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60 Anos, 60 Histórias

A ameaça da farinha podre

“Dormia a nossa pátria mãe distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”
Chico Buarque em Vai Passar

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Eleito um novo presidente e promulgada a nova Constituição, o Brasil adentrava novamente em um período democrático. Cumprindo o estabelecido na Carta Magna de 1946, nascida em 18 de setembro, Eurico Gaspar Dutra, enquanto chefe do Executivo, tinha 60 dias para estabelecer a comissão técnica para estudar a localização da nova capital da República. No limite do período, em 16 de novembro, o presidente convidou o general Djalma Polli Coelho para gerir a Comissão de Estudos para Localização da Nova Capital do Brasil.

Compunham a comissão 11 membros, sendo dez engenheiros e um médico sanitarista — além do líder e diretor do Serviço Geográfico do Exército (SGE) —, divididos entre duas saídas possíveis para tirar do Rio de Janeiro a sede do poder nacional. Duas correntes eram majoritárias: a dos mineiros, que militavam por uma capital no delta do rio Parnaíba, no Triângulo Mineiro; e a dos goianos, que defendiam os estudos da Missão Cruls para a nova capital no Planalto Central. Havia uma terceira vertente — conciliadora — que apontava a região entre Ituiutaba, Uberlândia e Uberaba como solução provisória.

Foram dois anos de estudos, avaliações e viagens. A missão era apontar um lugar exato, que seria votado entre os membros. A representação goiana tinha peso. Era liderada por Jeronymo Coimbra Bueno, o empreiteiro que edificara a cidade de Goiânia, quase uma década antes. Do outro lado, Geraldo Horácio de Paula Souza tivera grande participação na edificação de Belo Horizonte, no final do século XIX.

À frente da comissão, Polli Coelho logo ficou intrigado pela força do súbito interesse de se levar a capital para uma região que, lembra o jornalista e historiador Jarbas Silva Marques, foi classificada como “sertão da farinha podre”, pela umidade que rapidamente estragava o produto alimentício. “O general Polli Coelho enviou um relatório secreto ao Estado-Maior do Exército dizendo ter descoberto uma manobra de especulação de fazendeiros, que compraram terras para lucrar com a eventual ida da capital para lá”, aponta o ex-diretor do Instituto Histórico e Geográfico do DF, referindo-se ao lobby pelo Triângulo.

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Fiadores do mudancismo, militares avaliam as propostas

De fato, em 1947, o general Polli Coelho encaminha ofício ao Estado-Maior do Exército (EME) e ao Estado-Maior Geral no qual pede a opinião — “em caráter secreto ou reservado” — de dirigentes dessas instituições acerca das propostas mudancistas. Ele aponta para a existência de “soluções apressadamente sugeridas, envolvendo interesses ocultos políticos e econômicos”, bem como pontuou Silva Marques.

Para o presidente da comissão, havia no Brasil “e mesmo dentro da comissão (…) certa tendência para desconhecer os fundamentos da solução referida, em favor das soluções que não me parece possuírem as positivas vantagens geopolíticas que existem na solução proposta em 1892.”

A primeira resposta é do coronel João Segadas Viana, chefe da 1ª Secção do Estado-Maior do Exército. Segundo Viana, em ofício reservado, “A nova Capital, colocada no Triângulo, continuará a viver para o Sul, como atualmente, e menos ainda do que agora viverá para o norte”, enquanto “o Planalto de Goiás será um verdadeiro ponto de atração”, além de se mostrar como “a melhor base de partida que o Brasil pode escolher para a sua marcha para o Oeste e a Amazônia”, salienta o coronel.

Jeronymo Coimbra Bueno comandava o grupo favorável à capital em Goiás. Polli Coelho: em documento secreto, desconfiança com pressão mineira

Na sequência, o general Juarez Távora, 2º subchefe do Estado-Maior do Exército, também em caráter reservado — ou seja, cujo sigilo só cai passados cinco anos —, apontou que “o local definitivo dessa Capital deve ser na parte central de Goiás, no Território Federal já demarcado”. Ele atenta para alguns percalços, porém, que poderiam retardar a construção. “A atual precariedade das ligações com os centros mais populosos e economicamente desenvolvidos do país (…), procrastinará, talvez, por muitos anos, a solução do problema”, indicou o militar.

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O único a apontar a segurança estratégica, e não apenas passiva, de uma capital central, foi o coronel Edgardino de Azevedo Pinta, chefe da 3ª Seção do EME. Para ele, a sede do poder “localizada em qualquer dessas duas regiões apresenta condições idênticas quanto à segurança nacional”, mas elenca alguns fatores que representavam maior necessidade de investimento, sobretudo sob a ótica militar, e todos relacionados ao sul do país. Zeno Estillac Leal, em substituição a Milton de Freitas Almeida, chefe do Estado-Maior do Exército, revelou, em caráter reservado: “Ainda que reconhecendo as vantagens decorrentes da mudança da Capital, o EME é de opinião que ela não assume um caráter primeiro de urgência.”

Não era o pensamento dos goianos. Na Assembleia Legislativa do estado, a Lei 41/1947 previa a “doação de terras devolutas ao Governo Federal, na área que for escolhida a futura capital.” No mesmo ano, o projeto é sancionado pelo então governo Jeronymo Coimbra Bueno (UDN), também membro da Comissão de Estudos da Localização da Nova Capital do Brasil.

Área do futuro DF aumenta em cinco vezes

Finalmente, em 1948, é publicado e submetido ao presidente Eurico Gaspar Dutra o Relatório Técnico do que se convencionou a chamar Missão Polli Coelho. Nele, fica clara a batalha entre mineiros e goianos: por seis votos a cinco, vence o projeto de capital no Planalto Central.

Em decorrência disso, emite-se o parecer que elege o interior goiano como sede do poder político brasileiro. Pelo estudo, a área reservada para a capital aumentaria dos 14.440 km², previstos na Constituição de 1891 e demarcados por Luís Cruls e equipe, para 77.000 km².

“Com essa necessária extensão de sua área, o novo Distrito Federal assumirá o porte (…) com cerca de 77.000 km2 de superfície. Pela força dos fatos se terá de entender os textos constitucionais com esta natural amplitude, a fim de poder conseguir, pela interiorização da Capital, uma série considerável de efeitos benéficos e imediatos, efeitos que se tornaram agora possíveis pela atual massa dos serviços estatais e paraestatais do Governo da União, pelas modernas facilidades de transportes por vias terrestres e aéreas, pelas oportunidades supervenientes do desenvolvimento econômico da região em um todo quase autárquico para a satisfação de suas necessidades”, apontam os escritos.


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