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O mar do Cerrado

“Numa tarde quente | Eu fui-me embora de Brasília | Num submarino do Lago Paranoá”. Oswaldo Montenegro em “Pra lá do Paranoá”

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Olavo Davi Neto e Vítor Mendonça
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O ritmo Brasília se impunha no Planalto Central. Em pouco menos de três anos, vislumbrava-se no coração do Brasil uma cidade em formação. As principais edificações dos planos arquitetônico e urbanístico já se anteviam na nuvem de poeira rubra que se levantava. O ano de 1959 era crucial na construção da nova capital da República, pois nele teriam as autoridades a obrigação de planejar a mudança definitiva da sede dos poderes nacionais, tendo, por isso, de entregar um núcleo urbano capaz de satisfazer as necessidades dos habitantes.

Algumas dessas condições se faziam nas habitações em construção às margens do Eixo Rodoviário, outras nos institutos de saúde e educação – vistos nas últimas reportagens. Naquele cerrado de clima quase desértico, porém, urgia a demanda por uma lâmina d’água capaz não só de servir como ponto esportivo e de lazer, mas de amenizar as secas, que chegaram a matar os impetuosos bandeirantes no século XVIII. A afirmação é do historiador Paulo Bertran, em História da Terra e do Homem no Distrito Federal. Na obra, Bertran analisa os relatos de Silva Braga, um alferes que fez parte da bandeira de Bartolomeu Bueno da Silva, o “segundo Anhanguera”. Em determinado momento, a missão cruzou a duras penas o atual Plano Piloto. “Aqui nos começou a gente a desaparecer de todo; morreram-nos quarenta e tantas pessoas (…) ao desamparo”, relata Braga. A Bertran, o marco temporal é certeiro. “Pelos nossos registros, devia ter-se dado esse episódio em fins de setembro de 1722, quando acomete o Planalto o auge da estiagem”, escreveu o historiador. Dos 155 homens que embarcaram em São Paulo, cerca de um quarto morreu no período.

Mesmo quando do concurso para definição do plano urbanístico da cidade, vencido por Lúcio Costa – mostrados nas reportagens 30 e 31 deste especial -, já se concebia a construção do centro administrativo à beira de uma lâmina d’água que abraçaria o centro urbano. Os projetos do Palácio da Alvorada e do Brasília Palace Hotel, por exemplo, alinhavam os traços do concreto à visão de um lago. Também foi prevista a inundação na área pelas comissões responsáveis pelo estudo de uma nova localização para a capital na metade do século 20.

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Assim, o governo tomara empréstimo com casas bancárias norte-americanas, em 1958, para bancar as estruturas metálicas do Congresso Nacional e da barragem necessária ao lago. Tendo por contrapartida garantias do Fundo Monetário Internacional (FMI) no negócio, US$ 10 milhões foram tomados do banco Export-Import (Eximbank). Ambas as empreitadas foram vencidas pela Raymond Concret Pile Company, também vinda dos Estados Unidos, que tocou sem maiores problemas as obras do Congresso Nacional, como veremos mais adiante neste especial. No futuro lago, porém, o trabalho dos ianques passou por provações.

Frieza

Acostumadas ao ritmo Brasília, as autoridades sulamericanas se incomodavam com a aparente morosidade dos estrangeiros. Como a nova capital se fez com certo desrespeito às leis Trabalhistas e por cima do esforço sobrehumano dos operários, qualquer um que requisitasse ou pusesse em prática condições melhores de laborismo seria visto com desconfiança, como explana Juscelino Kubitschek em Por Que Construí Brasília. “Faziam-no, porém, com a frieza e a indiferença de quem apenas cumpria um contrato: jornada regular de trabalho; duas horas para almoço; suspensão das atividades às cinco horas da tarde”, diz o presidente.

Uma inspeção tocada pelo chefe do Executivo marcou o estopim do conflito. Após várias tentativas de retirarem-no do canteiro de obras, Juscelino averiguou que a edificação de uma barreira para conter a água e formar um lago artificial estava longe de acontecer. “Na realidade, a obra nem havia tido início, pois todo o trabalho até então feito cingira-se exclusivamente à montagem das indispensáveis plataformas de serviço”, relatou. A Israel Pinheiro, presidente da Novacap, JK solicitou que o contrato com a empresa norte-americana fosse rompido. Para tal, acionou-se o corpo jurídico da Companhia Urbanizadora da Nova Capital..

Sobre rompimentos

A grande preocupação com relação ao represamento das águas era o Dia de Tiradentes de 1960, data marcada por lei para a inauguração de Brasília. “Como não havia mais tempo para abrir outra concorrência, a própria Novacap se encarregaria da tarefa”, conta Kubitschek. Sem dinheiro estrangeiro, a alternativa era recorrer ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE).

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“Apareceu um pedido da comissão construtora de Brasília para um financiamento para a usina hidroelétrica do Paranoá, que era uma coisa suntuária”, contou o antigo chefe do Departamento de Projetos do BNDE em entrevista à Fundação Getúlio Vargas (FGV), em julho de 1989. “E eles não tinham capacidade de reembolsar o banco. Então, nós tivemos a coragem de dar parecer contrário a esse financiamento, que nunca seria reembolsado”, acrescentou.

Além da negativa de Silva, o negócio teve parecer contrário de Lucas Lopes, então ministro da Fazenda, e Roberto Campos, presidente do BNDE. Assim, coube ao Executivo recorrer ao Tesouro Nacional.

Adeus ao FMI

O Brasil já enfrentava algumas consequências da construção de Brasília e do ímpeto do presidente da República. Após o empréstimo do Eximbank, o FMI passou a exigir do país medidas de controle inflacionário e austeridade fiscal. Um das exigências foi o fim da compra do excedente das safras de café pelo governo brasileiro, o que motivou uma marcha dos cafeicultores ao Palácio do Catete, então sede da Presidência. Sem subsídios de importação, o valor do trigo e da gasolina dispararam, aumentando, com isso, o preço do pão e do transporte público.

Todas as medidas foram aplicadas pelo Plano de Estabilização Econômica (PEM) no primeiro semestre de 1959. Era a movimentação que os órgãos internacionais de crédito esperavam do Brasil. Por outro lado, o PEM mostrava-se como um freio ao plano nacional-desenvolvimentista de Juscelino, que previa investimento estatal nos “gargalos de desenvolvimento” – identificados ainda na campanha eleitoral – para desengessar a economia brasileira. Tais contradições levaram o governo, em junho, a romper com o FMI e seguir o modelo consagrado por JK.

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Presente de aniversário

Ainda nos primórdios de 1959, reuniram-se engenheiros, técnicos, políticos e diretores para definir os planos do trabalho tomados das mãos estrangeiras. Definidas as frentes de construção, restava decidir quando a barragem seria fechada para que as águas ocupassem o lugar que para elas fora planejado. Segundo conta Juscelino, a data foi proposta pelos responsáveis pela obra em homenagem ao fiador de toda aquela empreitada. Com isso, o Lago Paranoá subiria em 12 de setembro, aniversário de JK.

Sem os freios da cultura trabalhista norte-americana, e com o ímpeto de quem se acostumou a passar entre 12 e 18 horas no canteiro de obras, o canal de desvio do Rio Paranoá e a impermeabilização do terreno – que possibilitaria a formação de um lago – foram logo concluídas. Apesar dos conselhos de Lucas Garcez, ex-governador de São Paulo e “uma das maiores autoridades em engenharia hidráulica”, conforme juscelino, manteve-se a previsão de inauguração.

A falta de tempo acarretaria certo descaso com a segurança estrutural do equipamento. O represamento, porém, era alvo de disputas políticas e ideológicas. Símbolo da cidade em construção, o Lago Paranoá tinha importância vital tanto para críticos quanto a defensores de Brasília. À época, representava a capacidade de dobrar a natureza em favor da epopeia mudancista, dando assim condições para uma vida salubre aos poderosos da República. Êxito ou falha, portanto, seriam cruciais para a mudança, que se daria no ano seguinte.

Por isso Juscelino tomou uma decisão arriscada, posta no limiar entre o sucesso retumbante e o fracasso que significaria, muito provavelmente, seu sepultamento político. A barragem entraria em operação no dia marcado pelos engenheiros, mas com capacidade limitada. “Se ocorresse algum temporal fora do comum, o nível da água ultrapassaria a crista da barragem e, neste caso, a represa correria o risco de uma ruptura ”, lembra JK em suas memórias da construção.

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A inauguração da obra, porém, deu-se no período do ano em que, dois séculos antes, o bando de Anhanguera foi dizimado pela seca no Planalto Central. As possibilidades de chuvas, assim, eram reduzidas.

As obras de construção do Lago Paranoá em 1959: custo levou o Brasil a romper com o FMI

Um recente lago ancestral

A segunda Missão Cruls, enviada ao Planalto Central do Brasil em 1894, trouxe consigo o chefe do Parque das Matas do Distrito Federal — à época, no Rio de Janeiro —, o botânico Antoine Glaziou. Em carta enviada ao astrônomo Luís Cruls, ele conta que a formação geológica da região era propícia à formação de uma lâmina d’água. Conforme explicou, o centro da área demarcada por Cruls dois anos antes abrigava um vale, situado entre os picos de Luziânia e Gama, que já recebera acúmulo de água em distantes eras.

À época, uma cachoeira despontava para o lado norte do Quadrilátero Cruls, e o vão se abriu graças à força das águas, que, de tanto baterem, furaram a pedra que delimitava o local onde “outrora era um lago devido à junção de diferentes cursos de água formando o rio Parnauá (sic)”. Assim, “o excedente desse lago, atravessando uma depressão do chapadão, acabou (…) por abrir nesse ponto uma brecha funda, de paredes quase verticais pela qual se precipitam hoje todas as águas dessas alturas”.

Uma simples intervenção humana, portanto, que fechasse “essa brecha com uma obra de arte (…)”, faria com que a água tomasse novamente “o seu lugar primitivo” e permitiria a formação de “um lago navegável em todos os sentidos”. Eis a garantia do que conhecemos hoje como Lago Paranoá. Em 1959, Juscelino e todos os operários que ergueram a cidade comprovaram a tese de Glaziou com o acúmulo hidráulico que estaria, posteriormente, a mil metros do nível do oceano. Nas alturas, monumental, está o mar de Brasília.

A placa aponta o local do futuro lago: obra feita de forma acelerada para não atrasar a inauguração da nova capital




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