A literatura de João Cabral de Melo Neto e as artes visuais de Candido Portinari ganham uma nova dimensão em “Severino e Silva”, espetáculo da Transições Cia de Dança que chega ao Gama e a Sobradinho. Com dez coreografias de danças populares nordestinas, a montagem transforma em movimento referências ligadas à cultura e à trajetória do povo nordestino.
Com direção artística de Lehandro Lira e ensaios de Charles Costa, a obra estabelece uma relação com o poema “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e com trabalhos de Portinari. Frevo, coco, cavalo-marinho, baião, xaxado e caboclinho estão entre as manifestações que fazem parte da pesquisa da companhia, que mantém atuação voltada à dança popular do Distrito Federal.
A proposta surgiu do encontro entre diferentes linguagens artísticas. Para Lehandro Lira, a aproximação entre dança, literatura e artes plásticas também amplia as possibilidades de comunicação com o público. “Eu acho que a arte tem essa funcionalidade de unir tanto as artes plásticas quanto a literatura”, afirma o diretor artístico. Segundo ele, a integração permite alcançar espectadores com diferentes formas de relação com a arte e pode aproximar a produção cultural dos estudantes da rede pública de ensino.

Essa perspectiva está presente na maneira como o espetáculo transporta referências visuais para o palco. Em vez de permanecer restrita à pintura, a imagem passa a ser interpretada pelos corpos dos bailarinos, pelos figurinos e pela composição cênica. “Quando você vê um bailarino vestido com determinado figurino que traz de fato uma referência muito forte do que está pintado, do que o próprio Candido quis colocar enquanto uma mensagem, o público acaba enxergando de uma outra forma”, explica Lira.
A montagem, portanto, propõe que o contato com uma obra artística aconteça também por meio da experiência corporal. A dança funciona como uma forma de apresentar aos espectadores elementos que podem ser conhecidos por outros meios, mas que adquirem novos sentidos quando relacionados ao movimento e à presença dos intérpretes.
Com 15 bailarinos em cena, “Severino e Silva” também se insere na trajetória da Transições Cia de Dança e Artes, que atua há anos com manifestações populares de origem nordestina no Distrito Federal. A companhia desenvolve trabalhos relacionados a diferentes ritmos e danças dramáticas e tem entre suas frentes a formação de novos públicos e a valorização de artistas periféricos.

Para Lira, a presença da dança popular nordestina no DF é parte importante da atuação do grupo. “O espetáculo tem essa missão de fazer com que a dança popular nordestina se faça presente e que não seja só mais um corpo, mas um com que o público possa se identificar”, diz. O diretor acrescenta que a companhia vem enfatizando essa linguagem ao longo de sua trajetória e que o trabalho já alcançou outros países.
A remontagem ocorre após a estreia do espetáculo e a procura da rede pública de ensino. A continuidade do projeto também está associada à atuação da companhia como espaço de circulação e multiplicação cultural e pedagógica, com ações voltadas à formação de público e à participação de profissionais da área artística.

As atividades contam com medidas de acessibilidade. O projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF).
Serviço
Severino e Silva — Transições Cia de Dança
Data: 19 e 20 de setembro, às 20h
Local: Teatro Paulo Gracindo, Sesc Gama
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia, mediante doação de 1 quilo de alimento)
Data: 27 de setembro, às 16h e às 20h
Local: Teatro de Sobradinho
Entrada: gratuita