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As acrobacias diárias da artista e professora Cynthia Carla

Cynthia Carla, 42, foi integrante e membro fundadora da Trupe de Argonautas no Brasil, e do grupo Soul Circus Almada, em Portugal. Hoje, é professora na UnB e diretora do espetáculo “Entranhas”

Por Thaty Nardelli 09/10/2023 12h21
Foto: Divulgação

Cynthia Carla, 42, tem uma longa história com o circo no Distrito Federal. Foi integrante e membro fundadora da Trupe de Argonautas no Brasil, e do grupo Soul Circus Almada, em Portugal. Além dos palcos, a artista trabalha como professora na Universidade de Brasília (UnB). “A docência entrou na minha vida como um divisor de águas. Trouxe com ela a paciência, a empatia e a vontade de ensinar os múltiplos ofícios que vivencio. O destrinchar de técnicas, teorias e pensamentos necessários para compor uma aula também me tornam uma profissional melhor”, revela.

Atualmente, dirige o espetáculo “Entranhas”, do coletivo Mulher do Mundo, que mistura teatro, dança e circo, e traz como principal temática feminino e seus desdobramentos. “O circo é um processo múltiplo e bem difícil de ser definido, porque possui uma enorme gama de linguagens em sua base: é visualidade, dança, teatro, acrobacias, riso e risco. Não existe um único modelo circense. Contudo, o circo no qual acredito é o circo do risco, do inusitado”, comenta a artista.

A Além do Quadradinho desta segunda (9) apresenta Cynthia Carla.

Foto: Divulgação

Como foi seu encontro com a arte?
De alguma forma a arte sempre esteve em minha vida. Faço pinturas desde os meus 12 anos. Pintava de forma autodidata em óleo, aquarela e qualquer coisa que tingisse, inclusive terra e flores, o que não era moda na época. O teatro veio aos 15 anos e se tornou meu lar, mas sempre com a questão da visualidade como foco.

E como começou sua jornada e interesse pela arte circense?
Tardiamente, já estava finalizando o bacharelado em Artes Cênicas quando entrei em uma oficina de circo ministrada por Ana Sófia Lamas. Já saímos da oficina com um grupo de circo teatro montado, a Trupe de Argonautas, da qual fiz parte até pouco tempo. De lá para cá, o circo se tornou parte do meu cotidiano e foco de pesquisas práticas, espetáculos e de pesquisas acadêmicas, incluindo apostilas técnicas como “Manual Ilustrado de Lira Circense: Técnicas, figuras e montagens para lira acrobática redonda com um ponto de fixação” (2018) e o doutorado em Artes: “De ponta-cabeça: percursos feministas no circo”, pela Universidade de Lisboa.

Como você define a arte circense? O que envolve essa linguagem?
O circo é um processo múltiplo e bem difícil de ser definido, porque possui uma enorme gama de linguagens em sua base: é visualidade, dança, teatro, acrobacias, riso e risco. Não existe um único modelo circense, contudo, o circo no qual acredito é o circo do risco, do inusitado. O desafio ao corpo cotidiano em uma fisicalidade limítrofe, carnavalesca e contestadora, que caminha na corda bamba em direção ao incerto, fazem parte do que é o circo para mim.

E qual foi seu primeiro espetáculo circense? Como foi estar no palco?
O meu primeiro espetáculo de circo foi o “Colcha de Retalhos” com a Trupe de Argonautas. Foi intenso e desafiador, pois mesclava a técnica circense com o teatro e a dança. Na época, todos os movimentos eram celebrados, mesmo que simples, e cada conquista cotidiana no ar me fazia acreditar mais no poder transformador dessa linguagem. Tanto o intérprete quanto o público pareciam ser tomados pela esperança de superação.

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Foto: Teresa Ribeiro

Para além do palco, como é ser uma mulher dentro desse universo?
O espaço circense é um desafio constante às suas praticantes, principalmente porque no século passado muitos estereótipos considerados femininos foram mesclados à fisicalidade de risco circense para tornar as fortes artistas mais palatáveis para o grande público. Apesar do circo contemporâneo ter rompido algumas dessas barreiras, muita da fisicalidade circense ensinada para as mulheres ainda vem repleta de trejeitos que reforçam a suavidade e a feminilidade das artistas, escondendo seus corpos inconformistas.

Você é doutora em artes pela Universidade de Lisboa na linha de pesquisa “Artes Performativas e da Imagem em Movimento”, com a tese “De Ponta-cabeça: Percursos Feministas No Circo”. Como foi essa experiência?
Estar em outro espaço circense foi libertador em vários sentidos. Enquanto escrevia a tese, permaneci ativa como circense trabalhando em diferentes espaços por Portugal. Cada experiência apenas reforçava a necessidade de explorar como é percebido o circo feito por mulheres, suas especificidades e dilemas, mas principalmente toda a força e o poder de mudança incluído no circo aéreo, que foi meu foco de escrita.

Você é professora na Universidade de Brasília (UnB). Como foi ocupar esse espaço?
A docência entrou na minha vida como um divisor de águas, pois trouxe com ela a paciência, a empatia e a vontade de ensinar os múltiplos ofícios que vivencio. O destrinchar de técnicas, teorias e pensamentos necessários para compor uma aula também me tornaram uma profissional melhor, desta forma, não me imagino longe da docência. Atualmente, sinto que, enquanto aprendo algo novo, já estou vislumbrando maneiras de passar esse conhecimento adiante. A universidade em si nos ensina muito, mas a convivência com a diferença, com o novo e, principalmente, com os alunos me mantém atenta e ativa.

Você está dirigindo o espetáculo “Entranhas”, do Coletivo Mulher do Mundo. Como você enxerga o papel do grupo?
O Coletivo Mulher do Mundo é um grupo que, desde 2017, faz pesquisas artísticas com temas ligados ao universo feminino com foco na linguagem circense. Os espetáculos e variedades do coletivo destacavam-se pela pluralidade de visões femininas sobre suas identidades, num circo feito por mulheres que reflete criticamente suas questões. O coletivo é formado por artistas de Brasília e define-se como um grupo com engajamento feminista que pesquisa a performatividade circense a partir de assuntos que tocam o ser “mulher na sociedade”. Digo isso, pois, apesar de estar como artista convidada, sempre acompanhei o trabalho do grupo.

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Dentro desse contexto, qual mensagem “Entranhas” pretende passar para o público?
De forma sensível, o espetáculo é protagonizado por cinco mulheres: Allana Matos, Mariana Camargo, Ludmila Condé, Drisana Alarcão e Ana Nakamura, que expressam, através da dança e do circo, as angústias de suas vivências no mundo contemporâneo patriarcal. O espetáculo não foca em um tema específico, mas num fluxo de sensações sobre o feminino que surgiram durante o processo de criação. Ele segue um caminho sensorial por múltiplas vivências que fluem entre o feminino, como a água de suas entranhas. Acredito que a própria experiência de ver mulheres circenses fortes, sem filtros, pode ser libertadora e auxiliar na difícil jornada feminista por equidade e respeito à pluralidade, questionando os controles materiais e simbólicos impostos a este grupo que, outrora silenciado, agora “grita”, através de seus corpos em risco, suas próprias vontades. A resistência no circo é matéria palpável, e para nós, a força é, antes de tudo, uma qualidade feminina.

Toda a produção de um espetáculo faz parte do que aquela história quer passar para o público. Como a maquiagem e o figurino entram em “Entranhas”?
A proposta do figurino de “Entranhas” é assinada pela também intérprete Allana Matos. Na sua concepção, focamos em um figurino confortável e que se movesse junto das intérpretes, fugindo da estética circense de proximidade do corpo que explora suas formas. As cores foram inspiradas por elementos naturais e celestes como um anoitecer soturno, a terra e suas entranhas. A maquiagem parte de uma pesquisa sobre tribos contemporâneas até se fechar na ideia de um colar pigmentado que pode ser visto tanto como um adorno como um foco de concentração das experiências de silenciamento vividas.

Foto: Divulgação

Hoje, como você enxerga a cena circense dentro do Distrito Federal?
Fico muito feliz em constatar, depois de passar um tempo afastada, que o circo no DF é uma arte bastante difundida, com mútuos espaços especificamente pensados para suas especificidades, como a própria Galpoa Ateliê Circense, sede do coletivo, e o espaço Pé Direito, entre outros. O Circo no DF é periférico, está nas regiões administrativas, vai para as ruas e invade feiras, retornando aos seus espaços habituais, mas também adentrando os teatros da cidade.  

Acompanhe mais sobre a artista: @cyntiacarla.l

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