O terror, o grotesco e a sátira política se encontram em “Esgoto – O cheiro que sobe do ralo”, espetáculo que estreia neste fim de semana, às 20h, no Teatro dos Bancários. Com dramaturgia e direção de Rômulo Mendes, a montagem do Poetizar Coletivo Teatral propõe uma leitura crítica dos últimos anos da política brasileira a partir de elementos do absurdo, da comédia e de referências que atravessaram o imaginário social recente do país.
A pesquisa que deu origem ao texto começou em 2022, durante o período das eleições presidenciais, e se debruçou sobre memes, notícias e episódios políticos que ganharam repercussão desde 2018, ano da vitória do projeto de extrema-direita no país. Segundo Rômulo Mendes, o espetáculo nasce da tentativa de compreender como determinados discursos e comportamentos passaram a ocupar o centro do debate público brasileiro.

Na peça, o diretor utiliza a caricatura e o exagero como ferramentas dramatúrgicas para abordar práticas políticas e comportamentos coletivos que, segundo ele, deixaram de pertencer apenas ao campo da ficção satírica. O espetáculo se aproxima da tradição teatral que utiliza o humor e o absurdo para tensionar temas sociais e políticos.
“A falta de comprometimento com a verdade, a dissimulação no discurso, nas promessas, na falta de transparência, se assemelha muito a alguns clássicos da dramaturgia, que criam caricaturas de determinados perfis e comportamentos do ser humano. A corrupção política foi tema de muitas peças de teatro, muitas vezes colocando uma lente de aumento em algum fato real. O absurdo é ver que esses comportamentos inescrupulosos, antes exagerados para que fossem expostos, deixaram de ser uma caricatura, e se tornaram reais”, diz o diretor.

Ao mesmo tempo em que aposta no humor como linguagem principal, a montagem também assume um caráter de denúncia e confronto diante do cenário político contemporâneo. Para Rômulo, determinados temas que antes poderiam soar excessivamente panfletários passaram a exigir posicionamento mais direto diante da realidade brasileira recente.
“Ao mesmo tempo que alguns conceitos facilmente caem no panfletário, diante da realidade atual, eles passam a ser necessários. Minha tentativa foi enfatizar a reação, hora patética, hora agressiva dos bolsonaristas diante destes conceitos. A ideia é focar na ignorância como doença autodeclarada e conformada”, explica.
A proximidade de um novo ciclo eleitoral também atravessa a leitura atual que o diretor faz da obra. Para ele, a peça deixou de funcionar apenas como um retrato de um período específico da política nacional e passou a dialogar com uma permanência de discursos e comportamentos no cenário público brasileiro.
“Eu já pensei nessa obra com a intenção de provocar o riso, mas agora, com a proximidade de novas eleições presidenciais, talvez a intenção principal seja escancarar a ignorância ainda vivida pela extrema-direita e por parte da população que adere aos preceitos do bolsonarismo. Acredito que muitas pessoas permanecem presas como ratos em suas cavernas, negando não só a ciência, os direitos humanos, a arte ou a educação, mas a vida em si”, completa.
O processo de pesquisa e criação do espetáculo também exigiu um mergulho contínuo em discursos políticos, redes sociais e reações públicas dos últimos anos. O diretor afirma que o contato constante com esse universo foi marcado por desgaste e inquietação diante da permanência desses fenômenos no país.

“É muito desgastante estar imerso nesse universo. Pesquisas constantes, ver todos os discursos, ler todos os comentários em postagens nas redes, entender como cada fato impactou na opinião pública, o que foi aceito ou não. O asco causado nesse processo é muito significativo. Mas o que mais me preocupa, por incrível que pareça, é pensar que essa peça ainda tem vida longa, não como um recorte de um período histórico superado, e sim como algo que promete durar por muito mais tempo.”
O elenco reúne Abaetê Queiroz, Antônio Lima, Bruno Coeoli, Camila Meskell, Julian Pessoa, Marcellus Inácio, Mayra Del Duca e Paula von Kostrisch. Segundo o diretor, a escolha individual dos intérpretes foi fundamental para a construção da encenação e das múltiplas camadas do espetáculo. “Esse é um elenco que pude escolher individualmente, o que faz toda diferença no momento de levantar um espetáculo autoral, porque cada artista desempenha um papel específico, tanto como personagem quanto como intérprete”, ressalta Rômulo.
Além da direção e dramaturgia, Rômulo Mendes também assina o cenário da montagem. A iluminação é de Abaetê Queiroz, a sonoplastia de Maíra Malhadas e a produção de Silvia Viana. A maquiagem fica a cargo de Bruno Coeoli e o figurino é produzido pela Caixa Cênica.
Serviço
Esgoto – O cheiro que sobe do ralo
Quando: 30 e 31 de maio, sábado e domingo, às 20h
Onde: Teatro dos Bancários — EQS 314/315, Asa Sul, Brasília
Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)
Vendas pela plataforma Sympla