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60 Anos, 60 Histórias

A terra dos candangos

Antes do concreto, uma cidade de tábuas. Na séria 60 Anos, a Candogalândia consolida-se no Planalto

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“Era finalmente o Homem: o Fundador. Trazia no rosto A antiga determinação dos bandeirantes, Mas já não eram o ouro e os diamantes o objeto De sua cobiça” Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim em “Sinfonia da Alvorada”

Olavo Davi Neto e Vítor Mendonça
redacao@grupojbr.com

O velho acampamento da Novacap era um vislumbre de civilização em meio à terra batida e aos acampamentos improvisados para os operários. Lá estavam um posto de saúde, hospital, alojamentos para as equipes técnicas e administrativas e uma escola para os filhos dos pioneiros (cujas primeiras aulas se deram no barracão-sede da empresa). Também era na região onde ficava o mapa do tesouro de todos os candangos: o caixa-forte, do qual saíam os pagamentos dos operários.

O local contava com um grande acampamento com capacidade para cerca de 1.200 proletários solteiros. Eram aqueles que, inicialmente, dormiam em barracas emprestadas pelo Exército depois de demarcar e erguer as obras de infraestrutura que permitiram todas as posteriores. Erguido ainda em 1956, o “complexo pioneiro” chegou a ser conhecido por Lonalândia, em referência às dependências improvisadas do início da construção. Abria-se o primeiro núcleo urbano dedicado às obras naquele cerrado inóspito.

Os hospitais inaugurados no prólogo da capital mais recente da República estavam lá. Aberto ainda em 1957, o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO) atendia aos operários da construção, bem como o posto médico (comumente classificado como hospital) do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (Iapi). Eles sediavam-se no acampamento, apesar de, até hoje, a localização ser alvo de disputas com o Núcleo Bandeirante (antiga Cidade Livre). Este assunto, porém, veremos mais à frente neste especial.

Luz em meio à escuridão

O alojamento da Novacap também recebeu o primeiro estabelecimento de refeições populares de Brasília. Edificado nos primórdios da terceira capital brasileira, o restaurante do Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS) distribuía alimentação aos construtores do sonho mudancista e às crianças que acompanharam os pais na empreitada de erguer um novo centro de poder nacional. Já nos primeiros meses de atividade, o restaurante inaugurado no acampamento servia cerca de 1.500 refeições diárias para operários e por volta de 80 desjejuns aos filhos dos trabalhadores.

O serviço, como algumas conquistas do povo, veio como uma espécie de concessão em meio ao autoritarismo. Surgido pelo Decreto-Lei nº 2.478 de 5 de agosto de 1940 — em plena vigência do Estado Novo, portanto —, o SAPS tinha por objetivo, além do fornecimento de refeições a baixo custo, “melhorar a alimentação do trabalhador nacional e, consequentemente, sua resistência orgânica e capacidade de trabalho” com base na “progressiva racionalização de seus hábitos alimentares”, conforme justificativa da legislação.

Assim, além da oferta de alimentos a preços módicos, pensava-se a saúde do proletariado. “O SAPS tinha a alimentação normal e tinha a comida especial para pessoas com problemas de saúde”, relata Oswaldina do Nascimento, em entrevista de 2010 concedida à historiadora Ana Maria da Costa Evangelista. “Assim, havia um consultório onde um médico nutrólogo dizia o tipo de dieta que o paciente tinha que fazer”, completa a “dietista” da autarquia durante a década de 1950
A entidade foi criada no âmbito do projeto trabalhista de Vargas, que dois anos antes decretara o salário mínimo e três anos depois criaria a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Comida e arte para o povo

O paulista Dirso José de Oliveira, ou simplesmente “DJ”, deixou a terra natal e rumou ao desconhecido em 1956.O pintor partia em direção ao canteiro de obras para registrar a evolução da nova capital e, para isso, estabeleceu residência em Goiânia, onde conheceu o folclorista, poeta e administrador Francisco Manoel Brandão. Companheiro do marechal Rondon nas andanças que resultaram na instalação do telégrafo no Norte e no Centro-Oeste, Brandão fora convidado a presidir a Comissão de Expansão do SAPS, e, pela função, levava o órgão à futura cidade administrativa do Brasil.

Dez dias após a inauguração do Catetinho — cujas obras foram finalizadas em 2 de novembro, mas a solenidade de abertura se deu apenas no dia 10 —, o presidente seccional do SAPS se dirigiu a Goiânia e encomendou com DJ Oliveira dois painéis para a entrada do restaurante a ser inaugurado no acampamento da Novacap. Os primeiros painéis foram pintados ainda em 1956, e em um deles reproduzia a visão dos operários com relação ao projeto de Lúcio Costa.

Outras duas obras foram encaminhadas por Francisco Brandão. “Candangos Heróicos” e “Centauros de Aço eram homenagens àqueles brasileiros que, antes de todos, puseram as mãos na massa para edificar um novo centro de poder para o Brasil. Em fins daquele ano, Brandão solicitou mais um trabalho ao artista. Às vésperas da primeira celebração natalina naquele fim de mundo, o restaurante serviria uma ceia de Natal para os candangos, e os convites se dariam por meio de cartazes também desenhados por Oliveira.

Deslumbre e crimes de lesa pátria

Os desenhos de DJ Oliveira são conhecidos como o batismo cultural da atual sede da República. Conforme explicita o jornalista e pesquisador Jarbas Silva Marques, antes e depois da celebração da primeira cerimônia religiosa do novo Distrito Federal — vista anteriormente neste especial —, as pinturas foram admiradas por quem visitou Brasília neste período. “Os índios carajás que vieram ao Planalto para participar da primeira missa chamaram a atenção dos comensais pelos comentários que faziam em seus dialetos diante dos painéis de DJ Oliveira”, escreve o ex-diretor do Instituto Histórico e Geográfico do DF.

O acervo do SAPS extinguiu-se junto da autarquia, em 1967, no governo do ditador militar Castelo Branco. Um dentre os numerosos crimes cometidos pelo regime totalitário que tomou o Brasil de assalto em 1º de abril de 1964.

A consolidação da Candangolândia

Em 1959, a Novacap abandonou o primeiro acampamento para se instalar numa área mais próxima ao Plano Piloto. Assim, inaugurou o prédio utilizado até hoje, no cruzamento das atuais Estradas Parque Taguatinga e Indústria e Abastecimento (EPTG e EPIA, respectivamente). Mesmo com a saída da empresa, os moradores do que já se mostrava uma vila inteiramente formada, com dinâmica própria, resolveram permanecer no local onde fixaram residência. Apesar das investidas do poder público, a resistência popular culminou na Candangolândia.

Atualmente, a Região Administrativa conta com 16.489 habitantes, conforme a mais recente Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad), de 2018, elaborada pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan). Numa clara virada histórica, a população local, composta quase exclusivamente por homens no início da urbanização, agora apresenta maioria feminina (52,2%), e 20,9% das casas são geridas por mulheres. A ocupação, tida como irregular nas duas décadas iniciais da nova capital, foi alçada a núcleo urbano em 1989, e a Região Administrativa (a 19ª) em 1994.


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