Data chama atenção para acessibilidade, pertencimento e representatividade das pessoas com deficiência no jornalismo e na sociedade
O Dia da Pessoa com Deficiência Física, celebrado em 11 de outubro, reforça a necessidade contínua de combater o capacitismo, ampliar a acessibilidade estrutural e garantir oportunidades reais para pessoas com deficiência em todos os âmbitos da sociedade. Mais do que uma simples data de conscientização no calendário, a ocasião convida a uma reflexão profunda sobre autonomia, autoestima, pertencimento e o direito fundamental de cada pessoa ser reconhecida por suas capacidades, trajetórias e contribuições efetivas.
Essa discussão abrange de forma decisiva o papel da comunicação na construção de um tecido social mais inclusivo e justo. A maneira como as pessoas com deficiência são retratadas e representadas na imprensa tem poder determinante: pode atuar ativamente na desconstrução de preconceitos históricos ou, pelo contrário, perpetuar estereótipos limitantes que ainda restringem sua plena participação social e profissional no mercado.
Em Salvador, esse debate ganha contornos práticos na trajetória do portal Jack Comunica, que completou sete anos de atuação neste mês de outubro. Idealizado pelo jornalista Fabio Almeida em sólida parceria com o jornalista Jacson Gonçalves, que é cadeirante, o projeto desenvolve ações voltadas à comunicação humanizada e à valorização da inclusão, reafirmando a importância vital de expandir a representatividade de pessoas com deficiência nos meios de comunicação.
Jornalismo e inclusão caminham juntos na defesa da diversidade
Para Fabio Almeida, a convivência diária com Jacson ao longo dos anos de construção do Jack Comunica transformou e ampliou sua percepção sobre as barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência, ressaltando a indispensável responsabilidade social do ofício jornalístico. “Ter Jacson ao meu lado nessa caminhada ampliou minha compreensão sobre inclusão, respeito e acessibilidade. Aprendi que comunicar não é apenas dar visibilidade às histórias, mas também abrir caminhos, romper preconceitos e valorizar as pessoas. O jornalismo também tem a responsabilidade de contribuir para uma sociedade mais justa e representativa”, afirma Fabio Almeida.
Essa reflexão evidencia que o compromisso com a inclusão jamais deve ser considerado uma pauta exclusiva das pessoas com deficiência. Trata-se de uma causa coletiva, que demanda o engajamento consciente de profissionais, instituições, lideranças corporativas e de toda a sociedade civil na concepção de ambientes plenamente acessíveis e de oportunidades equânimes. No fazer jornalístico diário, esse compromisso traduz-se no ato de escutar verdadeiramente as pessoas com deficiência, respeitar sua independência e entender que suas vivências e competências vão muito além dos desafios pontuais de mobilidade ou acessibilidade.
Combate ao capacitismo exige mudanças de comportamento
Entre os entraves mais urgentes a serem superados está o capacitismo, a forma de preconceito estrutural que atrela a deficiência à incapacidade ou à menor valia, manifestando-se com frequência em atitudes de desconfiança, exclusão velada, infantilização ou desvalorização profissional. Jacson Gonçalves observa que; combater essa conduta passa impreterivelmente por reconhecer que as pessoas com deficiência são detentoras de conhecimento técnico, talentos, projetos de vida e do pleno direito de serem artífices de suas próprias histórias. “Eu não quero ser visto como um herói simplesmente por viver a minha vida. Quero ser respeitado como cidadão, como profissional e como ser humano”, pontua Jacson.
A declaração incisiva joga luz sobre a urgência de superar o vício narrativo de tratar a rotina e as atividades cotidianas de pessoas com deficiência como atos extraordinários de superação. O respeito autêntico tem início no reconhecimento da individualidade, da autonomia de escolha e do mérito de cada indivíduo, sem que suas características físicas definam ou limitem a forma como sua presença é acolhida.
Autoestima e pertencimento também fazem parte da inclusão
A construção da acessibilidade transcende a necessária eliminação de barreiras arquitetônicas, como calçadas adaptadas e rampas. Ela alcança a esfera das relações humanas e profissionais, nas quais as pessoas com deficiência precisam se sentir genuinamente acolhidas, ouvidas e integradas aos processos de tomada de decisão. Para Jacson, existe uma fronteira substancial entre apenas tolerar ou permitir a presença física de um indivíduo e assegurar que ele faça parte ativa daquele ecossistema: “Eu não quero apenas ser incluído. Quero pertencer”, resume o jornalista.
O sentimento de pertencimento está intrinsecamente conectado à preservação da autoestima e à liberdade de exercer a própria autonomia sem o fardo de julgamentos perpétuos. Olhares enviesados, termos paternalistas e comentários que colocam em xeque o potencial produtivo fragilizam a confiança e erguem muros invisíveis que desestimulam a participação ativa nos espaços. Por essa razão, a verdadeira inclusão alicerça-se na escuta qualificada, no respeito incondicional e na valorização das diferenças como potência.
Pessoas com deficiência precisam ser protagonistas de suas histórias
A questão da representatividade na imprensa é um dos pilares mais estratégicos dessa transformação cultural. Pessoas com deficiência precisam ocupar os microfones, as páginas e as telas não apenas em reportagens dedicadas a datas temáticas ou pautas de acessibilidade, mas como vozes de autoridade em economia, cultura, política, saúde, tecnologia, educação e mercado de trabalho.
Assegurar esse protagonismo significa alargar os horizontes de debate e conferir legitimidade a esses profissionais como fontes qualificadas e narradores em primeira pessoa de sua realidade. Para Fabio Almeida e Jacson Gonçalves, a solidez construída nos sete anos do Jack Comunica chancela o valor de uma comunicação que resgata a dignidade humana sem transformar a deficiência em sinônimo de fragilidade ou limitação. Muito mais do que um marco isolado no calendário, o Dia da Pessoa com Deficiência Física convoca a sociedade a consolidar políticas contínuas de acesso, banir o capacitismo e assegurar igualdade plena para que todos possam viver, produzir, comunicar e pertencer.