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Alô, alô, Brasília

“Alô, alô, respondeCom toda a sinceridadeAlô, alô, respondeSe gostas mesmo de mim de verdade”André Filho e Mario Reis em “Alô, Alô”

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Olavo David Neto e  Vítor Mendonça
redacao@grupojbr.com

Um país voltado para fora, por óbvio, não se preocupava em falar com seu centro. Até a década de 1950, quando o telefone se popularizou no Brasil, a população afastada do litoral ainda aguardava a atenção dos governos se voltarem até os rincões escondidos da pátria. Mudos, pois não se faziam ouvir, e surdos, porque não ouviam o que se passava nos grandes centros urbanos e políticos, os brasileiros mais próximos do coração do território nacional apenas vislumbraram uma integração com a empreitada de se construir uma capital em meio ao cerrado.

Apesar de desembarcar por aqui já em 1877, a mando de D. Pedro II, o telefone entrou no século XX ainda como um aparelho para poucos, abastados e majoritariamente na faixa litorânea do mapa. Até a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, pouco mais de 100 mil equipamentos tocavam pelo país, grande parte concentrada no Rio de Janeiro, então capital da República. À época do conflito, 45 mil novos aparelhos foram instalados por concessionárias do serviço, que é público e cedido pelo Estado para exploração de particulares.

Nesse cenário, construir uma nova sede do poder político brasileiro também representava introduzir o país na era da telefonia. Além das ligações por estradas, Brasília teria de se conectar remotamente, ao tempo de um discar de números. Era o projeto de 50 anos de progresso em cinco de governo que se empreendeu no governo de Juscelino Kubitschek. O problema, porém, é que, com tantas dificuldades, a questão das telecomunicações se arrastou ao limiar da decepção.

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Como ligar passado e futuro?

Ainda em 1957, quando o descampado no Planalto Central se engajava em obras de infraestrutura necessárias ao começo das edificações definitivas, Juscelino solicitou reunião com o diretor-comercial da Companhia Telefônica Brasileira (CTB), Renault Castanheira. Apesar do nome, a CTB era subsidiária da canadense Brazilian Traction Light & Power, e chegou ao Brasil como empreendimento alemão, posteriormente incorporado pelos norte-americanos.

No encontro, JK explicou o projeto para conectar a capital em construção ao resto do país – e ao mundo. A ideia do presidente era ligar Rio de Janeiro e Belo Horizonte para, então, levar ao Planalto Central. Fechada em sorrisos, a conversa não renderia frutos.

Isto porque a Light, como ficou conhecida a empresa, após diversos encontros com funcionários técnicos do governo, topou a empreitada. Não sem pedir, claro, a quantia de Cr$ 500 mil para pagamento de folha e US$ 5 milhões em crédito no exterior, destinado à aquisição e importação do maquinário. O prazo para conclusão foi estabelecido em três anos, sendo a companhia privada beneficiada com o monopólio das telecomunicações do futuro centro administrativo do país após o término dos trabalhos. Ou seja, as obras seriam pagas com dinheiro público e a Light exerceria o poder comercial.

Já em 1958, quando despontavam no horizonte seco e vermelho do cerrado as primeiras alvas linhas da cidade, o Ministério da Viação interveio. Através do Departamento dos Correios e Telégrafos, a pasta se pôs à disposição para realizar os trabalhos. Se antes as características de negócios públicos com o setor privado foram um empecilho, desta vez a negativa veio pela “morosidade característica da burocracia oficial”, conforme relata o próprio ex-presidente em Por Que Construí Brasília. O tempo se esgotava, e a oposição ao projeto mudancista abria largos sorrisos com as dificuldades que se lançavam para a inauguração.

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Neste momento, a Lei Emivaldo Caiado – que estipulou a inauguração da nova capital em 21 de abril de 1960, como visto na reportagem 32 deste especial – estava em vigor, e as promessas de JK a respeito do encerramento das obras ribombavam na cabeça do povo. A solução aos impasses, portanto, deveria ser rápida, urgente e, como em todo o processo da construção, dadas na fina fronteira entre o estrondoso sucesso e o espalhafatoso fracasso. Criada justamente para facilitar as ações governamentais em torno de Brasília, a Novacap teria, de novo, papel fundamental.

“Faço questão de ser testemunha”

1959 se fazia sentir logo cedo como um ano marcante. A 15 de janeiro, Bernardo Sayão sucumbiu em meio à Floresta Amazônica, derrubado por uma árvore mal caída. O ânimo dos trabalhadores arrefeceu, e o canteiro de obras – que não dormia – parou por um dia. Para revigorar os sentimentos, procurou-se atribuir a finalização do projeto a uma póstuma homenagem ao desbravador falecido. Assim, e também com as inaugurações que se sucediam no Planalto Central, as obras retomaram rapidamente o “Ritmo de Brasília”, demonstrando que as datas estipuladas por JK não seriam descumpridas.

A questão da telecomunicação candanga, porém, dava arrepios ao “presidente sorriso”. Sem soluções fáceis, uma concorrência nacional angariou ofertas ao redor do mundo, sendo vencedora a britânica RCA Company, para a instalação dos equipamentos de rádio, e a sueca Ericsson ficaria a cargo do multiplex – que permite a difusão das ondas sonoras. De julho a setembro, os vencedores do edital tentaram convencer o governo brasileiro da impossibilidade de se instalar os equipamentos em menos de dois anos. Num rompante, JK desfez o acordo.

Enquanto se digladiava para encontrar uma solução, o Executivo nacional recebia duras críticas nos veículos de comunicação. “Apesar do sigilo com que o assunto vinha sendo tratado, a imprensa oposicionista não tardou a denunciar que Brasília seria inaugurada sem dispor de comunicações com o resto do país”, relembra o político na obra citada anteriormente. Aos jornais, um diretor da empresa inglesa Marconi aprofundou as críticas. “Em seis meses, não será possível montar-se um serviço dessa natureza”, vaticinou. Incomodado, o chefe de Estado brasileiro chamou o empresário ao Palácio do Catete, então sede da Presidência.

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No gabinete de Juscelino, a empreitada das telecomunicações veio novamente à tona. O executivo fez questão de reiterar a descrença na conclusão do projeto a tempo. “Já que não acredita no que estou dizendo, convido-o, desde já, a vir assistir à inauguração do serviço no dia 20 de abril, um dia antes da transferência do governo”, desafiou o político. “Estarei aqui, presidente. Faço questão de ser testemunha deste grande feito”, rebateu o diretor, em tom jocoso.

Chama o Israel

Pouco antes do embate polido entre JK e o representante da Marconi, a Novacap agira para salvar o legado de Brasília. Numa ligação a Israel Pinheiro, braço direito do presidente – além de primeiro mandatário da Companhia Urbanizadora da Nova Capital -, Juscelino pediu socorro. Restavam pouco mais de sete meses para a inauguração e a cidade não tinha acesso a ondas de menor frequência, essenciais para telefonia. De imediato, Pinheiro criou o Departamento de Telecomunicações Urbanas e Interurbanas (DTUI), entregue aos cuidados do engenheiro João Paulo Vianna, que reuniu equipe e abraçou o projeto.

Após as reuniões que definiram as frentes de trabalho, JK e Vianna trocaram figurinhas. Ao reafirmar o prazo para entrega das linhas em seis meses, período no qual a equipe deveria cobrir 1,5 mil quilômetros com antenas e cabos, o engenheiro sequer pestanejou. “O serviço será inaugurado antes de 21 de abril, presidente”, garantiu o encarregado, solicitando, contudo, atenção total do governo às demandas dos aventureiros. Com tudo acertado, começaram-se os trabalhos. “O desafio era, de fato, assustador”, relembra Juscelino.

A serviço era realizado em três frentes: primeiro, um avião identificava a área mais indicada para as torres de transmissão; então, um grupo de trabalhadores abria caminho entre a vegetação a picaretas para permitir a passagem dos tratores, que fariam pistas de pouso improvisadas para as pequenas aeronaves que carregavam as peças de menor peso; e, em seguida, passavam caminhões e carros de bois com o equipamento de maior peso. Com cerca de 80 metros de altura e 400 metros quadrados de base, as antenas eram montadas ali mesmo. Houvesse sol ou chuva.

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Pouco a pouco, foram erguidas as 26 torres entre Rio, Belo Horizonte e Brasília – com desvio por Uberaba, por questões técnicas -, 80 quilômetros de estrada foram construídos no meio do caminho. Mas, mesmo com as antenas prontas, faltava o cérebro da operação. Sem um multiplex, seria impossível oferecer serviços de qualidade à população da cidade em surgimento. Ainda mais quando parte dos habitantes é vital para o funcionamento da República, e suas comunicações com os diversos rincões do país permitem, teoricamente, o bom andamento da máquina pública.

Tempo de mudança

O desespero desanuviou quando, a 2 de abril de 1960, desembarcou em Brasília o esperado aparelho de comunicação. De qualquer forma, a chegada do equipamento não representava necessariamente uma vitória, já que a simples montagem de um multiplex, à época, demandava seis meses de trabalhos. Mas a história da terceira capital do Brasil é feita de superações. Ao prometer, ainda em campanha, superar 50 anos em apenas cinco, Juscelino instigou os responsáveis pela tecnologia a cobrir dois anos em seis meses, e, com o multiplex, o mesmo período se transformou em 15 dias.

A 17 de abril, quatro dias antes do prazo, toda a infraestrutura estava completa. Rio e Brasília estavam interligadas. Futuro e passado se encontravam ao telefone. Quase como um bastão passado às novas gerações, a antiga capital se mostrava superada e abria caminho ao novo país prometido com a construção de sua substituta. Por telefone, como agora lhe era possível, Kubitschek se emocionou junto a Israel Pinheiro. Ao saber que o descrente representante da Marconi ouvia parte da conversa, usou do mesmo deboche com o executivo. “E que tal a cara dele?”, questionou o presidente da Novacap.

Em outra jogada publicitária, como lhe era costume, JK implementou um serviço de informações a respeito da capital prestes a nascer. Ao discar para o serviço, o interlocutor ouvia as programações para o cinema, teatro e até previsão do tempo na mais nova sede administrativa do Brasil. “Tempo instável , com alguma nebulosidade, sujeito a chuvas e trovoadas”, diz uma das gravações na voz da atriz Tônia Carrero.




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