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Analice Nicolau
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As bets saíram da camisa, a inteligência artificial entrou: a lição que a Premier League está dando ao Brasil

Colunista Analice Nicolau

29/10/2026 19h26

André Serpa, VP da ClickHouse para a América Latina Créditos: Divulgação

Com as casas de apostas fora dos uniformes brasileiros desde 6 de outubro, clubes correm atrás de novos patrocinadores. Na Inglaterra, que passou pela mesma transição, empresas de tecnologia e dados, como a ClickHouse, já ocuparam o espaço

Desde 6 de outubro, nenhuma marca de casa de apostas pode aparecer nas camisas dos clubes brasileiros. A Medida Provisória 1.394, editada em 25 de setembro, proibiu a operação e a publicidade das apostas de quota fixa e deu dez dias para a retirada de marcas de uniformes, placas e transmissões. O prazo terminou às 23h59 de 5 de outubro. A MP agora tramita no Congresso, com votação prevista para novembro, e é questionada no Supremo Tribunal Federal por entidades do setor de apostas e por clubes das séries A e B, que pedem entre seis meses e um ano de transição.

O que está em jogo para o futebol é concreto. Em 2025, os patrocínios de bets somaram cerca de R$ 1 bilhão aos clubes da Série A, 7,9% da receita total dos 20 times. Quatorze deles tinham uma casa de apostas como patrocinadora máster, e os contratos somam ao menos R$ 910 milhões em valores fixos. O São Paulo apresentou ao STF um acordo com a Superbet que vai até 2030 e soma R$ 678 milhões. O Flamengo tem contrato com a Betano até dezembro de 2028, no valor de R$ 268,5 milhões. Levantamento do Poder360 aponta que sete clubes ficaram sem patrocinador máster com a saída das bets.

Do outro lado, o governo sustenta que a medida responde a um problema de saúde pública e de endividamento das famílias. O volume apostado no país, de cerca de R$ 30 bilhões por mês em 2025 segundo o Banco Central, é o argumento central da regulação. Para reduzir o impacto imediato, o governo esclareceu em nota técnica que camisas já produzidas com marcas de bets podem continuar sendo vendidas. O mérito da MP segue em disputa, e esta pauta não toma partido nele. O que ela propõe é olhar para o que já aconteceu em um mercado que passou pela mesma mudança.

Esse mercado é a Inglaterra. Na temporada 2026/27, nenhum dos 20 clubes da Premier League exibe marca de casa de apostas na frente da camisa, restrição aprovada voluntariamente pelos próprios clubes em 2023. É uma regra menos ampla que a brasileira: os clubes ingleses mantêm o direito de ter bets em outros espaços, como as mangas. Mesmo assim, o impacto financeiro era real, já que a frente da camisa é o espaço mais valioso que um clube tem para vender.

O que veio depois é o dado mais interessante para o mercado brasileiro. Metade dos clubes da liga precisou fechar novos patrocinadores principais, e o setor de tecnologia e IA ganhou espaço. O Fulham anunciou em julho a ClickHouse como parceira principal e patrocinadora da frente da camisa, em contrato de vários anos. O Crystal Palace trocou a Net88 pela Temporal, também de IA. O Everton assinou com a CMC Markets um acordo plurianual avaliado em cerca de 30 milhões de libras, no lugar da Stake, que pagava 10 milhões de libras por ano. Brentford, Coventry e Bournemouth também fecharam com empresas de emprego, banco digital e seguros.

Para André Serpa, VP da ClickHouse para a América Latina, o futebol é um território natural para esse tipo de empresa. “O futebol é um dos ambientes mais intensivos em dados que existem: desempenho de atletas, engajamento da torcida, bilheteria, transmissão. Tudo isso gera volume e velocidade de informação que poucos setores enfrentam. Faz sentido que empresas de infraestrutura de dados queiram ocupar um espaço de visibilidade como esse. Não é só patrocínio, é um sinal de para onde a indústria está olhando.”

O executivo evita entrar no mérito da regulação brasileira. “A regulação das apostas é uma discussão que cabe ao poder público, aos clubes e à sociedade, e não é a nossa. O que podemos oferecer é uma leitura do que aconteceu no mercado inglês: quando um espaço de grande visibilidade abre, ele não fica vazio. Lá, foi ocupado por empresas de tecnologia, finanças e serviços antes mesmo de a temporada começar.”

A Inglaterra também não é um caso isolado. A Itália proíbe publicidade de apostas no esporte desde 2018, com o Decreto Dignità. A Espanha vetou bets em camisas e equipamentos em 2020. Os Países Baixos restringiram o patrocínio esportivo de operadoras online a partir de julho de 2025. A Bélgica optou por uma transição gradual, com as bets fora da frente das camisas em 2025 e proibição total de patrocínio esportivo projetada para 2028. “A experiência europeia mostra que não existe um caminho único. Cada país escolheu seu ritmo, e o mercado de patrocínio se adaptou a cada um deles”, diz Serpa.

É no ritmo que o caso brasileiro mais se diferencia. Enquanto países europeus levaram de dois a oito anos para concluir suas transições, a MP brasileira deu dez dias para a retirada das marcas das camisas. Alguns clubes jogaram as primeiras rodadas sem patrocinador máster, outros recorreram a patrocínios pontuais, e a disputa no STF gira em torno justamente do prazo de adaptação. Para os clubes, contratos que sustentam departamentos inteiros não se substituem em semanas. Para o governo, cada mês de espera mantém em circulação um volume de apostas que a medida quer conter.

É nesse intervalo que o mercado de patrocínios precisa se reorganizar. Antes da expansão das casas de apostas, bancos e instituições financeiras estavam entre os principais nomes nas camisas dos grandes clubes, e fintechs, varejistas e empresas de tecnologia têm hoje o mesmo interesse em atingir o consumidor digital. Para Serpa, o Brasil tem uma vantagem que a Inglaterra não teve. “Os clubes ingleses passaram por um período de incerteza até fechar esses novos parceiros. O Brasil já vê esse modelo funcionando lá fora, o que é uma vantagem: bancos, fintechs, varejo e empresas de tecnologia locais podem se posicionar agora, em vez de reagir depois que o cenário estiver definido.”

Na visão do executivo, o patrocínio esportivo tem papel diferente para uma empresa de tecnologia. “Para quem faz tecnologia, patrocinar um clube não é só exposição de marca. É uma forma de estar perto de milhões de pessoas que vivem uma experiência em tempo real, que é exatamente o tipo de desafio que a nossa tecnologia resolve. O torcedor de hoje é um usuário digital o tempo todo: compra ingresso pelo app, acompanha estatísticas ao vivo, consome conteúdo em várias telas.”

Seja qual for o desfecho no Congresso e no STF, a pergunta que o mercado já se faz é outra: quem vai ocupar o espaço, e com que velocidade. “O espaço existe, a demanda por visibilidade entre empresas que disputam o consumidor digital também. O que vai definir quem chega primeiro é a capacidade de enxergar isso agora, e não depois”, conclui Serpa.

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