Quando a trama consegue nos conquistar desde as primeiras tomadas, fica difícil não se apaixonar pelo filme. Este é o caso de A Grande Beleza, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, que nos brinda com uma deliciosa surpresa: a partir do desenrolar da história o encantamento é ainda maior. Em seu segundo longa, As Consequências do Amor (2004), Paolo Sorrentino tinha como protagonista Toni Servillo, cujo personagem morria de medo de perder a imaginação. Um década depois, o cineasta italiano volta a nos presentear com um personagem melancólico e meditativo, mas vai além. Isto porque o protagonista de seu filme mais premiado, vivido novamente por Servillo, é um homem que tenta resgatar o sentido da vida em meio a um cenário deslumbrante: Roma (que também faz as vezes de personagem).
O homem em questão é Jep Gambardella, numa interpretação marcante de Servillo. Um escritor/jornalista que celebra o seu 65º aniversário numa festa regada a muita bebida e luxúria no terraço de um edifício da cidade. Quando recebe a notícia da morte do seu primeiro amor, e cansado da vida frívola que leva, Jep passa a procurar pessoas importantes que marcaram sua vida.
Crítica ácida
Numa referência clara ao mestre Federico Fellini e seus indefectíveis A Doce Vida, Oito e Meio e Roma, Sorrentino aproveita as reflexões de Jep para fazer uma ácida crítica à alta sociedade italiana contemporânea (na verdade, as observações caberiam muito bem na sociedade de qualquer país do século 21).
Jep vive das glórias de seu único livro de sucesso e agora é repórter de uma revista de celebridades. Com uma existência niilista até então, em que a simples ideia de vida é deveras estreita, acompanhamos o protagonista numa busca incessante pelo sentimento que vai além do sublime, belo ou idealizado.
Apesar de um roteiro primoroso, escrito pelo próprio Sorrentino, e fotografia impecável, a excessiva duração do filme pode atrapalhar um pouco, assim como uma série de cenas que bem poderiam ser cortadas para o deleite do espectador. Metáforas óbvias e pueris da atual situação econômica do país, por exemplo, acabam comprometendo (um pouco) o filme.
Comparação
Impossível não comparar A Grande Beleza à Roma, já que a película é uma deliciosa ode à capital italiana. Pode-se dizer também que o filme é uma espécie de meio-termo entre a sociedade hedonista de A Doce Vida e o bloqueio emocional vivido em Oito e Meio. A comédia dramática nada mais é que um grande arroubo felliniano sobre um bon vivant divertidamente decadente que nos incita a querer contemplar o simples.