A escolha de Alfredo Gaspar como vice de Flávio Bolsonaro recolocou no centro da campanha uma denúncia gravíssima contra o deputado federal do PL de Alagoas. Em março, parlamentares protocolaram uma notícia-crime na Polícia Federal pedindo investigação sobre uma acusação de estupro de vulnerável envolvendo uma adolescente de 13 anos, além de suposta fraude processual e tentativa de compra de silêncio da família. Gaspar nega as acusações.
Eu ainda estava no Can Pou Bar, em Ibiza, com a xícara de café já fria, óculos escuros no rosto e aquela luz de fim de tarde batendo na mesa como se nada horrível estivesse acontecendo no noticiário brasileiro, quando me mandaram o dossiê. E, minhas queridas, aqui não é só “vice escolhido de última hora”. É uma chapa tentando posar de ordem enquanto carrega uma denúncia que parece saída do porão mais escuro da política.

Segundo a denúncia divulgada por Lindbergh Farias e Soraya Thronicke, o caso envolveria uma adolescente de 13 anos que teria engravidado de Gaspar. A criança fruto dessa relação teria hoje 8 anos. Os parlamentares também afirmaram que a avó da criança teria sido registrada como mãe da vítima, numa suposta tentativa de esconder a paternidade do suspeito.
Eu larguei o guardanapo em cima da mesa nessa hora, porque tem frase que nem o deboche da Kátia atravessa sem pedir licença. Flávio Bolsonaro passou semanas tentando arrumar um vice com cara de aliança ampla, tomou porta fechada do Centrão e terminou com uma chapa puro-sangue do PL. Só que o sangue político veio acompanhado de um escândalo que ninguém consegue empurrar para debaixo do tapete sem deixar marca.
A notícia-crime também aponta uma suposta tentativa de compra de silêncio. De acordo com os parlamentares, um intermediário de Gaspar teria oferecido R$ 70 mil para que uma mulher mantivesse silêncio sobre o caso, enquanto outros R$ 400 mil estariam sendo negociados para garantir impunidade. As evidências, incluindo prints de conversas, teriam sido entregues à Polícia Federal sob sigilo.
Gaspar se defende dizendo ser alvo de perseguição política. Ele compartilhou um vídeo de uma mulher afirmando que não é filha dele e apresentou um exame de DNA feito por ambos. Soraya Thronicke, porém, contestou essa defesa e afirmou que a mulher do vídeo não seria a criança citada na denúncia, já que, segundo a versão apresentada pelos parlamentares, a vítima teria hoje 21 anos e a filha dela teria 8.
Eu pedi a conta, porque café nenhum segura esse nível de lama. E reparem no retrato: o escolhido de Flávio foi procurador-geral de Justiça de Alagoas, secretário de Segurança Pública, construiu imagem de “bancada da bala”, relatou a CPMI do INSS contra o governo Lula e agora chega à chapa presidencial com uma denúncia de estupro de vulnerável pendurada no pescoço político.
A indicação também expõe o isolamento de Flávio. PP, União Brasil, Republicanos e Podemos não embarcaram formalmente na chapa, e o PL acabou fechando uma composição caseira. Tereza Cristina e Daniella Marques chegaram a ser cotadas, mas não tiveram aval dos partidos. Michelle Bolsonaro nem apareceu no evento, apesar da tentativa recente de demonstrar paz familiar.

Alfredo Gaspar, em sua primeira fala como vice, lamentou a ausência do pai e de Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar, e disse a Flávio: “Ao seu lado marcharei para a gente transformar esse Brasil num lugar justo e decente.” A frase, nesse contexto, chega a bater diferente. Porque uma campanha que quer falar em decência agora vai precisar explicar, dia sim e outro também, por que escolheu como vice um deputado citado em denúncia de estupro contra criança.
Eu saí do Can Pou Bar com os óculos na mão e o celular grudado no ouvido, tentando entender quem calculou esse risco e achou aceitável. No bolsonarismo, a fidelidade costuma pesar mais que constrangimento. Mas esta não é uma saia justa qualquer. É uma bomba moral colocada no colo da chapa.