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Vic DiMonda e a arte de ensinar gerações a dançar

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Anna Salles
Especial para o Jornal de Brasília

Com uma vista excepcional da Torre de TV e sua belíssima fonte de água e luz, a Esplanada dos Ministérios e o céu estrelado de Brasília, me sento com Vic DiMonda na cobertura de um dos hotéis da cidade. Estou interessada nas histórias que o novaiorquino tem para contar. Vic nasceu e cresceu em Long Island, faz teatro musical e dança desde os 16 anos e tem muita experiência para partilhar com os artistas da cidade. Com um currículo extenso de ator e bailarino que inclui “Camelot”, “The Wizard of Oz”, “42nd Street”, “Fiddler on the Roof” e “Macbeth”, Vic também dirigiu e coreografou as produções internacionais de “My Fair Lady”, “The King and I”, “Grease”, e “West Side Story”. E o que ele está fazendo em Brasília é simples e rico: compartilhando conhecimento. Ele ministra um workshop nesta semana e na próxima, no Iesb Campus Sul, com aulas avulsas e pacotes semanais com descontos para grupos, em uma produção do Instituto de Belas Artes que conta com o Apoio do Iesb e Maple Bear Canadian School, com inscrições abertas no site www.vicdimonda.com.br. Nesta entrevista, ele dá lições não somente de dança, mas de mercado e de vida. Confira abaixo.

Nós queríamos começar sabendo um pouco mais sobre você. De onde você veio, por que você está fazendo o que você faz agora?
Bom, eu sou de Nova York, de Long Island. Cresci pertinho da cidade de Nova York. Descobri no fim do ensino fundamental, por volta dos meus 12 anos, que ‘Oh meu Deus, estar no palco, isso é muito divertido! Eu gosto disso!’ E desde então, até o fim da faculdade (que também fiz em Long Island) eu defini meus objetivos na carreira e o que precisava fazer para sobreviver, mas eu nunca mais deixei o teatro. Quando eu me formei na faculdade eu não olhei para trás, fui direto para Nova York.

E o que fez você descobrir que era isso que você queria? O que te impulsionou?
A prática. Eu fiz, e então entendi ‘ah, as pessoas respondem bem a isso’. Comecei com uma produção acadêmica, depois fiz produções comunitárias e em cada nível eu nunca estava saciado. Sempre pensava, ‘eu quero ser melhor, eu quero mais’. Já no começo do meu interesse por teatro e dança, eu era um dos melhores e isso não era suficiente para mim. Então fui buscando por coisas melhores, mais desafios. Descobri que quando eu estava em um ambiente onde as pessoas eram melhores, eu queria ser como elas. Eu observava o que elas faziam e percebi que eu teria que ser tão bom quanto elas.

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Então essas pessoas são sua inspiração? O que é sua inspiração para continuar o que você faz?
Eu não sei se elas são minha inspiração. Não é tão simples quanto a inspiração. Eu faço o meu trabalho porque eu não seria feliz fazendo nada além disso. Eu simplesmente não posso. Seria bem mais simples… E eu falo para os meus alunos sempre: ‘Isso aqui é difícil, então vá ser um contador, formar uma família e ser feliz.’ (risos) E eu tentei isso, eu tentei ser um gerente de telemarketing, tentei ser um professor — não um professor de teatro, um professor de escola… E eu era bom e gostava, mas não alimentava minha alma. O que me alimentava era o trabalho duro… Nós acabamos de sair da aula agora e eu estou exausto! Estou acabado! Mas é um cansaço bom. Um cansaço que me faz sentir que eu alcancei algo. Nós dançamos naquela sala por duas horas, mas eu poderia ter dançado sozinho por duas horas… Eu não preciso de uma plateia, eu preciso fazer o meu trabalho.

O quão importante você acha que é para os artistas brasileiros fazerem um workshop como esse?
Eu acho que é importante não só para artistas brasileiros; acho que é importante para qualquer artista. Eu não ensino apenas na The Ailey School, em Nova York, também sou um membro da equipe de um dos grandes teatros regionais do estado. Então eu estou no mercado, eu sei o que as pessoas precisam fazer para que os outros paguem pela sua arte, para realizar seus sonhos. Eu entendo os sonhos, seus sonhos são muito importantes, mas sem a técnica — a técnica física e a técnica de trazer seu coração e alma para trabalho físico. Sem entender como isso funciona, você nunca vai conseguir ser pago para fazer esse trabalho. Você sempre vai ter que ter um outro emprego e isso sempre vai ser sua via secundária. Se você quer fazer da arte a sua vida, você precisa do que eu estou ensinando. E não é um ensino do ‘5, 6, 7, 8…’, não é o ‘ok, o que está no seu coração?’. É tudo que subjaz isso para trazer à tona a vida e dar clareza ao seu trabalho para que a plateia entenda o que você está sentindo.

O que você falaria para as pessoas que ainda não estão fazendo o workshop?
Ainda tem espaço para mais pessoas virem porque nós nos alimentamos dessa energia de outros dançarinos. Nós tivemos hoje uma sala cheia, mas quanto mais gente fazendo escolhas cênicas, maior é a inspiração para continuar. Isso volta no que eu disse antes, eu costumava observar meus colegas e pensar ‘aquilo é ótimo, ele está indo muito bem, ele fez uma ótima escolha cênica, eu vou tentar aquilo!’ Mas eu não saberia que deveria tentar aquilo se eu não tivesse visto ser feito. Então seu primeiro passo é entrar na sala, você tem que ir! Você tem que ficar de pé, independente de você ser gracioso ou desajeitado, isso não importa. Você tem que estar na sala de ensaio para começar o processo. Assim você não aprende só com o professor, você mesmo se ensina e seus colegas te ensinam. Seus olhos têm que estar abertos. Se eu faço uma observação para alguém, todo mundo na sala tem que estar ouvindo isso e pensando ‘eu estou fazendo isso?’. Então quanto mais gente, mais coisas eu vejo que precisam de atenção e mais coisas eu posso ensinar. Por isso eu penso que é absolutamente essencial a presença das pessoas numa aula como essa.

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E o que você pensa de artistas que têm todas essas habilidades? Por exemplo, no Brasil nós temos um mercado grande de teatro musical, mas também temos outros mercados cujo foco maior é na atuação. Você acha que esses atores precisam de um treinamento como esse? Você acha importante?
Primeiramente, eu penso que todos os artistas performáticos tem que ter uma facilidade com o próprio corpo. Não significa necessariamente que você precisa ser um dançarino. Mas como um ator você precisa entender como seu corpo funciona e você precisa estar confortável consigo mesmo. Esse workshop pode te ajudar a chegar lá. Nós falávamos disso no caminho para cá… Ter mais habilidades técnicas deixa você mais apto para conseguir mais oportunidades de emprego. Então, não, você não precisa ser um bailarino para ser um bom ator, mas estudar e entender o movimento vai fazer de você um ator melhor. E se você de fato levar o movimento para o próximo nível e efetivamente dançar, você vai estar pronto para trabalhos que alguém que é só ator não vai estar pronto. Não tem nada de errado em ser só ator, essas aulas vão te ajudar a viver no seu corpo. E se isso for tudo que você tirar dessa experiência, meu Deus, isso é incrivelmente valioso! Mas se você escolher continuar e ser uma atriz que dança, você estará à frente do jogo. Vários dançarinos nunca passam do ‘5, 6, 7, 8…’ e um bailarino que faz somente os passos e não coloca seu coração e alma nisso, que não me dá contexto ou não faz escolhas cênicas, não conta a história. Então é melhor nem se incomodar em subir no palco. Eu acredito que é preciso diversificar.

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Tem algo que você gostaria de adicionar ou dizer para as pessoas que estão pensando em fazer o workshop?
O único jeito de melhorar suas habilidades é se movimentando. Você tem que dançar! Algumas vezes em Nova York recebo pessoas que vem apenas assistir às aulas porque eles não tem certeza se querem fazer a aula e precisam ter certeza do que estão procurando. Se eu consigo falar com eles antes, sempre encorajo que fiquem de pé e façam aquela aula. Você pode só absorver 60% da aula que você está fazendo hoje, mas amanhã consegue 61%, e na próxima vez 62%. Porque não melhora sem você efetivamente fazer. Você precisa estar lá, de pé, e não importa se você está errando. Erros são a única forma de chegar no acerto. Se eu estivesse contratando pessoas para um espetáculo, eu não aceitaria erros, eu quero dançarinos prontos. Mas não é esse o objetivo desse workshop, ele é para feito para ajudar as pessoas a desenvolver suas habilidades. É preciso estar em sala para atingir isso. Algumas vezes eu vejo os dançarinos ficarem frustrados e dizer ‘eu vou ficar aqui no canto então e só assistir’, então eu vou até eles e digo ‘olha, eu não me importo quantos erros você cometa, mas você não vai se sentar porque assim seu corpo não vai aprender’, não é apenas sua mente, seu corpo precisa aprender.

O quão valioso que você acredita que sejam essas aulas?
Bom, o valor de eu ter sido convidado pelo Instituto de Belas Artes, o valor disso para os brasileiros é que eles não precisam estar em Nova York para conseguir uma aula de nível profissional. Se você pensar no quanto custa ir até Nova York… As passagens, hotel, transporte, alimentação… E isso tudo antes de você sequer entrar na escola de dança. Aqui, você só vem e faz o workshop. Então eu acho que não fazer a aula é perder uma enorme oportunidade. Eu só estou aqui por duas semanas, e eu adoraria ficar mais tempo, porque eu me apaixonei pelo Brasil e por Brasília, é muito charmosa e as pessoas são incríveis, mas a questão é que eu parto e tenho um projeto em Nova York na segunda-feira seguinte. Então é isso, só duas semanas… Se você perder, bom, então ótimo, venha para Nova York! É assim que você vai poder me encontrar.

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E você estava na Itália antes daqui, dando workshops também. Pode nos falar um pouco disso?
Este workshop não é algo de primeira viagem; é um programa de sucesso que eu já ministrei na França, na Itália, na Coréia e em diversas cidades dos Estados Unidos. Eu tenho alunos internacionais que, depois das aulas, me seguem para Nova York e não posso nem explicar como me surpreende quando isso acontece. Algumas vezes eles me mandam e-mails, mas outras vezes eles simplesmente aparecem! Minha cabeça simplesmente explode porque eu fico tão feliz que nós possamos continuar o desenvolvimento profissional daqueles alunos. Eu amo esse trabalho, amo trazer isso para a próxima geração. Quando eu fui ficando mais velho, e eu não vou te contar o quão velho, eu descobri que eu não posso mais saltar tão alto quanto eu saltava, eu não posso mais fazer tantas piruetas quanto eu fazia… Não me entenda mal, eu ainda sou ótimo! Mas eu posso ver que minhas habilidades estão mais fracas porque meu corpo está envelhecendo. Minha função na indústria agora é pegar essa habilidade que me foi dada pelos grandes, como Chris Chadman, Frank Hatchett, Michael Owens, Natasha Baron, Kat Wildish, Madame Darvash… E esses são os grandes da geração anterior à minha. Eu trabalhei com membros originais do “A Chorus Line” como Thommie Walsh, Baayork Lee… E eles foram grandes fontes de conhecimento e talento. Todos eles tiveram algo a ver com a forma que minhas habilidades e minha carreira foram moldadas. Eles deram isso para mim de coração aberto, porque a dança é uma forma viva de arte.

De que maneira a dança é uma arte viva?
Dança não é algo que existe, exceto quando as pessoas a estão executando. Agora eu estou transitando para o nível deles; estou virando a próxima geração e é meu dever passar meu conhecimento para a geração seguinte. A tragédia é que se a sua geração, a nova geração, não abraçar essa forma de arte e literalmente tomá-la da minha alma e tudo que tenho a oferecer, então essa arte morre na sua geração. É uma responsabilidade incrível ser quem possui esse talento e é uma responsabilidade igualmente incrível ser o indivíduo que vai receber esse presente, porque será seu dever passa-lo pra frente. Você conhece a Deidre Goodwin? Ela está no filme Chicago. D. e eu fizemos juntos o meu primeiro trabalho profissional de teatro musical, então eu a conheço há vários anos e ela é uma mulher linda que cresceu muito na carreira. Recentemente, ela começou a lecionar e algumas vezes me substitui em aula; eu a chamo para fazer workshops, e eu meio que ajudei ela nessa profissão de ensinar. Isso está indo muito bem, ela está lecionando na New York Film Academy, está em todo lugar. Mas meu ponto é, ela me viu um dia e disse, ‘Meu Deus, Vic, nós somos os caras velhos… Quando isso aconteceu? Eu estou tão apavorada!’. E então eu disse para ela, ‘Não é assustador, é ótimo! É um privilégio estar no topo das nossas carreiras e de lá nós devemos passar para a próxima geração’. É incrível!

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