Após décadas na itália, a artista visual contemporânea com pesquisa naturalista Geovana Clea revela nova fase inspirada na força da terra
A arte contemporânea internacional vive um reencontro necessário com a sensibilidade orgânica e com as narrativas que brotam da memória humana mais genuína. Longe das fórmulas industriais e da superficialidade do consumo passageiro, a criação visual autêntica ganha força quando traduz sentimento, identidade e pertencimento. Nesse cenário de busca por profundidade poética, a a artista visual contemporânea com pesquisa naturalista Geovana Clea expressa sua maturidade autoral na inédita série “Sertões”. Radicada na Europa há quase três décadas, a criadora iniciou essa produção moldando argilas de rios europeus durante o rigoroso verão italiano, recriando à distância as memórias afetivas do chão rachado de sua infância no sertão nordestino. O projeto expandiu-se com a incorporação de terras naturais brasileiras, antecipando uma viagem ao país dedicada à imersão de pesquisa nas caatingas e ao reencontro com suas raízes.

A solidez desse percurso apoia-se em marcos institucionais construídos com independência ao longo de décadas nos principais centros da cultura europeia. Com passagens expressivas por bienais de arte e mostras consagradas, Geovana alcançou um dos momentos mais representativos de sua carreira. A solidez desse percurso apoia-se em marcos institucionais construídos ao longo de décadas nos principais centros da cultura europeia. Geovana integrou mostras no Palazzo Reale de Milão, no Palazzo Cusani, na Galeria Jean Blanchaert e participou da histórica Bienal de Veneza, no Pavilhão da Itália. Em 2014, alcançou projeção perante a crítica tradicional ao receber a premiação oficial do júri no Salon de la Société Nationale des Beaux-Arts (fundado em 1861), na Salle Le Nôtre do Palácio do Louvre, em Paris. Anos mais tarde, em 2023, sua pesquisa culminou em uma marcante exposição individual no Castello di Rivalta, acolhida pela família dos Condes Zanardi Landi.

Foto: Acervo da Artista
A trajetória de Geovana é marcada pela continuidade e pela autonomia criativa. Paralelamente à sua produção de ateliê para o colecionismo, a artista desenvolveu obras conceituais sob encomenda no universo do design internacional em Milão, participando de edições do Salão do Móvel sem jamais interromper suas pesquisas autorais nem deixar de pintar. Essa convivência com diferentes escalas de criação preservou a integridade de sua linguagem, permitindo que a série “Sertões” floresça como uma síntese autobiográfica de sua relação com a terra e com a preservação ambiental

Créditos: Acervo Artista
A preservação da autenticidade durante as últimas 3 décadas, diante das exigências do mercado exige uma postura firme de recusa a modismos decorativos e a intervenções artificiais que descaracterizam a matéria. Esse compromisso com a verdade rendeu a Geovana o reconhecimento formal da crítica de arte italiana Fosca Cannetta Nardini, que a definiu como uma artista original e desvinculada de tendências temporárias. “A arte verdadeira é a tradução direta de uma alma, e eu não atuo na frente das câmeras porque a tutela do meu chão rachado exige o silêncio e o respeito à própria terra”, pontua Geovana Clea ao recordar a defesa contínua de seu método contra reproduções vazias. A força de sua obra reside justamente nessa honestidade visceral, que transcende qualquer tentativa de mercantilização rasa.

Coleção particular: São Paulo
Créditos: Acervo da Artista
No desenvolvimento da série “Sertões”, o solo brasileiro assume protagonismo poético e espiritual. Após os primeiros estudos com argilas europeias, a artista incorporou terras de Inhapi, trabalhando com barro naturais pretos, marrons, cinzas e vermelhos, além de sedimentos da Ilha do Ferro e da Bahia. O processo ganhou dimensão sagrada ao receber de representantes indígenas de sua cidade natal uma porção de toá vermelho e argila branca, elementos de forte significado cultural e ancestral. ‘Quando a matéria revelou a mesma rachadura da minha infância na tela final, agradeci emocionada pela verdade do elemento’, compartilha Geovana. A estabilização orgânica das camadas preserva a textura do chão rachado, transformando a memória viva do sertão em documento visual perene.
A circulação dessa nova fase articula-se em diálogos reservados com curadores e espaços institucionais que acompanham a maturidade de seu trabalho. A proposta de “Sertões” estabelece uma conversa íntima com apreciadores que valorizam a verdade da matéria e a preservação ambiental. ‘Buscamos mostrar que a terra nos entrega tudo em sua forma mais generosa e potente, pois o valor reside naquilo que sentimos e transformamos em arte’, destaca Geovana. Essa abordagem reafirma a potência da pesquisa naturalista brasileira perante o olhar atento do circuito internacional.

Galeria Hugo França em Trancoso
Créditos: Acervo da Artista
A viagem de Geovana Clea ao Brasil representa um retorno às origens para alimentar novos desdobramentos de sua pesquisa de campo. Além do reencontro familiar, a artista dedica a estadia a expedições pelas caatingas para aprofundar uma nova série de esculturas. As peças recriam o relevo e incorporam bolinhas de terra seca que remetem diretamente às brincadeiras de sua infância no sertão. Em diálogo contínuo com a natureza, a futura residência artística em Trancoso surge como mais um santuário para esse processo de escuta da terra. Como escreveu Geovana em seu texto “Lição de Amor”: ‘A paciência sabe que há um tempo para tudo e, enquanto esperamos realizar os nossos sonhos, caminhamos por uma estrada que nos prepara para alcançar os sonhos realizados, prontos para cultivá-los e não destruí-los’. Uma síntese de quem faz da memória um território inabalável de criação