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60 Anos, 60 Histórias

A solução veio da América

“Lembramo-nos bem do entusiasmo que nos assaltou ao divisarmos o horizonte em torno, numa amplitude de 360 graus. Tudo em redor era azul, horizonte infinito!” Ermesto Silva em “História de Brasília”

Foto: Toninho Tavares/Agência Brasília
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Olavo Davi Neto e Vítor Mendonça
redacao@grupojbr.com

Quase cinco anos após a entrega do Relatório Polli Coelho ao governo, o Congresso Nacional ainda debatia os escritos da comissão responsável por estudar uma solução definitiva para a capital federal. É em 1953 que vira dispositivo legal o princípio mudancista, a partir da Lei nº 1.803, segundo a qual “é o Poder Executivo autorizado a mandar proceder (…), na região do Planalto Central, (…) aos estudos definitivos para a escolha do sítio da nova capital federal”. Além disso, estipulava prazo de três anos para a conclusão dos levantamentos, entre outros, climáticos, do solo e de abastecimento de água e energia.

Cinco meses depois de promulgada a lei, o presidente Getúlio Vargas baixa o Decreto nº 32.976, mencionado na última reportagem, que institui a Comissão de Localização da Nova Capital Federal. Para liderar o grupo foi indicado o general Agnaldo Caiado de Castro, companheiro de velha data de Vargas — apesar de ter se unido a quem depôs Getúlio, em 1945. Também determinava o decreto que um representante de cada Ministério, do Conselho de Segurança Nacional, do Estado de Goiás, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Departamento de Administração do Serviço Público (DASP) e da Fundação Brasil Central comporiam a comissão.

Chefe do gabinete militar da Presidência, Castro contratou a empresa Cruzeiro do Sul para realizar a aerofotogrametria — técnica de fotografia por meio de aviões que permite o mapeamento de uma área — da região de 52 mil km² apontada pelo Congresso. Em janeiro de 1954, o serviço estava concluído. A partir de então, restava definir, partindo da análise das imagens aéreas, o local mais indicado para abrigar a nova capital do país. Para tal, como mostra Ernesto Silva em História de Brasília, uma empresa alemã e outra norte-americana eram referências mundiais neste tipo de estudo.

Quando o telefone tocou, em fins de janeiro de 1954, no escritório da Donald J. Belcher and Associates Incorporated em Ithaca, Nova Iorque, o mudancismo brasileiro vibrou. Era um passo importante para transferir, pela última vez, a capital do Brasil. No dia 25 de fevereiro, há exatos 66 anos, a Comissão do Vale do São Francisco — delegada pela Comissão de Localização da Nova Capital Federal — firmou contrato com a Belcher para realizar a fotoanálise e a fotointerpretação das imagens feitas pela Cruzeiro do Sul.

Pelo acordo, em troca de US$ 350 mil (quase R$ 1,5 milhão, em valores atuais), a Belcher indicaria também os cinco sítios mais propícios ao estabelecimento do poder público brasileiro. Esta foi a saída encontrada pelos membros da comissão para driblar a especulação imobiliária que se erguia nos ambientes privados em torno da futura capital.

Ou seja, sem saber exatamente onde seria edificada a nova capital, os especuladores não teriam verbas para adquirir terrenos ao redor da área de 52 mil km² estabelecida pelo Congresso Nacional.

O relatório e a primeira visita ao Plano Piloto

Com o suicídio de Getúlio, todo o governo do gaúcho foi dissolvido e, em seu lugar, assumiu o potiguar Café Filho, da União Democrática Nacional (UDN), eleito por chapa diferente da que elegeu Vargas.
Já no primeiro mês de governo, o novo presidente interveio na equipe da Comissão de Localização da Nova Capital Federal ao retirar o general getulista Caiado de Castro da liderança para alçar um militar reformado, que há algum tempo estava “com a vida pública, a bem dizer, encerrada”, conforme relato dado a Ernesto Silva e transcrito em História de Brasília, obra citada anteriormente.

Veterano da Primeira Guerra Mundial e difusor do uso de tanques pelo Exército brasileiro, o marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque assumiu a liderança da Comissão de Localização da Nova Capital Federal.

O clã dos Pessoa — que vira o presidente Epitácio estabelecer a pedra fundamental de Planaltina, e João, candidato derrotado a vice-presidente nas eleições de 1930, cuja morte desencadeou o golpe que levou Getúlio ao Palácio do Catete — esfriou as ideias de transferência da capital. Eram, respectivamente, tio e irmão mais velho do marechal.
Em fevereiro de 1955, a empresa entregou a primeira parte do seu relatório, no qual indicava cinco sítios (amarelo, verde, vermelho, azul e castanho) mais habilitados à construção de uma cidade-sede do poder público nacional.

Municiados deste ímpeto e do conhecimento, o marechal Pessoa, acompanhado por Ernesto Silva, secretário da comissão e autor da obra citada nesta reportagem, e pelo também marechal Mário Travassos, assessor do grupo, voaram do Rio de Janeiro à área apontada pela Belcher.
Chegaram ao sítio castanho e subiram à parte mais alta da demarcação, a 1.172 metros do nível do mar, em 5 de fevereiro. Conforme o relato de Ernesto Silva, mesmo sem poder revelar a decisão, a escolha já estava feita.

“Lembramo-nos bem do entusiasmo que nos assaltou ao divisarmos o horizonte em torno, numa amplitude de 360 graus. Tudo em redor era azul, horizonte infinito!”, registrou Silva em História de Brasília. O céu de Brasília fez, assim, sua prmeira conquista.

“O marechal Mário Travassos não pôde conter a admiração e afirmou que não acreditava haver outro local tão adequado e belo para a construção da capital”, completa o secretário da comissão.
No ponto onde o céu e o horizonte infinito deslumbraram Ernesto Silva e a comitiva do marechal Pessoa hoje está a Praça do Cruzeiro.

A comissão comandada pelo marechal Pessoa no cerrado do Planalto Central, onde, alguns anos mais tarde, começaria a se construir uma cidade

Um novo pleito para trazer esperança e tirar o país da crise

Além dos avanços mudancistas, o biênio 1954-1955 trouxe instabilidade política para o Brasil.
Após Vargas deixar “a vida para entrar na História”, como disse na carta-testamento, uma nova eleição estava marcada para outubro de 1955, mas o desejo de setores mais conservadores era cancelar – ou, no mínimo, adiar – a votação pelo ambiente do país.

Era, também, uma época de grande polarização. Para o pleito, os campos conservadores se uniram na coligação da União Democrática Nacional (UDN) com o Partido Democrata Cristão (PDC), o Partido Libertador (PL) e, curiosamente, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) em torno da candidatura do militar Juarez Távora.

Do outro lado, o então governador de Minas Gerais – dono de um sorriso resplandecente – teve a campanha lançada pela junção eleitoral do Partido Social Democrático (PSD), do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – do finado presidente Vargas – do Partido Republicano (PR), do Partido Trabalhista Nacional (PTN), do Partido Social Trabalhista (PST) e do Partido Republicano Trabalhista (PRT). Esta eleição veremos, porém, na próxima reportagem deste especial.

Café Filho na capa da revista norte-americana Time: o presidente que sucedeu à tragédia do suicídio de Getúlio Vargas retoma o projeto de transferência da capital


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