Documentar uma divindade esportiva é sempre um teste de honestidade intelectual. Quando Zico, o Samurai de Quintino chega aos cinemas nesta quinta-feira (30), o que o espectador encontra não é a celebração previsível de um nome já consagrado, mas uma investigação legítima sobre o que se paga para ser eterno. João Wainer não chegou até Arthur Antunes Coimbra para confirmar o que todo torcedor já sabe.
O filme parte das peladas do bairro suburbano de Quintino e percorre décadas com um ritmo que se recusa à cronologia burocrática. Imagens de Super-8, cartas e diários manuscritos aparecem não como recursos nostálgicos, mas como provas de que a memória tem textura, tem cheiro, tem o grão do tempo. Wainer organiza os materiais com inteligência editorial, permitindo que épocas distintas da vida de Zico conversem entre si sem que o espectador se perca.

A obra não silencia os episódios incômodos. A perseguição política sofrida pelo irmão Nando durante a ditadura militar entra no filme sem eufemismo. Os traumas físicos de 1985, a derrota para a França em 1986, o peso de Sarriá em 1982, nada disso é tratado como detalhe ou nota de rodapé. São as fissuras da narrativa, e é nelas que o documentário respira com mais liberdade.
Sandra, companheira de cinco décadas, funciona como a consciência emocional do filme. Não é uma voz que protege a imagem do marido, é uma voz que a contextualiza. Pelos seus olhos e pelos depoimentos dos filhos, o espectador percebe que Zico foi um pai dividido entre uma família e um país inteiro de torcedores. Essa tensão não é julgada, apenas mostrada com franqueza.

A passagem pela Udinese aparece como um período de consolidação internacional, onde o carinho dos italianos até hoje permanece vivo e genuíno. Mas é a chegada ao Japão que expande o documentário para além do futebol. O Kashima Antlers era um clube amador vinculado a uma siderúrgica quando Zico desembarcou. O que veio depois tem dimensão histórica comparável ao que Pelé construiu nos Estados Unidos nos anos 1970, e Wainer não deixa essa comparação escapar.
O momento mais revelador do documentário pertence ao próprio Zico. Em determinado ponto, ele admite que, se tivesse seguido o que sentia, não teria ido à Copa de 1986. O corpo não estava em condições. Mas foi. Essa confissão desmonta em poucos segundos a imagem do atleta impassível e coloca no lugar um homem comum diante de uma decisão impossível, carregando o peso de uma nação nas costas enquanto o próprio corpo pedia descanso.

Wainer entrega um trabalho competente e emocionalmente honesto, embora permaneça dentro de uma cartilha narrativa mais segura do que a ousadia vista em trabalhos anteriores seus. A estrutura convencional não diminui a força do resultado, apenas indica que havia espaço para arriscar mais. Para o torcedor do Flamengo, o filme será um banquete. Para qualquer outro espectador, será uma lembrança de que por trás de todo mito existe alguém que pagou um preço alto para sustentá-lo. E para os leigos como eu, que nunca entenderam muito de futebol, o documentário prova que não é preciso entender do esporte para entender do homem.
Conclusão
Zico, o Samurai de Quintino não pretende reinventar o gênero. Pretende, com seriedade e sensibilidade, devolver um homem à sua própria história. E nisso o filme cumpre com êxito o que prometeu, que é bastante.
Confira o trailer:
Ficha Técnica
Direção: João Wainer;
Roteiro: Thiago Iacocca;
Elenco: Arthur Antunes Coimbra;
Gênero: Documentário;
Duração: 103 minutos;
Distribuição: Downtown Filmes;
Classificação indicativa: 12 anos;
Assistiu à cabine de imprensa a convite da Primeiro Plano