar no dia a dia. Recorrer ao álcool para conseguir adormecer, enfrentar crises de ansiedade, anestesiar preocupações de trabalho ou viabilizar interações sociais são sinais claros de perda de autonomia, acompanhados por tentativas frustradas de interrupção, atrasos contratuais e negligência de compromissos. Detalhando a necessidade de intervenção antes do colapso definitivo, o terapeuta destaca: “Não precisamos esperar que ela perca tudo para reconhecer que existe um problema. O álcool pode aliviar um desconforto momentaneamente, mas não resolve aquilo que está produzindo sofrimento”.

Com a proximidade das celebrações de fim de ano, os indivíduos em processo de recuperação enfrentam um dos períodos de maior vulnerabilidade, em razão da oferta generalizada de bebidas e da intensidade de gatilhos emocionais, como saudades, cobranças familiares, frustrações e solidão. Para atravessar essas ocasiões preservando a sobriedade, a orientação inclui alinhar estratégias prévias com profissionais de saúde, combinar apoio com pessoas de confiança, planejar saídas antecipadas e, quando necessário, recusar convites com tranquilidade. Reforçando a centralidade da proteção individual, o especialista adverte: “A recuperação precisa ser protegida, não colocada à prova para atender às expectativas de quem está ao redor”.

Créditos: Divulgação

A rede de apoio formada por amigos e familiares desempenha papel decisivo na sustentação do tratamento, exigindo uma postura colaborativa que respeite a decisão de abstinência, elimine piadas depreciativas e ofereça diálogo sem julgamentos ou humilhações. Paralelamente, o acolhimento requer o estabelecimento de limites firmes diante de condutas nocivas. Sob o aspecto clínico, Barros ressalta que pessoas com padrão de consumo intenso ou prolongado jamais devem interromper o uso de forma abrupta por iniciativa própria, visto que a síndrome de abstinência alcoólica pode desencadear complicações clínicas graves, exigindo desintoxicação supervisionada por equipe médica.

Adiar a decisão de cuidar da saúde emocional para o início do novo ano apenas prolonga os danos causados pela dependência e amplia o sofrimento do indivíduo e de sua família. O primeiro passo terapêutico consiste em observar com lucidez os impactos do consumo na rotina, compartilhar a situação com pessoas confiáveis e recorrer a centros especializados. Sintetizando o caminho para a retomada do equilíbrio de vida, Sandro Barros conclui: “A mudança não precisa começar com uma grande promessa. Pode começar com o reconhecimento de que algo precisa ser diferente e com a disposição de aceitar ajuda”.

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