A relação entre poder e opressão está no centro de “O Veneno do Teatro”, espetáculo que retorna a Brasília para uma temporada na CAIXA Cultural. Protagonizada por Osmar Prado e Maurício Machado, a montagem transforma um encontro entre um nobre e um ator em um jogo psicológico no qual a manipulação ultrapassa os limites da representação teatral. Para Osmar Prado, a história também traz uma reflexão sobre a intolerância e as diferentes formas de dominação presentes na sociedade.
Escrita pelo dramaturgo espanhol Rodolf Sirera, a peça acompanha Gabriel De Beaumont, um ator reconhecido que recebe o convite de um excêntrico Marquês para interpretar um texto de sua autoria. O que começa como uma oportunidade profissional se transforma em uma experiência perturbadora, na qual o protagonista perde gradualmente o controle da situação.

Na avaliação de Osmar Prado, a força da obra está na capacidade de abordar questões que ultrapassam o período histórico em que a narrativa se desenvolve. O ator relaciona o texto às estruturas de poder que restringem a liberdade e mantêm determinados grupos em posições de submissão. “A peça não deixa de ser asfixiante, porque o Marquês é o poder absoluto”, afirma. Para ele, a história denuncia diferentes formas de intolerância e opressão, além de provocar uma reflexão sobre quem detém o poder e quem tem a possibilidade de exercê-lo.
O ator também destaca o contexto político em que o texto original foi concebido, na Espanha, após a ditadura franquista. Embora a montagem brasileira tenha uma abordagem atemporal, a discussão sobre autoritarismo permanece central na interpretação da obra.
Uma montagem que atravessa o tempo
Em cartaz há quase três anos, a montagem brasileira já ultrapassou 160 apresentações e foi assistida por mais de 60 mil pessoas. A trajetória, segundo Osmar Prado, demonstra a capacidade de comunicação do texto com públicos de diferentes cidades e contextos.

O ator ressalta que a peça mantém sua força mesmo diante de condições distintas de apresentação. Para ele, a dramaturgia é o elemento que sustenta o espetáculo, independentemente do tamanho do espaço ou da quantidade de espectadores. “Eu acho até que a nossa peça é tão simples que ela pode ser feita com três cadeiras, de repente na sala de uma casa”, comenta.
A simplicidade mencionada pelo ator não significa ausência de elaboração cênica. A montagem conta com um cenário projetado para preservar a dinâmica das cenas e intensificar o confronto entre os personagens. A encenação é assinada por Eduardo Figueiredo, responsável por conduzir o embate até o desfecho da história.
Osmar lembra que o projeto começou a ganhar forma após uma leitura do texto com Maurício Machado e Eduardo Figueiredo, em São Paulo. Desde então, a montagem percorreu diferentes cidades e consolidou sua trajetória nos palcos brasileiros.
Música como parte da dramaturgia
Um dos elementos que distinguem a versão brasileira é a presença de música executada ao vivo pelo violoncelista Matheus Vieira. A participação do instrumento acompanha o desenvolvimento dramático e contribui para a atmosfera de tensão que envolve os personagens. A direção musical é de Guga Stroeter.
Para Osmar Prado, a escolha do violoncelo foi um acerto da direção, por estabelecer um diálogo entre a música e as falas dos atores. “Foi um golpe teatral de mestre do Eduardo Figueiredo”, afirma. Segundo o ator, o instrumento acompanha o confronto entre o Marquês e Gabriel De Beaumont e ganha ainda mais significado no encerramento da peça. Osmar descreve a presença musical como uma parceria dentro da cena. A combinação entre interpretação, texto e música ajuda a conduzir o público pela crescente tensão da narrativa, sem romper a dinâmica do espetáculo.
A temporada na capital também representa o retorno da montagem à cidade onde ocorreu sua pré-estreia. Depois de quase três anos de circulação nacional, a peça volta a Brasília com uma trajetória marcada pela receptividade do público e pelo reconhecimento da crítica. Em 2024, foi apontada pela Folha de S.Paulo entre os dez melhores espetáculos da temporada e recebeu 14 indicações ao 23º Prêmio Cenym de Teatro Nacional.
SERVIÇO
Espetáculo: O Veneno do Teatro, com Osmar Prado e Maurício Machado
Local: CAIXA Cultural Brasília
Data: 27 de outubro a 2 de novembro e 6 a 8 de novembro
Horários: De segunda a sábado, às 20h; domingos, às 19h
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Onde comprar: Bilheteria do teatro e site Bilheteria Cultural
Acessibilidade: Sessões com intérprete de Libras nos dias 30 de outubro e 6 de novembro.